Daqui de cima

por Américo Paim

Velho do céu, camarote é coisa fina, viu? A galera falou e eu achava que era tudo culhuda, não vou mentir, mas isso aqui é o que há. Ar-condicionado, comida e bebida paporra! Tudo free, meu nego. Quer dizer, tudo no preço, que ninguém é idiota. Massagista, show com banda, espaço de descanso, tô besta. Caro pacaralho, só que é outro nível… E as mulé? Morri e tô no paraíso. Se bem que Celinha já disse que quando eu morrer vou é pro jardim do demo mermo. E vai ser difícil me aceitarem. Aliás, por ela já tô no quinto dos inferno. Me mandou pra lá semana passada, na boca do carnaval. Nervosinha… Só porque eu fui pro ensaio de Tatau e tava cheio de mulher. Pô, véi, ela falou que ia sair com as amigas, que não ia rolar. Eu com um esquema massa, free house, os velhos em Guarajuba. Ela roeu a corda, não me deu moral. Era o terceiro carnaval que eu podia ficar com ela. Seria meu próprio recorde.

Sigo no rolê. Tá de boa, mesmo sem a galera. Também… tudo durango kid. Já já arrumo uma deliciosa por aqui. É só jogar as cajá. E esse chão todo limpo, papá? Chego no neguinho que tá servindo uísque. Puxo papo, de boa, elogiando tudo, na conversa mole, tomando umazinha. Quero descobrir onde arrumo lança. Aperto e ele larga o doce: é proibido, mas lá no palco perto da praia talvez… Oxe e tem isso aqui? Vou lá ligeirinho. Chego, a galera na vibe, música eletrônica comendo no centro e a mulherada criando problema com aquelas roupichas… Vou me armar. Entro na pista na “catiguria”, só no suingue. Já encosto numa louraça, com cara já meio doidona. Tô quase com a mão na massa e sinto o cachação nas costas. Doeu até o juízo.

– Taboca, desgraça…

– Que porra é… Ah, Carlito, fala aê… Pô, aqui é Marcelo, né? Lugar chique…

– Vai se fudê, mané.

– Véi, é carnaval, tudo na paz, de boaça.

– Paz é o caralho. Eu devia lhe quebrar todo aqui mermo…

– Peraí, calma, vamo conversar.

– Tu escapa porque num quero ser preso.

– Então, esse é o caminho. Tranquilo, tranquilo…

– Se chegar perto de minha irmã de novo, capo você e faço engolir os bago.

– Home, que agrestia é essa?

– Cê tá aqui na putaria e Celinha tá chorando por sua causa.

– Mas ela terminou. Não fiz nada.

– Se ligue, babaca. Transformo você num quebra-cabeça.

– Ói, só quero brincar meu carná, na boa.

– Tá avisado. E largue essa loura aí. É mulher de amigo meu, seu porra.

Nem me deixou responder e saiu junto com uma cadeia montanhosa de caras, olhando pra mim. Véi, esse cara tá comendo chumbo, tomando bomba… Tá três vezes maior que da última vez. Ali eu num guento um murro. A loura sumiu. Vazo dali. O espaço aqui é grande. Se eu for esperto, ele num me acha mais. Subo as escadas até o balcão que dá pra avenida. Pego outro uísque e pongo no lugar de um tiozão que sai com a mulher. Respiro aliviado. Lá embaixo, passando a pipoca do Camaleão. Rapaz, barril… Daqui de cima é estranho. E a gente naquela confusão ali todo ano. Eu, hein… Rola um ensaio de porrada, mas acaba logo, com a Choque distribuindo carinho e fanta. Lá vem o bloco com minha galera.  Eles vão me olhar aqui no bem bom, on the rocks e asporra. Quero só ver a cara deles. Vou tirar água do joelho. Volto, pego mais um copo e o bloco tá perto. O povo zanzando pela rua. Eita, ó os cara aí, na frente do caminhão. Chegam no pé do camarote e acenam pra mim: João, Queijinho, Catroca, Nenéia, Cururivis, Sandrinha, Miloca e… quem é aquela morena, meu pai? Rapaz, porra é essa… Me chamam. Só se for agora. Que gata maravilhosa. Olhando pra mim, claro. Reconhece os melhores. Não quer perder a chance comigo.

Passo pelos corredores e controles do camarote e chego onde o pessoal está. A lindona não tá mais. Foi com Miloca no banheiro, fala Queijinho. Fico de papo. Conto a eles tudo sobre o camarote, alto nível. Todo mundo babando. Ainda tô no meio do conversê quando ela volta. Mermão, coisa de cinema. Um corpo escultural no abadá todo recortado. Essa mulher é coisa do demo, na moral. Morenona, olhos negros grandes, alta, cabelão batendo nas costas e um sorriso que… ói deixa quieto. Não perco tempo.

– Ninguém me apresenta?

– Clara, esse é Taboca – Sandrinha fala com deboche, porque tá louca por mim que eu sei.

– Marcelo, morena. E Clara é bem bonito, viu?

– Eu gosto.

– E esse carná todo aê?

– Até aqui ótimo.

– Como assim que eu nunca lhe vi?

– Muita gente na rua. É estatístico.

– Ela saía em outro bloco, Taboca – João completa.

– Marcelo, por favor. A moça vai pensar o quê?

– Bobagem não prende minha atenção.

– Aí, gostei de você, menina.

– Por que você não está no bloco?

– Ah, esse ano vim pro camarote. Variar um pouco, sabe?

– É mesmo?

– Você vai ter chance de conhecer. É outro nível.

– Ah, certo… Por que gostou tanto assim?

Repito todos os detalhes para ela, que não parece estar muito interessada. Eu entendo. Não é o nível dela. Pergunto onde mora e ela desconversa, fala das fantasias, dos trios, da pipoca. O bloco tá chegando. Tenho que resolver essa parada logo, não vou deixar essa gata passar. Tá fazendo doce, mas tá na minha. Aqui já foi, papá. Coloco a mão na cintura dela, falando das coisas que ela gosta no carnaval. Ela tira minha mão, véi. Que frescura é essa? Compro uma latinha. Ela não quer. Vou na conversa, arrodeando e puxo mais forte. Ela me dá um empurrão seguro. Até me assusto. Ela se afasta. Vou atrás, dou uma enrolada, digo que não precisa ser tão rápido e tal e coisa.

– Não vai acontecer.

– Que é isso, gata…

– Clara.

– Repare, é festa, vamo curtir.

– Não com você.

– Agressiva… Gosto também.

– Sem noção, né? Surpresa zero.

– Quéquecêqué dizer?

– Sua reputação veio antes.

– Hein?

– Conheço seu comportamento. Tá coerente.

– Tá falando de quê, véi?

– Aliás, como conseguiu camarote todos os dias?

– Como sabe disso, linda?

– Vai negar? Arranjou dinheiro com quem, fio?

– Rapaz, que papo é esse? Vamo pra festa.

Tento mais uma vez passar a mão na cintura e agora ganho um tapa de verdade. Antes que possa reagir, sou agarrado por dois caras. Tento me soltar, só que eles são muito fortes.

– Qual é o problema, Clara?

– Nada, meninos, obrigada. O rapaz se excedeu um pouco.

– Quer que recolha?

– Não precisa.

– Quer que avise Dr. Tito?

– Não. Esqueçam isso.

João e Queijinho me cercam e reclamam. Mando os dois pra casa da porra. Eles que corram atrás das neguinhas deles. Essa morena é minha. Os caras me soltam, ela volta pro grupo dos amigos. Quem é essa menina? E Tito? Esse nome não é estranho. Vou até a entrada do camarote e arranco de um segurança: Tito Silveira é o dono do lugar. Oxe, como assim? Ele num é branco? Essa daí deve ser uma sobrinha, uma filha adotada, né possível… E como ela sabe dessa história dos ingressos?

– Morena, me diga uma coisa.

– Ainda aqui? Volta pro camarote.

– Veja bem, essa história do ingresso…

– Olhe, siga seu caminho, moleque.

– Só quero saber quem falou essa história, morena.

– Não sou morena. Sou negra.

– Que seja. A gente podia se entender…

– Sem chance. Vaza.

– Que é isso… E o sorriso pra mim?

– Tá chapado, é?

– Eu vi lá de cima, vai negar?

– Sim, eu sorri. Pro meu namorado. Vou sorrir de novo, observe.

Olho pra cima e vejo um cara com um bíceps que anuncia meu fim. Ele ri pra ela e joga beijo. Melhor eu ficar de boa e sair dessa logo.

– Oxe, ele lá e você aqui?

– Assunto meu.

– Aonde… Eu que num ia largar você solta…

– Segue sem noção. Ainda quer saber dos ingressos?

– Vá fale, já tô lascado mermo…

– Estranho roubarem as camisas de Flavinho e pouco depois você aparecer com tantas.

– Eita, peraê… Tá me chamando de…

– Nem preciso falar.

– Prove!

– Não preciso.

– Cê conhece o otário do Flavinho de onde?

– Melhor amigo do meu namorado.

– Deixa eu lhe explicar, eu ganhei as camisas…

– Pode parar. Só saiba que ele vem pro camarote.

– Ah, é… Como vai ser isso?

– Os amigos ricos dele bancaram. Fizeram uma vaquinha.

– Porra é essa… Quem? Me diga um. Aquela ruma de amigo pobre dele?

– Os filhos de Seo Tito por exemplo – ela me dá um sorriso escroto e eu engulo seco.

– Então, quer dizer que cê é…

– Formulou sozinho? Que avanço…

– Mas cê é filha do home, por que não fica no camarote?

– Prefiro a rua. Gosto do pé no chão.

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