Monólogo de Pedro, 2.073 d.G.

E caminho, e caminho, por este vale de sombras e de morte. Caminho descalço nesta rua pavimentada de pequenos cadáveres peludos. Um lago marrom e eriçado e imóvel conduzindo meus pés como as águas turvas do Mar da Galileia guiaram os pés de Gordô. De vez em quando se mexem e piso neles esperando o sangue jorrar e pintar meus pés de vermelho. É minha vingança por Madá. Escavo com as mãos escombros de roedores, enterro os braços até os ombros no morticínio. Volto com as marcas dos dentes e das patas e com os pelos grossos cravados e berro por você, Madá, com a voz que eu julgava extinta. São muitos anos sem falar neste carnaval silencioso e infernal vagando dentro de dias infinitos. 

Os dias infinitos e repetidos que me levam num trajeto circular ao Beco da Galileia, onde Gordô nos abandonou e eu abandonei Madá. Como me lembrar do que ainda está acontecendo? Mas eu me lembro porque todo dia é sábado de carnaval desde que deixei Madá em cima de um tijolo no fundo do beco guardando a cruz de Gordô enquanto os ratos inundavam as ruas do Centro Histórico afogando os blocos e o tempo. Os pelos pontudos salpicados de purpurina sobre as pedras portuguesas espelhando as estrelas – mosaicos iluminados de morte do céu. Acho engraçado o que está vivo na verdade estar morto. Você não está morta, Madá. Conheço muito bem gente morta, e você não é uma delas.

Depois de deixar Madá no beco começou minha provação. Precisava encontrar Gordô e avisá-lo de um apocalipse que talvez nem ele tivesse previsto. Minha peregrinação durou horas, talvez dias. A princípio andei ainda com meus sapatos vermelhos por cima e por entre as manadas de roedores. Com as armas do pontificado eu me defendia, golpeando os ratos com a férula e me protegendo de seus dentes e patas dentro da batina. Durou pouco. Tentei gritar quem eu era, de quem eu estava a serviço. Logo se apossaram do meu cajado e rasgaram minhas vestes me atirando no chão e me cobrindo com seus corpinhos felpudos. E então eu te vi, Madá. Senti o manto morno da morte e vi o vulto do seu rosto esmagado entre as barrigas cinzentas. Você esteve ali por um longo tempo, atada no outro canto da morte. Dentro daquele órgão gigante que tinha se tornado a montanha de roedores eu era como um pequeno tumor, com a paz de um pequeno tumor se desvanecendo em asfixia. Eu teria ficado ali, Madá, divisando o seu rosto delicado das caras grotescas dos ratos. Eis a férula aparece, de cabeça pra baixo, eu seguro na cabeça de Gordô crucificado e sou puxado para fora daquela ratomaquia.

Lá fora caí exaurido. Por um tempo não consegui sequer levantar a cabeça e tomar ciência de meu salvador. Sentia acima de mim o céu escurecer e trovejar e abaixo a terra tremer anunciando outra cheia. E dizia a ninguém: preciso voltar. Preciso voltar para a ratomaquia e resgatar Madá. E para meu espanto, Ninguém me respondeu: o rosto de Madá é como a luz das estrelas. A voz etérea me despedaçou e comecei a chorar um choro impedido, a boca cerrada em cima do tapete de ratos porque não conseguia me levantar para encarar e sufocar a voz que tentava me convencer que o rosto de Madá era um truque diabólico. E de novo a férula se estendeu até mim e me tocou no topo da cabeça como se me benzesse com a coroa de espinhos de Gordô. E de fato o toque do cajado injetou o sangue imolado nas minhas veias e passei a me erguer esmagando com os joelhos os roedores inchados como bolas de sabão. Agora eu podia vê-lo.

Era careca – a cabeça coberta por uma película bege e brilhosa. A face sem rugas de um bebê gigante contrastava com as mãos esquálidas de velho. Vestia um terno de linho preto e usava sapatos novos e engraxados. O casaco estava desabotoado e no colete exibia uma corrente com um pingente negro em espiral e no cinto um grampo forrado de ouro com uma adaga enfiada num coldre de couro. Lançou um olhar pela rua como se enxergasse através das montanhas de ratos até a parede branca do céu.

Como vai?

Não respondi.

Vieram me perguntar se ouvi alguém gritando, disse.

Eu não estava gritando.

Olhei da janela e não consegui ver nada que já não estivesse aqui antes. Aí desci e vi essa coisa brilhando jogada no chão, disse, apontando para a férula na minha mão. Viu que eu estava desorientado.

Onde está Madá?

Já lhe disse que não existe mais, seja qual for o nome que usa agora.

E Gordô. Onde está?

Espalmou as mãos para cima e fechou os olhos; mas não rezava, apenas acenava que não sabia onde estava Gordô, ou que sequer o conhecia. Não tive tempo de perguntar. Naquela rua fedendo a carniça o perfume do homem se fazia sentir como se estivéssemos num campo de flores recém desabrochadas. Era impossível não se aproximar dele como da porta de saída de um inferno. E realmente diante de nós havia uma porta, larga e alta, sem ornamentos exceto pela maçaneta dourada na superfície preta. Entrei atrás dele e a ouvi bater com o vento.

A casa tinha três andares com escadas em caracol, expostas, assim como os cômodos sem divisão. As janelas estavam todas abertas e entrava uma luz morna que enchia o ambiente de paz. Era o que eu sentia, Madá, paz, depois de peregrinar sobre ratos e ratazanas e perder o seu rosto esmagado pelas barrigas cinzentas. Não me lembrava de ter visto a casa nos arredores do Beco da Galileia, mas me senti afortunado pela acolhida do homem que, apesar de decretar sua desaparição, Madá, mostrava-se mais atencioso que o negligente Gordô. Com sua voz etérea me disse para tomar banho e vestir roupas novas. No caminho para o banheiro pude observar melhor a casa – os móveis muito novos, as cores claras dos tapetes e dos objetos decorativos, os lustres suntuosos, os quadros em molduras elegantes dispostos nas paredes. E ninguém naqueles cômodos todos, além dele, o homem, que eu já me culpava por tê-lo batizado de Ninguém.

Não há necessidade de nomes, ele disse quando saí do banheiro, ainda enrolado na toalha.

Você não se importa que eu te chame de Ninguém? Pode ser confuso.

Não há necessidade…, interrompeu-se e apontou para a cama da suíte em que estávamos. Sobre ela, uma túnica branca dobrada e, no piso laminado, sapatilhas vermelhas.

Isso é pra mim?

Naturalmente. E mais isto.

Tirou do bolso interno do paletó uma folha dobrada que se abriu nas suas mãos revelando a minha rescisão e o pontilhado que levaria a assinatura de Gordô.

Mas você não é Gordô. Inclusive, é bem magro. Duvido que levantaria uma cruz daquelas.

Justamente. Mas pra que serve um nome? Pedro… Nomes são barreiras.

O perfume do homem era uma mistura de jasmim com groselha, usado pelas velhas na igreja. Peguei a caneta de seus dedos finos e assinei acima do meu nome. Depois foi a vez dele, um falsificador competente na sua imitação da grafia de Gordô.

E agora?, perguntei.

Agora tudo é permitido, Pedro.

Vesti as roupas novas e descemos a escada para o primeiro andar. Ali, na sala espaçosa com um extenso sofá e uma mesa com pelo menos uma dúzia de cadeiras, Ninguém parou e virou para mim. Na mão direita tinha dois cálices dourados com pequenos desenhos de animais selvagens e criaturas com muitos braços e asas e cabeças maiores que seus corpos. Sua mão esquerda segurava uma garrafa de champanhe. Ele serviu as taças e me entregou uma. Não brindou. Seguiu para uma porta de correr nos fundos da sala e a abriu de uma vez.

Foi como se o sol estivesse a poucos metros de nós. Fiquei cego e minha cabeça começou a doer. A tontura me fez buscar uma das cadeiras da sala, mas minha mão livre não encontrei nada além da quentura da luz. Os dedos do homem apertaram meu ombro e sua voz fantasmagórica me disse para seguir adiante.

Não vejo nada, eu disse, caminhando no escuro, confiando nas palavras de Ninguém.

Caminhava e sentia a luz pousando sobre os braços descobertos. O homem me colocou sentado no que parecia uma cadeira baixa e largou meu ombro. Bebi o conteúdo da taça num gole só. Rabiscos indecifráveis assumiram formas humanas quando recobrei a visão. E o que se apresentou a mim nem o Éden poderia oferecer. Madá, insondáveis são os caminhos de Gordô.

Legiões de mulheres corriam, gargalhavam, brincavam, deitavam com coelhos e serviam os braços e as ancas de poleiros para pássaros e borboletas coloridas na relva do jardim. Algumas se banhavam e provocavam as outras espirrando as águas de uma fonte circular construída ao redor de um suntuoso serafim de pedra. Seus cabelos molhados cobriam os seios e os ramos que antes tapavam seu sexo agora flutuavam na água transparente. Atrás da fonte, macieiras e videiras eram assaltadas pelas mais jovens, vestindo coroas de flores nas cabeças e vestidos leves e brancos nos corpos adolescentes.

Vá em frente, disse Ninguém. É Carnaval.

À medida que eu caminhava pelo jardim, as mulheres vinham ao meu encontro. Estiquei as mãos para tocar a relva que se erguia a meio metro do chão, duvidando daquela graça concedida. Mas o toque das mãos femininas – miríade de dedos e mãos femininas alisando todas as regiões do meu corpo velho e ansioso – era a prova do milagre. Entre beijos e abraços e incursões mais íntimas, elas me carregaram para a fonte e me atiraram nos braços das amigas risonhas. Disseram às gargalhadas que iriam me batizar. Confesso, Madá, que aquilo também me fez rir.

Sentado na cadeira, o homem nos observava tomando champanhe. Tinha se despido do terno e da camisa e tomava sol no dorso branco e sem pelos.

É bom escolher uma, disse. Haverá tempo para todas.

Até agora todas as suas sugestões tinham me rendido alegrias. Aquela, não. De todo modo, puxei da fonte a moça que me batizava com mãos intermináveis. Vesti a túnica e segui o homem de volta para o interior da casa. Lá dentro ele apontou a escada e depois a suíte em que eu tinha tomado banho e me vestido. Em seguida voltou para o jardim e fechou a porta de correr. Caminhamos até a cama, e, bem, Madá, a partir daí você certamente conhece os caminhos. Os desígnios da carne.

A mulher empreendia belíssimos movimentos em cima do meu corpo e agarrava os lençóis com as mãos livres e gemia o gemido das deusas, caso existissem. Mas as linhas de Gordô são sempre tortas. Seu agente – Ninguém – apareceu sentado na cama. Berrei, derrubando a moça no chão. Atrás dele, na única parede do quarto, um quadro terrível se dava a interpretações: dois corpos desnudos, de cabeça para baixo, com uma incisão do abdome à garganta, por onde os órgãos foram arrancados. Como sempre, o homem sorria.

Que caralho…?, falei.

O homem estalou os dedos. As legiões de mulheres do jardim abriram a porta de correr lá embaixo e subiram as escadas até o quarto, povoando os arredores da cama. Naquele momento eu já não queria mais nada, Madá, e meu corpo tratou de demonstrar. Recolhi o lençol e me cobri. As mulheres não sorriam nem brincavam entre si. Os coelhos e as borboletas tinham ficado para trás, no andar de baixo, cuidados pelas adolescentes. A primeira subiu de pé na cama e me abraçou, pesando seu corpo sobre o meu. Outras duas a seguiram e cobriram nossos corpos. Depois passaram a imitá-las em grupos, até onde pude ver. Na cortina do quarto, Madá, seu rosto se desenhou como o fez dentro da ratomaquia. Olhei para você e vi seus olhos como dois astros fumegantes. Elas continuaram a me soterrar por algum tempo até que você se apagou e tudo o que vi foi escuridão. Ninguém fez isso comigo, Madá. Ninguém é responsável por toda essa Sodoma e Gomorra. Ouvi trovões e senti tremores. De novo as cheias de ratos em breve alagariam tudo. A pilha de mulheres já devia estar no teto, eu não sentia mais sequer os meus ossos. Talvez agora fosse finalmente te encontrar no vale das sombras, Madá, você e Gordô. Pedaços de telha e farelos de concreto e madeira caíam sobre nós. Em segundos a cama cedeu, o piso cedeu, e despencamos do terceiro andar até o térreo, esmagando as adolescentes e seus vestidos brancos e seus coelhos felpudos e borboletas coloridas.

É possível que tenha ficado um tempo desacordado. Quando levantei, os ratos vasculhavam a casa e mordiscavam os cadáveres e as mulheres quase mortas. Nem sinal do homem. Debaixo dos escombros, vi o brilho da férula, o brilho de Gordô crucificado. Chutei os roedores para recuperá-la, e com ela abri caminho pelos restos da casa e saí para a rua com o lençol amarrado no corpo. A montanha de ratos tinha aumentado e agora, subindo no topo, eu podia ver o fim do quarteirão pelo qual tinha vagado depois de te deixar, Madá. Então comecei a andar. E andei, Madá, andei até o final de uma rua que não chegava. Vasculhei entre ratos e gente alguma pista sua ou do meu destino escrito e vomitado por Gordô. Isso aconteceu – hoje eu sei – por cinquenta carnavais.

Até que um dia, Madá. Até que um dia se tornou o agora. E é neste agora que vejo, cravada num punhado de terra livre dos roedores, uma cruz de cabeça para baixo.

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