(Leticia Eboli)
“Moço, moço, uma Ice, por favor” – gritei com a boca amarga no meio do bloco.
“Só um minutinho, patroa” – devolveu o ambulante com um braço empurrando o carrinho de bebidas e o outro carregando uma criança de colo.
“Eu vou nas asas de um passarinho, eu vou num beijo de um beija-flor. O tic tic tac do meu coração, renascerá” – Ah, eu vou renascer, achar esse desgraçado do Zé no bloco e dizer tudo que tá entalado aqui.
“Moço, moço! Você não se esquece de mim não, preciso beber” – ainda gritava quando reparei que o menino no colo do vendedor também chorava.
“Ô, Gabriel, último dia, ajuda o papai a fortalecer aqui” – implorava o vendedor todo atrapalhado tentando desatolar as rodas do carrinho de bebidas preso na esquina, entre o meio fio e o bueiro.
“Moço, deixa eu te ajudar com o menino. Não tenho ainda filho, mas de tristeza tô entendendo. Passa ele aqui”
Não sei se por necessidade ou por constrangimento diante do meu estado devastado, ele me passou a criança.
Peguei o menino só de fralda, pela cintura. Ele estava tão encharcado que tive que colocá-lo bem perto do meu corpo para que a pele fina e macia não escorregasse. Passei a minha bandana de pirata, a como se fosse uma toalha ao redor das dobrinhas.
“Pô, colega, obrigada pela fortalecida. Gabriel, rapaz, já já a gente vende tudo e vai pra casa, moleque.” – gritava o vendedor que com seus braços musculosos e a ajuda de um pedaço de madeira fazia movimento de alavanca.
“Cadê o Gabriel? Achou! Cadê o Gabriel? Achou!” – Falava com voz de bebê, ao colocar e tirar meu tapa olho, na única brincadeira que vinha em meu repertório. As lágrimas cessaram, mas o bico e a testa franzida continuavam pulando carnaval na testa do menino. Sem me dar conta, fomos levemente varridos pra trás, nos distanciando uns três metros do pai do menino.
“Gabriel, ó lá o papai” – sinalizei pro menino monstrando que o pai estava por perto. A essa altura mais dois ambulantes já tinham se juntado à missão. O vendedor me olhou perguntando com as mãos se estava tudo bem. Levantei o Gabriel como na cena clássica do Rei Leão e dei uma piscada, já sem lágrimas. Quando o abaixei de volta, a fralda do menino se enganchou na minha pulseira, caindo no chão e sendo arrastada pela sandália de uma colombina.
Gabriel parecia aliviado. Nu e com os pelos eriçados, esboçou um sorriso pra mim. Me apeguei ao menino, que no bilu, bilu, aliviava a raiva daquele desgraçado. Quem esse Zé pensa que é, em plena quarta-feira de cinzas depois de um carnaval todo de grude me fez de otária.
O menino sacudia as pernas como um sapinho, com quem pede para voar. Entendi o sinal, pela altura do pai devia estar acostumado a ver o mundo de cima. Repeti os movimentos de Simba, agora no ritmo lento de “Eu sou aquele pierrot, que te abraçou e te beijou, meu amor”. Finalmente batia um sopro de vento na rua, já não tão lotada com o caminhar dos músicos.
“Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval” – acelerei o movimento içando o Gabriel nas alturas. Esticava meus braços, o levava até bem acima da minha cabeça, depois o trazia de volta com o bumbum até quase o meu rosto, assim ele via o pai.
No leva e traz, chegou em forma de jato o calor mostarda-marrom, fantasiado de privada de final de voo. O coco-caminhão-pipa atingiu a minha testa, escorreu pelo meu nariz e por um desvio com meu braço passou rente aos meus lábios.
O efeito do ácido bateu. A memória viajou pra primeira vez em que fiquei chapada. Eu e minha melhor amiga comíamos biscoito maisena de larica, sentadas lado a lado, rindo de qualquer coisa. Ela me cutucou, olhei pra ela, que cuspiu nos meus olhos o mingau de biscoito triturado na sua boca. Achei que ficaria cega.
“Licença, licença”, corri me aproximando do ambulante.
O vendedor, que tinha acabado de desencalhar o carrinho, me olhou comemorando, até observar a cagada.
“Meu Deus, patroa, mil perdões” falou já pegando o menino do meu colo, que sorria, visivelmente aliviado. “Vamos ali do lado, vou te limpar.
Entramos na ruazinha lateral. Ele parou o carrinho, abriu uma garrafa de água gelada e me deu. Estiquei a cabeça para frente e joguei a água sobre o meu rosto, depois fui para o braços. Mal acabei e ele já tinha uma nova garrafa aberta. Dessa vez pus a cabeça para trás e molhei meus cabelos. Enquanto isso, ele limpava o bumbum do filho e ralhava com o moleque, pra quem a festa parecia ter apenas começado.
“Não foi culpa dele, devia estar com dor de barriga. Olha a cara de alívio do bichinho.”
“Pois é, tava muito sol. Sem palavras pra te agradecer, doutoura. Vou pra casa mais cedo com ele. Olha aqui, a sua Ice. Por minha conta.”- ele me entregou a bebida estupidamente gelada.
“Se me permite, madame, vou abrir uma gelada aqui também.”
“Tim, tim”, brindamos.
“A senhora tem jeito pra criança.”
“Ah você acha? Mas não vou ter filho não porque só tem homem cafajeste no mundo”.
“Ô, madame, carnaval não é a melhor hora pra falar de amor não. Vocês dão muito mole pros homens.”
A essa altura o menino já ia encostando a cabeça no peitoral do pai, com os olhos cedendo ao balancinho dos braços dele e ao por do sol. Tive vontade de me deitar ali, parecia haver espaço mais do que suficiente naquele tórax. Inclinei a cabeça e me deitei do outro, também como o Gabriel embarquei em uma piscada mais longa. Pus a pochete de lando, enrosquei meu braço direito nas costas dele, puxando por dentro da bermuda o seu tronco em direção ao meu. Apoiei a perna esquerda em cima do paralelepípedo e a enfiei entre as deles. Deixei que a garrafa gelada começasse o serviço. Pescoço, orelha, nuca enquanto minha língua cantava “Ô abre alas, que eu quero passar.”
