Não era o calendário que me indicava a proximidade do Carnaval. Depois que chegavam, folheava as imagens de gatos, filhotes de gatos, cães, aves e as paisagens japonesas pra depois esquecer de todos. A gente ganhava tantos que faltavam paredes. Da Ultragaz ao açougue da praça, o escolhido para o único prego na parede do corredor era aquele que vinha de empresa grande, papel brilhante com fotos bem cuidadas. Em casa, eram os da Ford , que passavam o ano na parede e deixavam o contorno de pó na pintura. Serviam mais aos adultos e às luas para os cortes de cabelo. Não me serviam . Ficava sabendo das festas e feriados pela televisão, pelos trabalhos de escola, pelas conversas no jantar. No Carnaval, quem anunciava eram os sacos de confete, os colares havaianos e as seringas de água na frente da papelaria ou nas barracas da feira.
As seringas representavam uma espécie de compensação por não ir às matinês dos clubes. Era bom ficar na rua molhando os carros mais até que a gente mesmo. Morar numa avenida tinha a vantagem da fartura de veículos assim que abria o sinal na transversal abaixo. Subia ônibus , caminhão , carros de gente simpática e outras nem tanto. Gente brava que parava pra passar sermão em quatro ou cinco crianças da mesma idade, tamanho e falta de noção. Os pais vigiavam de longe, alertavam para o perigo e minha mãe , em particular, se aborrecia, mas tolerava, o pisoteado sujo no chão de caquinhos. A nossa torneira era a mais fácil para reabastecer as xiringas, como alguns teimavam chamar as garrafinhas. Dos sete aos nove anos, foram assim os meus carnavais sem confete. Desconfio que terminaram num sábado infeliz , que era o dia da feira umas cinco quadras distante.
São Paulo não era Recife, Rio ou Salvador. São Paulo era a capital sem graça do carnaval contido dos salões. São Paulo tinha feira no sábado da festa de Momo e ainda tem . Passamos a tarde enchendo seringas ou xiringas , pisoteando a entrada de casa e molhando os carros e, sem qualquer alcance, as carrocerias dos caminhões de banana, tomates e verduras que subiam da feira.
Os feirantes eram simpáticos, sorriam para o nosso esforço e até desaceleravam. A gente mirava, mas a água desaparecia na madeira e na lona enrolada. O caminhão de peixe era diferente. O caminhão de peixe brilhava e refletia nas portas de metal, de um jeito meio torto, os nossos corpinhos de criança. Ninguém esperava que lá de cima, os feirantes achassem divertido jogar baldes de água de peixe na gente, mas eles jogaram. As vísceras e as escamas grudaram na pele e na roupa . A brincadeira daquele carnaval terminou em choro e banho antecipado.
No ano seguinte, ficamos sócios de um clube e meu pai nos levou para uma matinê no salão. Nos levou não. Ele me levou. Meu irmão deve ter escapado por conta de algum futebol e minha irmã com 21 anos não combinava com as crianças. Fomos meu pai e eu. Minha mãe se contentava com a confecção da fantasia e devia gostar de uns momentos a sós longe da gente e do barulho para desembaraçar linhas, a sua forma de meditação. Hoje, até desconfio das intenções de meu pai. Depois que fui mãe não submeti meus filhos a esta tortura e só soube mais tarde das segundas intenções dos pais nestas festinhas em que rolam flertes e os filhos se tornam meros acessórios.
Chegamos com a música ao vivo tomando conta e o som dos sopros mais alto que as letras. A cabeleira do Zezé ou o Alá, Alá de um Egito desconhecido que eu tentei cantar assim que meu pai me largou sozinha para a primeira volta. Alguns meninos preferiam as beiradas do salão e não circulavam em trenzinhos. Ficavam parados atirando serpentinas com técnica e confetes aleatórios. Na minha terceira ou quarta circulada, quando me desinibi a cantar, passei por um deles que deve ter esperado o exato momento de um fonema mais aberto na letra e então me atirou um punhado de confetes na boca. Foi de engasgar , tossir e então correr perdida até encontrar o meu pai. Odiei a boca seca. Odiei o menino e me odiei por não revidar.
Aos quinze e dezesseis anos tentei fazer as pazes com o Carnaval de Salão, mas no fundo, sonhava com os trios elétricos e os “Muitos Carnavais” de Caetano. Fazia voltas, mas desdenhava do lugar fechado. Estava mais esperta para os confetes agressivos. Era uma coisa adolescente de fazer igual aos iguais. No fundo, eu repetia os versos de “Frevo Novo” e queria o povo na praça em vez da gente sem graça no salão. Quando os blocos deste desejado carnaval de rua chegaram por aqui, já não tinha a mesma energia dos tempos de “Chuva Suor e Cerveja”. Até fui, até tentei este ano. Mas me vejo melhor confeccionando confetes com um furador de papel nas folhas de um calendário antigo.
