Corote

Felipe acordou com o estrondo. Abriu a pálpebra direita o suficiente para ver a sombra de um pneu se movendo perigosamente perto de sua cabeça. O motorista do caminhão de lixo devia estar se divertindo ao manobrar daquele jeito, talvez como vingança por ter de trabalhar na quarta-feira de cinzas.

Sem atinar o que fazer, fechou os olhos de novo. Ouviu a caçamba ser erguida pela roldana do veículo, cair com estrondo e ser arrastada até o nicho na calçada. A algazarra dos lixeiros era maior do que de costume. Pensou que, àquela altura, o subsíndico militar devia estar ligando para a polícia. Na certa, ninguém estava dormindo no quarteirão onde ficava o Condomínio Sur le Nil.

Ninguém dormia com exceção do próprio Felipe. Acordou de outro apagão. A luz do poste agora atingia seus olhos em cheio. Sem abri-los ainda, tateou a cintura. Em sequência, enfiou a mão dentro do sutiã e descolou a peruca de caracóis pretos. Nada, a pochete tinha sumido. Ergueu a cabeça do meio-fio. Viu que o resto do corpo permanecia perpendicular à guia, as pernas enfiadas em meias arrastão sobre a faixa na entrada do estacionamento. Com alívio, encontrou o celular que havia escondido na cueca.

Bia
Passa aqui? 03h15
Felipe 34
Aki onde? 03h22
Bia
No 62. Destranquei a porta 03h22

Traz Corote?
E não precisa se preocupar com o subsíndico.
Vi quando ele saiu fantasiado. 03h23

Conferiu no visor que tinham se passado três horas desde a última mensagem de WhatsApp. Será que a Beatriz ainda estava esperando a resposta dele? A noite tinha sido cheia, ele sentia mais do que lembrava. Flashes começaram a voltar à sua consciência. Ele pulando de bloco em bloco. Abraçado a um sujeito que tocava corneta. Tomando cerveja sentado num muro. Lembrou que tinha bebido também chevette e monza, mas recusou o Corote porque o líquido cor de rosa lhe lembrou a Bia. Como uma intelectual de meia-idade que só tomava vinho caro tinha se viciado tão fácil naquele purgativo sabor tutti frutti?, pensou.

Felipe recolheu as pernas e sentou na posição de feto. Os lampejos continuavam piscando em seu cérebro ressecado pela ação de elementos químicos. Como num filme, viu-se a si próprio lambendo selos. Engolindo comprimidos sem identificação presenteados por gente que nunca tinha visto. A certa altura, um grupo de jovens Supermárias Bros fez uma roda em volta dele. “Vejam, um cogumelo drag”, gritou uma delas. Foi a senha para que se revezassem num beijaço. Mesmo com a boca ocupada, ele percebeu, acima dos bonés vermelhos, que um Luigi alto e forte observava a cena.

“É o pai de alguém?”, Felipe quis saber ressabiado.

“Não”, riram as encanadoras vermelhas. “Esse cara apareceu do nada e o chamamos para ser nosso segurança!”

“Que segurança mais compreensivo…”, conseguiu articular entre uma lambida e outra.

Ainda sentado no chão, bateu a mão no corpo todo. A pochete tinha sumido mesmo. Lembrou-se da música antiga, em que o personagem tungado na Praça Clóvis perde “25 cruzeiros e teu retrato”. Felipe também ficou sem uns trocados, mas retrato não levava de ninguém para perder, nem mesmo o da Bia. A imagem dela esperando no apartamento imediatamente deu lugar à constatação de que a chave tinha ido junto.

Felipe se virou para observar o prédio onde morava. Não precisava se preocupar com porteiro, porque o controle de acesso era controlado a distância. E ninguém das unidades de frente podia vê-lo por causa das árvores no jardim. Seu pensamento perdeu o foco: imaginou o subsíndico saindo pelo portão de fantasia! Será que o coronel era do babado, afinal? Quem diria…

Sentiu uma dor nas costelas. O movimento de torção indicou que ele ainda não havia recuperado o controle pleno do corpo, lavado por líquidos e amores de carnaval. Além das encanadoras de videogame, começou a se lembrar dos enroscos da noite: uma onça, uma anja de asas de arame, uma patriota do caminhão e duas garotas só de biquíni vermelho e máscaras de Salvador Dalí. A memória dava sinais de estar de volta, mas não o juízo. Tanto que resolveu pular a grade para entrar.

Começou seu projeto pela tentativa de se pôr de pé. Não conseguiu passar do estágio ajoelhado.

“Olha lá, o periguete está rezando!”

Eram as Supermárias já desfilando no estágio de dispersão.

“Olá, meninas, há quanto tempo!”, ele conseguiu responder de sua posição instável.

Duas delas o ajudaram a se levantar.

“Desculpe abusar de vocês de novo, mas será que não teria um Corote sobrando nesse cooler de vocês?”

“Nosso coolerzinho?”, caçoou uma.

“Acabou-se tudo!”, gargalhou outra.

“Quietinhas”, ralhou Felipe. “Não é para mim. Só queria levar um presente para alguém.”

 “Tá namorando, tá namorando!” Agora gritavam em coro.

Despachou as garotas com um gesto desanimado. Elas desistiram de salvar a princesa de fim de noite e desceram a rua cantando a musiquinha-chiclete do jogo. Felipe tentou observar se o Luigi continuava entre elas, mas não o viu.

Confiante por se encontrar em posição vertical, ele apoiou o pé na grade do condomínio. Esperou a tontura diminuir e lançou os braços na tentativa de se erguer até as pontas em lança. Parou porque algo se moveu por trás da guarita desabitada. Um gato, talvez. Um gato verde, talvez. Verde? Achou que ainda não dava para confiar nem em seu corpo nem em seus sentidos.

O jeito era acionar o intercomunicador e se identificar para o porteiro remoto. Achou que podia arriscar. Mesmo que o subsíndico estivesse de volta, era pouco provável que passasse a noite monitorando o aplicativo das câmeras de vigilância. Felipe entraria e, em vez de apertar o botão do terceiro andar, onde ficava seu apartamento, subiria direto para o sexto.

Percorreu a grade até chegar ao portão. Clique, abriu! Descobriu que estava aberto o tempo todo. Quem sabe alguém tão lesado da folia quanto ele tivesse se esquecido de bater. Ou então foi de propósito, fantasiou.

Ajeitou a peruca sobre os olhos para disfarçar o que fosse possível e entrou no elevador mantendo a cabeça baixa. Beatriz abriu a porta do 62 à primeira batida. Estendeu os braços e os lábios para ele. Suas maçãs do rosto estavam vermelhas.

“Fiquei sem grana pro Corote”, ele se desculpou quando pararam para respirar.

“Tudo bem. Comprei vinho pelo iFood.”

“Escuta, fiquei pensando… como era a fantasia que você viu do subsíndico?”

“Não entendi direito. Acho que era de operário palmeirense ou algo assim… Macacão, camiseta verde, boné verde também…”

“Bigode?”

“O bigode era o dele mesmo.”

Ouviram um barulho no corredor. Felipe espiou rápido pelo olho mágico a tempo de ver a porta da escada se fechando.

Na soleira, havia duas garrafas de Corote.

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