Horror racista

Hoje Jordan Peele faz sucesso com sua abordagem de crítica social dos filmes de gênero, em especial ficção científica ou horror, como no recente Nope! ou nos incríveis Nós e Corra. Mas temos um conterrâneo ilustre que já fazia isso no século 19. Como Peele, Cruz e Souza é grande leitor do expoente do chamado Gótico Sulista, Edgar Allan Poe – um romântico simbolista que ambientava histórias no pantanoso, quente e multirracial sul dos EUA. O nosso gótico sulista tem outra pegada. Talvez o maior nome do Simbolismo no mundo no século 19, Cruz e Souza, além de genial nos sonetos, também escrevia prosa. Mas seu ponto de partida era totalmente diferente de seus colegas contemporâneos: Cruz e Souza era negro, filho de escravos alforriados. Um milagre um escritor desses aparecer justo no Estado mais nazista do Brasil, Santa Catarina.

Sua abordagem da narrativa é mais aparentada à poesia verborrágica de Byron e Shelley do que às tramas complexas de Poe, porém. Apesar dos adjetivos – e se você eliminar essa classe gramatical a obra de Cruz e Souza desaparece – , em um excesso tão barroco e bizarro que até acaba por ser genial (como as firulas de um Frank Zappa), existe um tanto de crítica social que era totalmente estranho ao Simbolismo praticado à época. Sem falar da imensa ironia da própria autoria: trata-se de um conto protagonizado por um senhor de escravizados, escrito por um homem negro, filho de escravizados.  Ou seja, é um oprimido escrevendo do ponto de vista do opressor, Além dessa camada, por si só já revolucionária para a época, há uma ironia no desfecho da história – um ceticismo de quem, de lá do século 19, já imaginava que arrependimento e perdão jamais seriam palavras usadas por um vil capitalista, sequer em seu leito de morte.

PROPOSTA

A ideia é usar esses elementos do Cruz e Souza para escrever uma história de MEDO.

De terror, de horror, de susto, de suspense – ou seja, uma narrativa que habite o mundo do Gótico Sulista. Ou seja, você vai usar um elemento de crítica social para estruturar a sua história.

Mas lembre-se: você tanto pode deixar o espectador com medo (terror puro), ou fazer o leitor se tornar cúmplice do medo do personagem (suspense).

Pode ser violência de gênero, de etarismo, de xenofobia, de religião, de economia ou de qualquer elemento que circunscreva seu protagonista em uma situação de exclusão. Pegue este elemento para criar a situação social de seu personagem.

Aí você vai escolher o ponto de vista:

  • Do opressor
  • Do oprimido.

Como se trata de uma história de terror, tenha em vista a escalada. As coisas começam de um jeito tranquilo, inocente até, até que vão escalando para um horror total. Pense que o fim do seu conto vai ser um horror completo, sem salvação.

Regras:

  • Use VINGANÇA
  • Use um único ambiente (casa, trabalho, lazer)
  • Use um ou poucos personagens
  • Pode ter violência, mas não pode ter morte
  • Pode ter sustos, mas não podem ser forçados
  • Você pode dialogar com outras literaturas de gênero (pornô, ficção científica, realismo mágico, infanto-juvenil, comédia de costumes, conto de fábula, policial, perseguição, aventura histórica etc)
  • Você NÃO PODE usar tantos adjetivos
  • Você pode e DEVE usar ironia.

Narre em qualquer pessoa, uns 8 mil toques, que tal?

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