Posto de observação

por Américo Paim

O portão de madeira, marrom, abria fácil, graças a um prego dobrado que funcionava como dobradiça. Ficava entre duas colunas altas, de textura lisa, como usinadas, cor de café com leite, unidas em cima por uma chapa larga e aprumada. As paredes da frente, das laterais e do fundo eram de ripas superpostas, em vermelho bem escuro, menos no topo de cada uma, recortado como um bisel duplo V de solda, na cor natural da madeira. A ligação nos quatro cantos era com pinos simples, encaixe macho-fêmea. As passarelas de cada lado eram inteiriças, peças únicas, fixadas por pregos curtos, escondidos. Tudo atachado com paciência e precisão davam à estrutura a sensação de firmeza e segurança. E orgulho.

A descrição acima é atual. Na época, eu entre cinco e seis anos, era apenas o meu Forte Apache, nome escrito em papel colorido, colado na chapa acima do portão. Vinha com soldados, cavalos, índios e até uma tenda com uma squaw, uma mulher índia. Havia ganho no Natal anterior, ali mesmo em Santo Amaro, na casa de meus avós, na Rua Direita, nº 60, bem no meio do trecho que ela alargava.

A casa tinha quintal grande, com árvores e arbustos. Eu preferia brincar lá. Acontece que uma semana antes do Carnaval, levei uma pequena cobra morta para dentro de casa, pendurada em um pedaço de pau, mostrando feliz o que eu tinha feito. Avó passou mal, avô olhou espantado, meu pai riu, minha mãe brigou com ele e me deu uma bronca que foi ouvida em Salvador. Peguei pena de cinco dias sem Forte e sobremesa. Injusto. No dia seguinte, notando um olhar de pena em mainha, pedi com choros e beijos e ela liberou. Mas o quintal não. Só depois que capinassem. Teria que brincar na sala de estar.

Era ampla. Ficava à esquerda da porta da rua, no início do longo corredor que acabava na sala de jantar. Ao entrar, uma poltrona em cada lado, sofá de frente, mesinha no meio e à direita, na parede oposta às duas grandes janelas, um piano do qual nunca ouvi uma só nota. Montei o Forte entre o sofá e uma janela e o acampamento índio perto do finado instrumento. Os inimigos teriam que ficar distantes, conforme as dicas de meu avô. Os índios atacariam à noite arrodeando o forte com seus cavalos sem sela, aos gritos de guerra e disparando flechas. Eu precisava ter bonecos em todas as posições do forte. Depois disso, com o inimigo enfraquecido, a cavalaria atacaria o acampamento deles. Os soldados eram os bons e os índios os maus. Nunca se misturariam.

Tudo pronto. Só estava esperando minha mãe voltar da rua com meu pedido especial de Carnaval. Fiquei muito atento na janela, meu posto de observação, na expectativa. O fusca verde chegou e corri para a porta. Frustração: a fantasia de cowboy não veio. Ela só conseguiu uma de policial. Coloquei capacete, cassetete e revólver. Ia brincar, só que o barulho da bandinha na rua me chamou. Minha mãe, carnavalesca raiz, me pendurou na janela e ficamos a olhar o povo passar. Não era bloco. Gente fantasiada na rua, um festival: médicos, palhaços, freiras, presidiários, baianas, mágicos, soldados romanos, cangaceiros, índios e por aí vai. Ela me explicando tudo. Foliões se aproximavam, eu dava tiros, uns se jogavam no chão, outros se escondiam. Eu ria muito com as palhaçadas. Só não gostava das caretas. Me davam medo.

Uma delas chegou bem perto e eu abri o berreiro. Mesmo me explicando que fazia parte da brincadeira, eu só superaria algum tempo depois. Quase desisti, mas aí chegou um fantasiado de cowboy, como eu queria! Era Tio Cledinho, primo de meu pai – só reconheci quando tirou a máscara. A esposa com ele, tia Gracinda, de índia. Ele, sempre animado, me colocou nos ombros e saímos rodando no meio do povo. Foi massa. Apareceram outras índias, tia Rosângela – “Rosa” como preferia – entre elas. Ganhei beijos e apertos de bochecha. Pouco depois mainha me levou de volta.

No início da noite, meus pais saíram e eu fiquei com meus avós. Dormiam cedo e me obrigaram também. Meu quarto era o último do corredor. Depois da sala de estar vinha o dos velhos, o de meus pais – o antigo de minha mãe, o de tia Rosa e o meu, um oratório convertido em quarto, só quando eu estava lá. Quase dormindo, lembrei de Águia Dourada, um índio que larguei escondido no forro do sofá, no posto de observação entre o forte e a aldeia. Mainha ia reclamar da bagunça na sala e eu não queria outro castigo. Saí na ponta do pé e catei o boneco. Quase de volta, ouvi bem baixo uns gritinhos de índio. Tinha que conferir. Vinham do quarto da tia. Abri a porta devagar e vi pela greta uma cena reveladora, que mudou meu entendimento sobre o assunto.

Dia seguinte, família reunida na sala de estar à espera do povo do Carnaval, eu e meu forte ali, bem no meio. Achei que ninguém me observava, mas meu avô reclamou que eu estava brincando errado: um soldado no chão, em cima de uma índia, atacando? Não! Ela é uma mulher. Eu disse que eles estavam se beijando. Todos riram. Ele me questionou que não podia. Aí, eu falei:

– Pode sim, vô. Tio Cledinho e tia Rosa tavam assim ontem no quarto.

Acabou o Carnaval ali. Eu não entendi a confusão e peguei um mês sem sobremesa e Forte Apache. Achei bem injusto, mas dessa vez o olhar de minha mãe não me encorajou a pedidos e beijinhos.

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