Confete usado

Lá na roça, no carnaval, a vó levava a gente pra cidade pra ver o Clóvis passar. O Clóvis era um monte de Clóvis. Tudo de cara branca e roupa de cetim. Corriam atrás dos outros e eu morria de medo. Segurava a mão da vó com tanta força que meus dedos marcaram sua pele de tergal. Ritinha era vizinha nossa da fazenda. Ela sumiu num carnaval. Por muito tempo, achei que foi o Clóvis quem levou. 

César se vestiu de mulher com top vermelho, saia, meia, pôs brinco, arco no cabelo. Quando chegou na sala, o padrasto deu um ataque. Começou a dar-lhe tapas e socos e pescoção, falando que ali não morava nenhuma mulherzinha. César correu pro quarto e trancou a porta. A mãe não disse uma palavra. Pegou as roupas do padrasto e jogou porta afora. Ri tanto. Foi um dos carnavais mais engraçados de toda minha vida. E olha que eu estava fantasiada de noviça rebelde.

Depois do baile, Patrick e eu nos sentamos na beira da quadra. Ele me perguntou: se a gente morasse no mundo do faz-de-conta e você pudesse escolher uma fantasia, Iaiá, qual seria? De paquita, respondi de primeira. Paquita, Iaiá, Paquita? Paquita é loira, Iaiá, não é preta igual você não, ele me disse, tirando a blusa de flamengo e deitando no meio fio. O que que tem?, perguntei.  Paquita preta não pode.  Pensei um pouco e cheguei a uma conclusão: nem a Barbie, né? Aí, não sei, não brinco de boneca. E você, Patrick, ia fantasiar de quê? De pirata. Com olho tampado e tudo. Tipo capitão gancho? Eu ia ter espada e gritar: rum, rum, rum, me dá uma taça de rum. Patrick pulou como se fosse pegar uma onda no mar com uma prancha de verdade e saiu correndo morro acima, cantando seu refrão até alguém chegar na janela e gritar um cala boca, moleque. 

Nos fogos do ano, mataram o pai do Patrick. A mãe dele viu ou ouviu ou ficou doida, foi embora corrida. Patrick ficou sozinho e antes da mãe levar ele pra casa, um padrinho levou ele pro alto do morro. Começaram as aulas e ele não foi. Também não descia mais, nem na rua a gente via. O carnaval foi em março e vi Patrick passando sem camisa, com um fuzil pendurado no seu peito. Era maior que seu tronco. Ele estava magro e com cara de quem comeu um pastel na gordura de peixe. Eu já trabalhava na costura e consegui um pedaço de couro que cortei como um tapa-olho, bordei caveiras pequeninhas e costurei um elástico pra ele prender na cabeça. Trouxe um presente pra você, eu disse. Entreguei pra ele que não pegou. Não posso mais ser pirata de mentira. Fiz pra você, Patrick. Não posso. Segura, é um presente, eu empurrei o tapa-olho contra ele. Ele pegou da minha mão e jogou longe. Jandira, não tem mais faz de conta. Levei um susto. Ele nunca falava meu nome inteiro. Peguei o tapa-olho do chão, encostei no meu peito e soluçando um soluço bem doído, guardei na caixa de sapatos das coisas perdidas. O tapa-olho está lá junto com foto da vó, convite de aniversário, ingresso do circo, passagem de ônibus e brinco sem par. 

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