por Américo Paim
Sozinho na varanda do apartamento, Serafim observava a vista, os prédios menores e o verde misterioso da serra. A noite chegando, hora que mais gostava de pensar à frente e ler seus registros. Bebeu mais um gole. Essa safra é boa mesmo. Vou mudar para vinho de vez. Mais chique. Combina comigo. Vai ajudar minha imagem. Cerveja e cachaça todo mundo toma. Ele queria mudar a visão única de “cara durão”. Fenelon vinha influenciando a cidade com seu jeito de “bom moço”. Sacudiu a taça. Gostava de ver o tinto circulando, vermelho intenso, sangue. Sorriu escroto, como sempre, sem mostrar os dentes. Em que pensava? Pegou o computador e abriu o arquivo “Guaraci” e leu saboreando.
Nivaldo, dono da Imobiliária era um idoso simpático, de boa reputação. Lhe arrumou casa quando chegou em Pedra Velha e tentou se aproximar, mas Serafim não tem amigos, tanto que não deu em nada o dia em que o velho lhe apresentou Guaraci, seu sobrinho da capital, cara conversador, um tipo galã de novela, bem apessoado, insinuante. A procura por aluguel e compra de imóveis aumentou. Ele começou a se espalhar demais. Eu tinha que olhar mais de perto. Saber de onde vinha o dinheiro dele. Nessa época meus sabujos não acharam nada demais. O metido a besta era só uma lagartixa gasguita.
Até aquele acaso no Bar do Cabeça Quente, estava controlado. Conversava com Demétrio sobre um serviço e Guaraci chegou com os primos e várias mulheres. Faziam muito barulho. Pareciam já vindos de algum esquente. O falastrão não demorou em ir à mesa de Serafim. Lhe passou recado, discreto, de que logo estariam disputando espaço em Pedra Velha. Muita ousadia do fedelho. Se meteu onde não devia. Era hora de um freio de arrumação.
A oportunidade veio com a tal carta cheia de informações que Serafim não queria que viessem a público. Quase tudo envolvia Guaraci. O autor do texto teve sem final e não foi feliz. Feito isso, ele se dedicou ao documento e ao protagonista. Era muito para deixar quieto. Tomou, digamos, providências.
Guaraci foi emboscado em um beco quando saía de uma festa na casa de amigos. Era noite sem lua. Seus gritos breves foram mais baixos que as pancadas e a música alta. O encontraram no dia seguinte, sozinho, corpo enxarcado pela chuva da madrugada, sangue escorrendo pelo bueiro. Mãos e pés amarrados e fezes e urina espalhadas sobre ele. O rosto cheio de hematomas e dois pênis de borracha, um na boca e outro no ânus. Ele chorava e tremia, por medo ou frio. Ainda no hospital afirmou não ter visto quem o atacou. Passou por cirurgia e logo estava em casa. Talvez o pessoal tenha exagerado. Era para ser só um alerta, só que o teimoso não saiu de Pedra Velha. Ficou quieto uns dias e voltou a bisbilhotar. Entendi que ele precisava de tratamento vip.
Com proteção da polícia, quase um mês depois que saiu do hospital, ninguém chegava perto de Guaraci. Ele não aparentava medo, mas confiança, ainda mais depois que a polícia de Serra Quente divulgou ter matado três elementos que linchavam um homem em um terreno baldio. Em Pedra Velha a notícia causou impacto discreto. Ele pensou serem os três que o atacaram. Não eram.
A namorada de Guaraci estava na cidade a serviço de uma construtora da capital. Um loura bonita, com ares de rica, sorriso franco e roupas de moda. Um desperdício, mas precisava garantir que aquele animal tomasse seu rumo, longe daqui. Consegui profissionais e tudo seria como eu defini. A moça foi capturada noite alta, dentro da garagem do seu prédio. Câmeras desligadas. Ninguém foi visto chegando ou saindo. Os três com máscaras de caras de super-heróis. Jamais seriam reconhecidos. O carro chapa fria foi abandonado em local inacessível. Em uma cabana tosca, entranhada na serra, longe de tudo, ela foi mantida por dois dias inteiros, sem roupa, comida e água, amarrada e amordaçada. No terceiro dia, quase sem forças, foi obrigada a atravessar um corredor comprido, sem saídas laterais, com carvão em brasa no piso. Ao final dele, a mesa pequena com prato de carne muito temperada e água. Ela queimou pés e outras partes por cair duas vezes no trajeto. Comeu e bebeu como à beira da morte. Em pouco tempo ouviu sirenes e um grupo de policiais a resgatou. Falou com a polícia, que ficou como estava quando ela foi dada como desaparecida: sem pistas. A estadia no hospital durou mais, por causa de carta anônima entregue no quarto: a foto de seu poodle e um bilhete com letras recortadas de revistas: “agora estou dentro de você”.
Serafim lia com orgulho. Serviço perfeito, ninguém denunciado. O assunto sumiu das redes e da imprensa. Guaraci sentiu o golpe. A moça, inteligente, foi embora de Pedra Velha. Incrível como ele voltou a me aporrinhar, agora com denúncias e provocações. Ele ainda não tinha entendido que estava lidando comigo, Serafim. Precisei pesar mais a mão, dentro do limite que me coloquei, para sorte dele.
Mesmo com a polícia protegendo, Guaraci vacilou e foi sequestrado voltando para casa, após noitada com mulheres, contratadas para deixá-lo lento e frágil. Acordou em um quarto pequeno e fedorento, as mãos amarradas para trás, a luz entrando discreta por alguns furos em uma porta grossa de madeira. Uma câmera com infravermelho lhe monitorava as ações, sem que visse. Lembro de olhar para ele, indefeso, alvo fácil para um tiro de 45 nas fuças. Tentador, mas me controlei. Ele sabia que eu podia ser bem escroto. Não quis me ouvir e agora estava ali, à espera de coisa ruim. Não estava errado. A noite caiu, a luz desapareceu e por um breve tempo foi só silêncio. Sem saber onde estava, gritou o que pôde. Não seria ouvido, ali no meio da serra. No máximo chamaria coisas ruins.
Adormeceu cansado e o breve cochilo foi interrompido por ruídos de passos. Olhou pelas frestas de ar, mas tudo que via era uma parede clara em frente. Vieram os latidos que lhe gelaram o sangue. Se eram cachorros ou lobos, pareciam enlouquecidos. Rosnavam agressivos e se batiam na porta, que balançava forte. Sentiu muito medo. Percebeu cheiro de carne fresca. Com um fio de coragem, foi conferir. Não viu nada. Estava com muita fome. Os bichos lá fora também. Novo silêncio. Ouviu gritos de mulher. Pegaram ela de novo? Se desesperou. Seus berros alternavam com várias pancadas fortes nas paredes e na porta. Ouviu barulho de metais se batendo. Seriam facões? Assim foi a primeira noite. A fome chegou forte pela manhã, só que o sono foi vencedor.
Acordou e sentiu cheiro forte de tempero de comida. Como a luz era fraca dentro do espaço, procurou mais pelo cheiro e tateou dois pratos no chão. Se ajoelhou e comeu como um bicho, se lambuzando na carne e bebendo a água. De repente parou e se levantou de um pulo. O que estava comendo? O que bebia? Lembranças vieram tarde demais: desmaiou dopado. Gostei do método. O médico custou um pouco caro, mas isso também foi resolvido e ficou tudo bem. Contribuí para um sono tranquilo.
Voltou à consciência, ainda zonzo, mas desamarrado. Havia um papel preso no chão onde batia a luz do sol de fim de tarde. Ajustou o corpo para se levantar e uma dor forte lhe fuzilou. Havia curativos em sua mão esquerda e no pé direito. Seus gritos foram terríveis, das profundezas. Lhe faltavam quatro dedos, dois da mão e dois do pé. Chorou, praguejou, esmurrou as paredes. Leu o bilhete com letras coladas: “você tem direito a uma despedida – olhe para fora”. Entre medo e raiva, ele foi. Diante dos olhos, em pratos no chão, seus dedos, dois em cada. Os cães enormes – agora os via – latiam e babavam, seguros por pessoas que ele não podia ver. Se chegaram o suficiente para engolirem rápido os pedaços ensanguentados. Guaraci chorava, gemia, gritava em desespero. Outro papel foi colado na parede à sua frente. Esse texto fiz questão de escrever. Só queria que fizesse uma opção. Ficou bom o texto: “Os cães estão famintos. O aperitivo não resolveu. Podemos deixar que entrem aí e se fartem. Ou você pode ir embora daqui e da cidade. Será um erro falar com alguém. Aliás, sabemos que isso não será possível, não é? Bata duas vezes na porta para se salvar”. Cortar a língua foi uma decisão correta. Não haveria debate e não queria cachorro com fome atrás de mim. No fim, me senti regenerado. Uma pena para ele que lagartixas só regeneram o rabo.
