Baseado em fatos reais

Nos contos de História Universal da Infâmia (Cia das Letras), Borges reúne uma galeria de assassinos, malandros, trapaceiros: criminosos famosos em todo o mundo. São pequenas biografias que misturam informações reais com fatos, descrições, ambientações e detalhes totalmente inventados. Borges tinha 30 e poucos anos quando as escreveu para a revista semanal do jornal de vanguarda Crítica; para ele, tais contos eram só divertimentos e tinham importância menor do que seus ensaios literários e sua poesia. Borges teve na leitura seminal das Vidas Imaginárias de Marcel Schwob (Ed. 34) a sua sacada para escrever textos ficcionais a partir de personagens reais.

Apesar de trazerem, para Borges, truques narrativos fáceis, os procedimentos usados nesses continhos se tornaram marcantes para vários escritores no século 20 e 21 na criação de perfis ficcionais: “As enumerações díspares, a brusca solução de continuidade, a redução da vida inteira de um homem a duas ou três cenas, a despretensão psicológica”, escreve ele no prólogo à primeira edição, de 1935. Podemos acrescentar a tais truques o uso de fontes factuais completamente inventadas, como a citação a obras falsas e aspas de autores que nunca existiram; a sua alternância com o uso de epígrafes obscuras ou muito eruditas de obras e autores aí sim reais traz um verniz ‘enciclopédico’ à narrativa.

Dois pilares dessas ficções — a falsidade na recriação de um fato histórico e a objetividade jornalística no trato com a ficção — influenciariam tremendamente autores como Italo CalvinoUmberto EcoRoberto BolañoEnrique Vila-MatasThomas BernhardPaul Auster e muitos outros.

Contemporaneamente, podemos observar este procedimento aplicado à cultura pop em um trecho de Era Uma Vez o Amor Mas Tive de Matá-lo, do colombiano Efraím Medina Reyes (Planeta), e em “Você já experimentou?”, conto de André Sant’Anna de Inverdades (7Letras – toda a coletânea é uma reunião de histórias falsas sobre personagens verdadeiras, uma temática que protagoniza a obra de André). Ambos os trechos tratam de rockstars canhotos nascidos em Seattle.

Baseado em fatos reais

Dentro do cruzamento de gêneros de ficção e não-ficção, um subgênero interessante é a ficção protagonizada por personagens reais. O subgênero fica mais divertido se podemos recortar, de uma existência da chamada “vida real”, uma cena ou uma sequência de eventos muito específicos. Não se trata de um gênero que ambiciona ser fiel à “realidade objetiva”, e sim criar uma subjetividade.

Esta aproximação ficcional de um personagem real reúne ao mesmo tempo a investigação psicológica, imaginação criativa e profunda pesquisa. É o caso de textos como os perfis de John Haskell em Eu Não Sou Jackson Pollock (Rocco), em que ele descreve momentos cruciais nas vidas de gente como Jackson Pollock, Alfred Hitchcock, Joana D’Arc, Glenn Gould. Ou da notável coleção de perfis de jazzistas Todo Aquele Jazz, de Geoff Dyer (Cia das Letras), que mergulha em episódios reais ou inventados (ainda que verossímeis) das existências de tipos como Chet Baker, Charlie Mingus, Thelonious Monk, Duke Ellington. Ou, ainda, em ficções singulares como “Kafka prepara o jantar”, da fantástica contista (e tradutora de Kafka) Lydia Davis, em Tipos de Perturbação (Cia das Letras).

O subgênero, que é estruturado quase sempre em uma cena ou num pequeno conjunto de cenas, não tem nada a ver com o gênero biografia, embora dele se aproxime. É possível mesmo que a cena ou sequência de eventos jamais tenham ocorrido. No entanto, é fundamental a verossimilhança: precisamos acreditar que tenha sido possível aquele personagem realizar aquela ação, mesmo que nunca saibamos. Aliar uma pesquisa consistente ou um mergulho na vida e na obra de determinado personagem de modo criativo, imaginativo e surpreendente é o grande desafio deste subgênero.

LEITURA

PROPOSTA

Pegue um(a) personagem já morto(a), que você conheça bem, e situe-o(a) na sua cidade em 2023. Pode ser político, artista, personalidade notória, religioso, esportista, cientista, de qualquer época. Estude a vida do(a) personagem antes de escrever. Pegue alguns detalhes específicos de sua personalidade e foque neles.

É importante que os atos ou ações do seu personagem sejam verossímeis, ou seja, estejam de acordo com sua vida e obra. Você pode imaginar João Paulo II fornicando, por exemplo, mas não dá pra colocá-lo fornicando na Lua, lugar que jamais visitou. No entanto, você pode imaginar Hilda Hilst conversando com Cervantes, porque ela de fato gravava vozes e via espíritos de personalidades mortas.

Trata-se portanto de um conto em chave REALISTA. Então, por favor, trate as situações de modo realista, a frio, sem espanto, como se fossem situações naturais.

Coisas que ele pode fazer:

  • acorda do lado da(o) amante mas não o(a) reconhece
  • tem um dia normal (padaria, banco, escola, trabalho) atrapalhado por uma situação insólita
  • visita um cartório, uma funerária ou um escritório advocatício para resolver uma pendência
  • é pressionado a participar de uma festa ou cerimônia religiosa em que não conhece ninguém
  • prepara-se para se casar mas ainda está em dúvida
  • tem de cozinhar para um grupo de pessoas esfomeadas
  • descobre que alguém invadiu seu e-mail, leu seu diário ou abriu aquela gaveta secreta
  • vai cortar o cabelo com uma pessoa que fala demais
  • é um(a) ator (atriz) em uma peça de teatro underground
  • é assaltado(a) / sequestrado(a) / violentado(a)

Não use advérbios. Troque os adjetivos por metáforas, símiles ou comparações, ou então não os use.

Escreva sua peça de ficção em uma ou no máximo duas cenas.

Escreva na terceira pessoa, no discurso indireto livre.

Em até 9 mil toques.

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