É fácil

Por Susy Freitas

Os peitos de laranja ficam pesadões no sutiã. Os de papel ficam empinados, e depois vão amassando e viram dois mondrongos. Tem vezes que um lado cai. E quando toca “Esta mulher há muito tempo me provoca. Dá nela! Dá nela!”, voa peito pra tudo que é lado. Eles fazem de conta que estão batendo. Eu acho que alguns batem mesmo, esfrega o saco na cabeça do outro e tudo. Tem gente que taca a laranja é na cara. Mas é só o pessoal da rua. Por isso a mamãe deixa. É só a Tacira vir junto.

Eles sujam tudo de batom. Homem não sabe usar. Quando eu vi o tio Aderval se aprontando, era o mais difícil, o batom. A peruca também é ruim de arrumar aquela telinha na cabeça, mesmo eles com o cabelo tão pequeno. Fica torta. O sinal de beleza fica feio nos furinhos de onde sai a barba. Quando faz a bolota preta com o lápis, mistura com suor, com cerveja. Eles bebem o dia inteiro essa época, até se maquiando. 

Os de vestido têm é trabalho. Eles não gostam de ficar puxando a barra pra baixo o tempo todo porque eles têm perna de homem. Eles reclamam de tudo. Ainda nem fechou o brinco de pressão na orelha, o tio Aderval já fala como tá apertando. Ou se o colar enrola no cabelo duro da peruca. Ou como é ruim passar a bolsinha tiracolo por cima da cabeça pra se soltar dela. Pra eles, é difícil ser mulher. Pra mulher não, é fácil.

Tem gente aqui na rua não gosta disso se de vestir de mulher. Porque não era assim antes. Era vestido normal. Só que toda vez que eu vim, já foi desse jeito: com o tio e a turma dele, de laranja e papel no sutiã. Aí o seu Javali junta os colegas dele e tocam marchinhas antigas. A mamãe vende bebida e espetinho na frente de casa mesmo, e a gente pode ficar pra cima e pra baixo até mais tarde. Todo mundo festeja. 

Eu só não gosto dos marotes, que sempre é de velhinhos da rua, mas também de gente que já morreu, tipo a dona Alzirene esse ano. Fizeram o dela com uns peitos moles de pano. Quando eles rodam o bonecão dela, os peitos voam longe, por cima da cabeça da gente. Disso eu tenho medo.

Tu toma cuidado com esses óculos! Bota assim na cara! A Tacira já falou isso umas dez vezes. Nas dez, ela faz que ajeita meus óculos, mas eu levo é uma mãozada na cara. Ela acha que manda em mim, a Tacira, segurando esse espeto de calabresa. Porque ela é alta e a bunda dela é gorda e os peitos são quase do tamanho das laranjas que o tio Aderval mete dentro do sutiã dele. Ela tem o que, um ano a mais que eu? E isso só porque o aniversário dela é em abril e o meu é em maio.

O negócio é que ela acha que é grande porque é grande. Porque quando ela anda, os homens olham. Passam a mão no cabelo dela, puxam a pelinha do cotovelo. É engraçado porque até os de roupa de mulher fazem isso. Eu gosto porque, do lado deles, ela fica pequena de novo, e tudo que ela tem: a mão que ela mete na minha cara, as pernas, os peitos. E eles ali, aquele monte de mulherão rondando aquela chata. 

Quando ela me puxa pro meio das outras mulheres é que é esquisito. Quanto mais elas suam, mais feias ficam. Quando o suor gruda o confete na cara, e a cara é cheia de marca, ou quando elas sentam pra comer espetinho com arroz e vatapá na banca da mamãe e a coxa delas fica cheia de furinho. Tudo nelas é maior e mais mole do que é na Tacira, mas homens olham pra tudo, tudo do mesmo jeito. É isso que eu não entendo! Nela falta ainda o que nas outras sobram. Em mim, nem isso. Mas eles olham. Deve ser por isso que só eles vão de saia pro bloco, mas a gente, a mamãe manda ir de short ou bermuda.

Agora a Tacira fica me cutucando com o espeto dela. Ela já acabou de comer faz tempo, mas ainda tem cheiro de calabresa. Se ela quebrar esse espeto, vai ficar de castigo, certeza. E com o tanto de gente que já tem na rua, gente de fora, que veio porque dessa vez mostraram nosso bloco na tevê, não vai ser nem um pouco difícil ela quebrar. Aí eu quero ver ela ficar me dando mãozada no óculos trancada no quarto sem celular.

Eu já nem reconheço mais quem tá aqui. Chega fica difícil voltar pra casa. A gente mora no final da rua, quase no rio já. Se tivesse menos gente, dava pra sentir o cheiro de esgoto que vem de lá, e ver a pilha de lixo enorme na frente da casa do tio Aderval. Agora eu só sinto cheiro de cecê e xixi e cerveja, e as luzes dos postes parece uma fumaça.

A Tacira vai na frente sem me soltar, e nem soltar o espeto. Não quer me dar o gostinho do castigo dela de jeito nenhum. Eu nem ligo mais. Tá tão cheio e tão quente, a música mudou pra um funk desses de aparelho de som gigante de mala de carro. Nem ela, que é grande, consegue ver direito por cima do pessoal o quanto que falta pra chegar em casa. Eu só vejo um monte de peito: de homem, de mulher, de laranja, de papel amassado, tudo suado. A gente também. Eita que já começou a chuva mesmo! Demora pra gente se molhar quando a gente já tá molhada.

Não consigo mais acompanhar a Tacira. A perna dela é maior que a minha e o passo também, e não tem mais como eu pisar mais vezes no chão pra ficar certinho atrás dela: alguma coisa me prendeu e o chão virou um monte de pé. Só tenho o braço dela, puxando forte, puxando contra, tá doendo!, e a coisa me puxando pro outro lado, grandona, peluda, com cheiro pior que tudo, só quero chorar, não posso chorar, não posso me perder na coisa peluda que fica cada vez maior, que se esfrega em mim todinha, com pedaços de carne mole e dura e peruca e uma laranja bem na minha cara, não posso chorar, só quero sumir, mas se eu sumir a mamãe castiga, eu grito, ninguém ouve, a Tacira não puxa mais forte, só aperta meu pulso, mas não puxa, ela volta, é isso, ela volta, ela passa o espetinho rente ao meu óculos, ele cai, tudo fica meio embaçado, ela me larga, ela grita, não a Tacira, a coisa peluda, ela grita e ninguém escuta, a laranja toda vermelha, o espeto bem no meio, a mão da Tacira agora leve me puxando no meio desse monte de gente, ela abre caminho, ela consegue, eu não sei como, ela faz a nossa casa aparecer bem na nossa frente, a mamãe, a banquinha de churrasco, o cheiro de vatapá de sardinha e maionese limpa o ar.

Onde porra que as duas tavam?! Vocês sabem que a rua é até dez horas, e só hoje? Já pra dentro, que vai as duas apanhar! E cadê o espeto que tu tava, heim, Tacira?

A mão da mamãe, maior que todas, parecia menor, mas ainda consegue puxar muito o braço da Tacira. Isso me dá dor de barriga.

Mãe…

Uma dor forte.

Cadê – o – espeto, Tacira das Neves Machado?! Tu sabe que isso é da venda, não é pra ficar brincando!

Eu perdi, mãe! Desculpa! Ai! Eu perdi, a senhora me desculpa!

Uma dor forte mesmo.

Mãe…

O que é?!

Só deu tempo de a mamãe largar o braço da Tacira e olhar minha perna toda suja por dentro. Passei a mão e era vermelho. Mas o espeto nem chegou perto da minha perna, como pode?

Meu Deus! Agnes, meu amor. Você ficou mocinha! 

Deixe um comentário