Retrato de Paulo como Pierrot

Quem pensou nessa roupa larga com certeza foi o seu pai, que não gostava dele. Pra uma foto ou uma festa, tudo bem, ninguém volta pra casa depois do carnaval e vai dormir e continua usando a mesma roupa e vai pra escola e volta pra casa e por aí vai até o fim do ano, até o outro carnaval e pra sempre. O vento entra pelas mangas e pelas canelas e parece que não sai nunca mais, fica passeando em mim e gela meu peito e me faz espirrar e se alguma coisa saísse de mim seria catarro. O Paulo vestiu esses sacos de farinha, o chapéu, as meias e segurou as flores pro pai pintar e ninguém pensou que depois que ele tirasse a fantasia eu ia continuar usando. E continuo usando, fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro janeiro, já tem uns cinquenta anos. E pode criança com cinquenta anos? Pode sim, e a culpa é do Seu Pablo, uma culpa do tamanho do nome dele. Quer ver? Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso. É grande.

O Paulo mesmo não devia ter esse nome todo. Eu nunca soube, acho que era só Paulo. Eu só ouvia a mãe dele dizer Paulo, vem cá, Paulo, concentra, Paulo conhece esse desenho? E esse quadro, Paulo, quem fez? Paulo? Ela sentava ele na cama do lado dela e pegava um livro enorme, que parecia uma mesa. E aí começava: Conhece, Paulo?, forçando a página na cara dele e ele fazendo careta como se o livro fosse uma comida ruim. Uns rabiscos, pedaços de quadrado e círculo pintados, umas pessoas que eu nunca vi. E aí ela apontava pra mim, Olha lá, É você, E aqui é a praia tal, Aqui é a paisagem tal, Esse aqui é o rapaz do violão que aceitava moedinha e sempre foi muito magro e cada vez mais magro e sujo. E ele em silêncio, olhando pela janela do quarto até o pátio onde o triciclo ficava preso. Até que uma hora ela desistia e fechava com força o livro fazendo vento na cara dele e despenteando o cabelo escorrido na testa que virava por uns segundos um topete eletrocutado e depois se desfazia. E aí ela saía também e eu ficava sozinho sem ter o que olhar além da cabeça do Paulo passando pela janela em cima do triciclo, pra lá e pra cá. A sorte é que a minha cabeça é um balde sem fundo e tudo o que acontece neste quarto eu consigo saber. Eu não conheço nada, mas aprendo tudo e sou muito rápido e tenho uma memória muito boa: eu vejo este quarto e tudo que se passa nele e quem entra e quem sai e o que fazem quando estão sozinhos e o que dizem que fazem quando estão com outras pessoas. Quer ver?

Por exemplo, eu sei que o Paulo adulto gosta de moto, sei que quando foi crescendo e ficando diferente de mim ele só andava de moto, saía de moto e voltava depois de muitos dias e deixava a janela aberta e eu passava frio com esses sacos de farinha e esse corpinho de nada. Um dia saiu e não voltou, achei que tivesse morrido, mas se fosse esse o caso eu também teria morrido? Não morri. Mas já vi muita gente morrer. Quando o Paulo saiu a casa ficou um silêncio, ninguém mais entrava aqui, pelo menos fecharam a janela e eu parei de tremer. Um dia chegou uma velha carregando uma mais velha ainda e deitou ela na cama e pegou uns travesseiros altos e encheu ela de cobertor e abriu a janela. Depois botou um pano na testa da velha e começou a falar baixinho com um cordão cheio de bolinhas marrons enrolado na mão. A velha, a muito velha, nem abria o olho. Falei: vai morrer. E acho até que ela ouviu, porque olhou pra cima, na minha direção, achei engraçado porque ela nem tinha se mexido e era a primeira pessoa lá de fora que me ouvia, apesar de eu gritar em pensamento. E não deu outra: durou uns trinta e dois segundos. Sei porque contei mais ou menos.

Teve um outro que foi o contrário, chegou e tirou a roupa toda e deitou na cama, depois chegou uma mulher com uma esponja e outra mulher com uma bacia gigante de água. Passavam nele e ele ia curvando, as duas matando ele com a esponja e aquela água, não sei se era água, uma água venenosa, eu sei lá. Sei que ele morreu também, mas foi depois. Antes ele voltou pra cama e deram o livro do Seu Pablo pra ele. Ah, esqueci de dizer que esse tempo todo o livro ficou em cima da penteadeira com uns cinco dedos de poeira! Ele lia com aquilo virado pra mim, eu olhava o dia inteiro pra aquelas figuras porque não tinha jeito. E o homem ficou com sono e deixou aquilo cair sobre a cabeça dele, podia até ter morrido, morreu depois de outra coisa, mas podia ter morrido sufocado com aquele trambolho, o livro que antes parecia uma mesa agora aberto de cabeça pra baixo era igual uma cabana matando ele, era engraçado!

Aí teve um tempo que todo dia alguém novo aparecia. E vinham sempre arrastando umas correntes, igual aquela velha que ficava repetindo umas coisas baixinho pra outra mais velha ainda, esses eram iguais mas diferentes, chegavam arrastando os pés porque eles também vinham com correntes nos pés e nas mãos e às vezes no pescoço com alguém puxando. Como eu ria! Se um dia eu pudesse sair daqui e viver no corpo do Paulo com certeza ia brincar disso também. Mas não posso, graças ao Seu Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, graças a ele eu fico rindo e ninguém escuta. Nesse tempo uns soldadinhos do livro do Seu Pablo viraram a cama e botaram ela apoiada na parede. No lugar botaram uma cadeira engraçada, com umas alavancas, umas cordas, uma cadeira esquisita sem lugar pra sentar, eu sei lá. Aí cada dia uma pessoa nova sentava lá e gritava até amarrarem um pano na boca dela, ainda bem! E aí eles começavam a brincar, os soldadinhos e a pessoa nova. Mas sempre a pessoa cansava e eles tinham que trocar e nem sempre todo mundo se anima com a mesma brincadeira.

Isso foi um tempo e aí passou. Botaram a cama de volta e trouxeram uma mulher pro quarto, mas sem corrente nem nada. E aí o soldadinho e ela sem roupa, os dois se misturando, não tiveram nem a bondade de jogar um lençol na minha cara, e aí chegavam mais soldadinhos e saíam outros, às vezes ficava um monte de gente e eu não sei como ninguém se atentou pra aquela janela, eu com um frio e eles se misturando ali na minha frente e os urros e as gargalhadas. Um deles era muito sério, olhava pra mim que me dava medo e a mulher ria aquele riso que me incomodava por que eu sei lá, queriam que eu fizesse o quê, nem os olhos eu posso fechar. E aquilo janeiro fevereiro março abril e por aí vai. E aí ela morreu também. Mentira! Falei só pra brincar. Mas ela saiu quase morta mesmo. Um dia entrou um soldadinho baixinho e calvo, devia ser do tamanho do Paulo quando eu existi. Chegou com uma corda e amarrou no pescoço dele e na mão dela e pegou a arma do coldre e pôs na cabeça da mulher mandando ela puxar a corda ou puxava ele o gatilho. Ela puxava e puxava e eles ali se confundindo e ainda bem que se cobriram com o lençol e eu podia ver só a confusão deles subindo e voltando naquelas ondinhas brancas. Quando voltaram só o soldadinho se mexia por cima do lençol e quando saiu do quarto e outros soldadinhos entraram, que susto, uma tesoura enorme e logo me animei pensando em alguma brincadeira mas eles só cortaram a corda e a mulher se sacudiu antes de arrastarem ela pra fora e acabou.

Depois disso nunca mais vi os soldadinhos, e até achei que fossem eles parados aqui fora já que deixaram mais uma vez a janela aberta e essa corrente congelando o quarto. Mas vi as cabecinhas passando e os chapeuzinhos não eram deles, será que trocaram de roupa? Já era tempo! Como eu queria que me escutassem só pra eu saber e depois saber o nome deles e conseguir contar todos se não forem um só. Mas não, não pareciam os soldadinhos, os chapéus eram redondos como os capacetes do Paulo que ele deixava ali em cima da cômoda junto do livro do Seu Pablo, mas não era o Paulo, só se fossem muitos Paulos, mas não eram muitos nem poucos, eram treze quatorze quinze e depois eu não consegui mais contar porque abriram a porta tão rápido e mais rápido ainda puseram as mãos nos cantos do quadro e me arrancaram da parede, e alguns deles com as cabeças raspadas como os próprios capacetes, mas por que então os capacetes se as cabeças mesmo já eram iguais e se fica mais leve pra andar de moto? E agora que já fui embora fecham a janela.

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