Tome!

O calor preguento já encostava em julho, mais de cem dias sem gota nenhuma de chuva e o corpo embrulhado no lençol. Desde o dia do casamento da mãe, Mabel só dorme por baixo de pano, dos pés até o pescoço.

– Já pensasse se viro vampiro no meio da madrugada? – Gomes, o padrasto, lhe disse ainda na primeira noite. Os três voltando da igreja. E disse rindo até os molares do medo da enteada. – Né não, mulher?

– E então. – Respondeu Irene, também rindo, também coberta do cheiro de álcool e do apaixonamento recém aliançado. – Me ajude aqui, Mabel que essa porta não quer abrir por nada.

– Deixe comigo, vá deitar vá. Sua mãe e eu ainda temos muito o que fazer. Já já vou dar boa noite aos seus pezinhos.

Pra Irene, Gomes era como um milagre. “Um homem que toma coragem e me pede em casamento, feito antigamente, um homem que toma minha menina por filha, um homem que toma conta da gente”. Pra Mabel, tomar não era uma palavra assim tão bonita. Gomes lhe tomou a mãe e o boa noite dele lhe tomou um tanto de coisa.

Ela fez o que podia fazer. Primeiro o lençol, depois a ideia de dormir com a calça do uniforme.

– Que besteira é essa, Mabel?

– É pra acordar já pronta pra escola.

– Mas nesse calor? Tire pelo menos o sapato, vá.

– Tem nada não, mãe.

De pouco em pouco, foi tirando os pés calçados de casa. Dormia numa amiguinha, estudava pra prova até tarde em outra, madrugava na sala de aula pra fazer trabalho de grupo.

– Mabel tá rueira demais, Irene.

– Deixe Mabel, Gomes, tá crescendo.

– Por isso mesmo. Tu tá perdendo a mão dessa menina. Essa noite ela vai ouvir.

Ouvia e via o pior de Gomes. Pra cada cadeira escorada do lado de dentro da porta do quarto, um empurrão mais forte. E Irene, surda. Pra cada papel higiênico nas frestas da parede do banheiro, dois olhos mais abertos. E Irene cega.

E aí que quase na mesma velocidade em que se conheceram e se casaram, a casa foi ficando pequena pra aquilo lá que Irene lia como benevolência de Gomes. Ele passou a distribuir a coragem, o cuidado, as mãos e os olhos pela vizinhança. Anoitecia fora e já amanhecia com pressa de sair. O jantar sobrando na panela coberta de segunda a domingo. O Travesseiro do lado direito da cama sem vinco de uso.

– Falta alho nesse arroz, Mabel?

– Tá gostoso, mãe. Não é isso não.

Irene começou na tentativa de entender, caprichou nos temperos, perguntou por ele de porta em porta, esvaziou muitas garrafas, distribuiu desaforos.

– O quê que tu disse pra ele? Tome tenência, menina. Responda.

Tinha dito nada, mas vinha pensando um monte. Um dia, acordou com a cadeira, inteira bamba, uma perna a um prego de cair, ainda escorada na porta. Seguia no lugar que Mabel a colocara. Gomes não tinha vindo. Ela ia saindo, mas a cadeira fez que não. Chiou pedindo que calasse. Mabel apurou o ouvido. Pescou a gritaria bêbada da sala.

– Passei a noite te esperando, Gomes. Quem é a catraia? – Irene sentada na mesa ainda posta.

E ele calado.

– Vá não. É a menina, é? Devolvo pro pai.

O barulho das garrafas, da porta do guarda-roupa, dos cabides, das rodinhas da mala. O baque de Irene, caindo no chão, a toalha de mesa, os pratos e as panelas caindo com ela.

Devolver pro pai não. Mabel tentou abrir a porta, a cadeira mandando esperar.

– Deixe eles se acabarem sozinhos.

Ela gritava que ia, e o móvel gritava que ficasse. A porta tentava ajudar se desfazendo nervosa até o MDF. Se agarraram pelos pés de madeira e de carne. Se arranharam nos pregos, nos ossos e na maçaneta. O encosto quebrou primeiro. E na força da raiva das três – da cadeira, da porta e da mãe que não lhe guardaram como e quando deviam – ela chegou na sala apertando uma estaca na mão. Gomes já ia longe e Irene transpirava Orloff por todos os poros. Sentiu o pedaço de pau entrar no corpo já largada no chão. Os músculos afogados em álcool permaneceram imóveis.

O resto da cadeira, a maçaneta e as tiras de MDF da porta correram atrás da menina pelo corredor. Irene tentava respirar, mas o grupo de entulhos lhe enchia a boca de alho e arroz. A mesa repetia o primeiro movimento de Mabel, entra e sai, entra e sai, como quem bate um prego. As cortinas se afastavam para atender o pedido da janela que queria ver a cena, o sol esquentando a sala, a panela gritava “tome, tome!”. Mabel voltou para o quarto e trouxe com ela o lençol de florzinha embaixo do braço. O calor preguento já encostava em julho, mais de cem dias sem gota nenhuma de chuva e o corpo embrulhado no lençol.

Deixe um comentário