Abrindo caminhos

por Américo Paim

O jovem hospedado no quarto 47 aparentava cansaço. Dava a impressão de estar em uma vigília com ares de nunca mais. As olheiras, mal disfarçadas com pós e cremes, assinavam os olhos, que atraíam a atenção de qualquer um ao primeiro contato, lembrando jaboticabas. Os cabelos, negros e livres sem trégua, pareciam desarrumados, mas havia uma simetria como que arranjada, compondo um quadro que não permitia uma olhada sem compromisso. Eram onda de mar em fúria, algo similar ao que devia se passar dentro da cabeça cheia de ideias e muito bem-feita, com testa de inclinação suave, como uma vista para o horizonte da serra. A pele, de palidez feito tarde vazia, apresentava a conta por mais uma noite entregue a mãos que lhe desenharam perdições. O bigode, como um traço à toa, sem intenção, era sensualidade, quanto mais toda vez que abria a boca e deixava fluir a voz de discurso de praça, algo que ficava nos ouvidos dos brindados com aquela sonoridade, quisessem ou não, como um zumbido tatuado. Seus modos e palavras, que chegavam como aroma após o banho, completavam a hipnose. Era um evento digno de registro estar frente a tal pessoa. Embora a figura ainda a impressionasse após aquela primeira semana em seu estabelecimento, Dona Fervorosa notou anormalidades. Curiosa, tratou de apurar, o que, no seu entender, não causaria muito espanto ao rapaz.

– O senhor está bem?

– Como não, senhora? – essa mulher é enxerida demais…

– Noite longa, hein?

– Parece sem fim mesmo – lá vem a caçadora de fofoca…

– Precisa de alguma coisa?

– Só de rumos para minhas dores.

– Como?

– Ouvidos para meu cantar.

– Vixe, não entendi.

– Não se incomode.

– Então tá. Ah, cuidado onde pisa com essa muleta aí.

– Deveras. Alguma mensagem?

– Mais bilhetes em banho de perfume.

– De novo? Vou ler no bar.

– Não é cedo para beber, senhor Fred?

– É Antônio, por gentileza – só me faltava essa…

– Ah, me desculpe. O povo daqui adora um apelido.

– Sei.

– Ouvi “Fred” de uma dessas que vêm atrás do senhor…

– Ah… – Ester… me quer exclusivo, não vai dar…

– Se a pobre soubesse…

– Do que, senhora? Pode falar.

– Essa movimentação no 47… Parece dia de feira, num sabe?

– Não sei do que se trata.

– Muita mulher diferente…

– Sei que não estou perturbando a paz por aqui. – deveria mandar essa mulher…

– Os hóspedes às vezes reclamam da música…

– É arte, Dona Aurora. São cantoras.

– Se aporrinhe não. Conversa à toa.

Ele cortou a conversa, deixou a chave do quarto com ela e se despediu com um aceno de cabeça. Moveu-se devagar. Ainda se adaptava à prótese no lugar do pé esquerdo decepado. Doía mais a vaidade, a mácula na beleza, do que o membro que agora era lembrança. Não foi difícil conseguir um táxi e logo estava no Bar do Cabeça Quente. Esse lugar é um desperdício, mas vale o sacrifício. Vem muita gente aqui, a inspiração está sempre à espreita. Servido de café e um sanduíche, sentado à beira da janela, aonde a brisa chegava sem intervalos, observou a paisagem ainda sem interesse. Comia com vagar, não por degustação, mas falta de energia mesmo. Esse cansaço é permanente, que coisa. E é difícil começar o dia depois de uma noite como ontem. Não há o suficiente nessa xícara para contar com justiça a história.

Álvaro chegou e sentou-se à mesa sem mais licenças. Seu rosto de arrodeio, a boca de tristeza, que coadjuvava o bigode espesso terminando em curvas, tudo sobre a pele branca que se apresentava em ótimas condições. Sujeito de fala em pausas. Os poucos quilos a mais se mostravam na camisa um tanto apertada. O sorriso que Antônio lhe deu foi de pouca relevância, mas longe de algum desprazer com a aparição. Meu amigo fiel. Espero que acate meus pedidos. A hora urge. Não vai me decepcionar.

– Chamou por mim e pronto estou.

– Grato, meu prezado.

– Homem, chegou direto de ontem?

– Acho que ainda estou lá…

– Então foi bom.

– Não me permito o frio deserto. Erro por aí.

– Amigas novas?

– Você bem sabe. Nada que resolva a situação…

– Vai insistir em não falar mais com ela?

– E o que teria a dizer, caro amigo?

– Vocês são pessoas inteligentes…

– E passionais. O sangue me ferve.

– Ciúme de novo?

– Sim, mas me deu razão dessa vez.

– Não muda as coisas.

– Só para o meu ego.

– Por que veio parar aqui nesse raio de cidade?

Antônio riu alto e as pessoas no bar olharam para ele. Pediu dois conhaques ao garçom, que já o olhava desconfiado desde sua chegada. Que povo curioso. Cada olhar me esconde alguma história, só aqui nesse bar. Ali, atrás daquele balcão, deve ter conta de muita gente. Aposto. Augusto, conhecedor do amigo, entendeu que ali vinha muita conversa. Tirou o blazer, se acomodou melhor na cadeira e o observou contemplar a paisagem lá fora. Sentiu como se ele fosse falar algo e se antecipou.

– Diga de uma vez, Antônio.

– Eugênia…

– Ah, tá…

– Calma, calma.

– Vá, me surpreenda.

– Ela me chamou de homem antigo. Vê se pode.

– Essa eu gostei. Você tá velho com seus vinte e dois anos…

– De que ri?

– E ela é mais velha que você… Essa é nova.

– Brigamos feio – será que ela tem outro?

– Tá pensando em quê?

– Nada. Coisa da minha cabeça…

– Bem, deixa de lado. Sim, como veio para cá?

– Procurei no mapa qualquer lugar com o nome “velho”.

– Tá brincando…

– Sério. Estou aqui há uma semana.

– Só você mesmo… Que coisa idiota, maluquice…

– E agora sei que vou demorar mais.

– Ué, por quê?

– Daqui só saio com meu novo livro.

– Sério? Notícia boa!

– Mas você precisa garantir que vai publicar se eu não estiver aqui.

– Vai se mudar?

– Não falo disso. A vida pode ser breve.

– Que conversa mórbida.

– Apenas sendo prático.

– Sobre o que será o livro?

Contou ao amigo sobre o cenário em Pedra Velha. Mistérios, fantasias, crendices, risadas, só que nada acendeu luz na sua cabeça. Gostou, mas sentiu que aquele céu não era para piloto amador. Conversou com várias pessoas, em diversos lugares e momentos. Chegou aos perfis dos chamados “donos da cidade”, Fenelon e Serafim. Dali não saiu. O povo bem sabe é de coisa e tem medo. Esses caras são perversos, muito ruins. Escravizando gente em pleno século XXI? Exploração, roubo, tortura, corrupção e morte. Que adianta tudo limpo e bonito por cima de corpos mortos, asfixiados pelo opressor? Como ninguém faz nada? Silêncio conivente. É precisa fazer barulho. Que o choro de dor e tristeza lave essa bandeira de horror! Pedra Velha precisa ser redimida! Ditadores chafurdando em imundície, a esmagar o povo, que deve ser livre como o condor! Augusto ouvia atento e lia os pensamentos que não viravam palavras. Já estava acostumado. Apesar de sua condição física dizer o contrário, Antônio falou com a energia de sempre. Contava mais detalhes e tossiu forte.

– Ei, Cecéu, essa tosse continua?

– Nada… Me engasguei aqui.

– Você precisa ver isso.

– Logo fico bom.

– Já tem tempo. Que custa ir ao médico?

– Não. Aliás, quero uma promessa.

– Fala.

– Foi uma das razões para lhe chamar aqui.

– Desembucha, homem!

– Quando eu morrer não me jogue em buraco de cemitério.

– Que papo é esse?

– Prometa.

– Tá bom, mas faz o quê?

– Problema seu. Não estarei em condição de protestar.

Augusto se levantou e foi ao banheiro. Antônio conferiu o lenço onde tossiu. Sangue de novo… Isso só está piorando. Não vai dar tempo para fazer tudo, que droga. O amigo voltou.

– Mudando o rumo da prosa, cuidado com esses tais caras, viu?

– Não tenho medo. Você me conhece.

– É isso que me preocupa.

– A luta entre treva e clarão já está aí.

– Como?

– Nada, deixa quieto.

– Não crie mais confusão, por favor…

– O povo navega sem saber se o azul é céu ou oceano.

– Está flutuando, viu? Põe o pé no chão, amigo.

– As espumas se dissolvem, já vejo com clareza.

– Ai, ai. Fale português.

– Não vê?

– Olhe, por que não volta com Eugênia? Tá lhe fazendo mal.

– Augusto, isso aqui é mais importante.

– Acerta as coisas. Vai melhorar sua cabeça.

– Tem uma semana de silêncio.

– Já brigaram assim antes…

– Estou cansado. Vago pela estrada sombria da existência.

– Eita, agora pegou de vez…

– Eu só queria viver, beber perfumes…

– Quisera lhe entender, de verdade.

Antônio pôs-se a olhar pela janela outra vez. Parecia mirar o nada. Augusto se levantou e foi até ele. Colocou a mão sobre seu ombro e olhou para onde o amigo mirava. Não percebeu nada demais do outro lado da rua. Casas, carros, pessoas passando, animais. Até ver no topo de uma fachada a pequena bandeira oscilando ao vento matinal. Era de algum clube social ou instituição. Algo desconhecido. Uma rajada de vento e o pano emitiu um som, como um estalo. Antônio o percebeu como carinho na face.

– Tá vendo? Um sinal. A cidade me mandou um beijo. Preciso retribuir.

– A bandeira estalou e sacudiu. Só isso, não?

– Hum, boa frase.

– Qual?

– O vento, a bandeira que beija e balança. Poesia.

– Falando nisso, pensou no que lhe disse?

– Sobre o quê?

– Mudar sua assinatura.

– Ah, lembrei. Pode ser só Castro Alves, então.

– Enfim! É mais sonoro.

– Se espalha mais fácil na multidão. Meio que mete o cotovelo e vai abrindo o caminho.

– De onde tirou isso?

– Talvez uma visão…

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