Choo Choo – Toot Toot

Entre o cesto da roupa suja e a máquina de lavar. Entre a de lavar e a de secar. Entre a de secar e o cesto. Entre o cesto e o closet. 

Na vida das mulheres, envelhecer é acumular “entres”. 

“Entre, minha filha, a porta está aberta” – falava a sua mãe quando ela tocava a campanhia. Bons tempos de café nas tardes escutando as muitas teorias. “Uma mãe nunca abandona os filhos. Eles é que precisam romper em algum momento com a mãe para construir seus caminhos”. Assim ela fez na juventude com a sua mãe, assim seu filho parecia ter feito em algum momento da juventude dele com ela. 

Desse manual sua mãe esqueceu de ler as linhas onde deveria contar que, no entre da vida – quando falta colágeno mas ainda sobre alguma disposição – as mulheres viram ímã de gente. De todos os lados colecionam parentes, ventanias e pedidos de “um dinheiro para fulano” que esperam que, como mágica sejam transformados por elas, em afeto, brisa e empréstimos. 

Sorrindo, claro. 

A sua mãe hoje com 90 já estava com olhar de quem via a chegada do trem. Há um outono e um inverno tinha se mudado para sua casa, acadama por conta de uma doença degenerativa. A casa voltava a ficar cheia, de adultos. Dois outonos e muitos invernos antes, o filho havia regressado com pedido de lar para uma curta temporada após o fim de um casamento, segundo ele “sufocante”. Desde então, permanecia no quarto de adolescente brincando mais de hide do que seek com a vida de adulta, às suas custas. 

Na noite passada, ela e filho protagonizaram uma discussão que chegou a deixar Toddy cabisbaixo. O pleito da mãe era simples. Dividir as tarefas e despesas da casa, que com o home care da mãe decolaram. O que começou como prosa, pegou corredores de discussão, porão de briga, abriu gavetas de ofensa e fendas de mágoa. 

No sábado de manhã, ela acordou na ressaca moral, espiou no silêncio que o rapaz tinha saído. Respirou fundo, reiniciando as atividades da casa diante de um cesto de roupas do filho saídas da secadora. No quarto dele a cada peça de roupa guardada no closet, escutava uma gentileza. 

“Você é uma velha sem alma” – gesticulou o short

“Por isso que o papai te deixou” – falou a cueca recém-acomodada no meio de seus pares

“Você sempre colocou o trabalho na frente da família” – retribuiu o par de meias

As frases de ontem reverberaram com a voz do filho, até que o cesto vazio sussurrou baixinho debaixo pra cima chegando a arrepiar seus cabelos. 

“Tudo sua culpa” 

Ela respondeu com um urro do tamanho da coleção de camisetas de futebol americano do filho. Tecidos sintéticos que eram trama viva do ninho preservado, mesmo após anos da saída do filho quando foi para a faculdade. 

“Burra! Burra! Burra!” 

Os gritos compulsivos foram escandalizados pelo encontro com outro ninho. O de roupa suja de corrida enfiada entre lençóis de solteiro dentro do closet. Puxou o que parecia ser uma calça de lycra, vieram a reboque cueca, par de meias, toalha de rosto, blusa, colete. Na tentativa de separar as peças encadeadas como vagões, acabou sem querer as unindo em um nó ainda mais forte.  

Jogou o trem de roupas úmidas no chão, espalhando o suor. Toddy correu animado para lamber. Expulsou o cachorro de rabo baixo e catou na primeira gaveta entreaberta uma camiseta limpa para usar como pano de chão. No acesso de fúria, pegou todo resto da gaveta e virou sobre o chão. E, assim, foi varrendo a raiva, derrubando prateleiras e caixas. Calças, shorts, casacos, luvas, meias, gorros. Dinheiro. Um bolo de notas preso com um elástico no meio caiu na pilha no chão. 

Se abaixou para pegar e por lá permaneceu. Deitada sobre o colchão de roupas, mexendo com o dedão da mão direita nas notas presas ao centro por um elástico. Ficou por alguns segundos brincando com o dinheiro, como fazia no encerramento do turno quando era uma jovem caixa de supermercado. Na memória, o som da caixa registradora viajou de trem. Eram dois, na prateleira mais alta onde seu 1.57 não dava pé. Um deles comprado com o seu primeiro salário nessa época. 

Estavam em perfeito estado. Todos os anos passavam por check up anual melhor do que o dela, com a visita de um técnico especializado em manutenção de trens elétricos. “Um dia, netos”, justificava assim na linha da despesa em seu orçamento apertado. 

Apertou com os pés o monte de roupas contra uma das paredes aumentando a densidade e altura do bololô. Do topo de tecido conseguiu catar a maior das caixas, retirando dela um pedaço de trilho de trem. Um metal pesado, medindo uns vinte centímetros, com um gancho pontiagudo no centro de uma das pontas. Lembrava as agulhas de crochê de sua mãe. 

Passou o trilho pelo meio da camiseta favorita favorita da coleção. New York Giants, depois foi costurando um mapa cruzando Seattle, New England. Com o trilho-agulha furava frente e verso de cada peça, da forma mais alinhada possível, atenta para que o buraco feito não esgarçar escapulindo pelas ferragens. Lotou o primeiro trilho, pegou na caixa uma nova agulha e seguiu com a costura camisa por camisa. Completou o circuito oval a coleção atravessada como tapete para a ferrovia. 

Por conta das roupas, o trem não tinha a aderência necessária para andar. Coube a ela, agachada ao lado de Toddy, empurrar o veículo. Dando voltas e voltas em naquele circuito imitando os ruídos de uma ferrovia cada vez em um volume mais alto, para que não escutasse os sons do home care da mãe. 

Depois de uma umas cinquentas voltas, voltou ao closet exausta, pegou dois jogos de lençois. Abriu a bicama do quarto, posicionou a cadeira de estudos ao lado. Amarrou uma das pontas do lençol de sistema solar no topo da cadeira, esticou a outra até a cabiceira da cama, prendendo-a na parte vazada do móvel. Se deitou debaixo daquela cabaninha, exatamente como fazia quando o filho tinha uns 7 anos e passavam juntos horas e horas lendo histórias nos dias, como esse de inverno. Agora, ao invés de livros, lia nas notas de dinheiro traços irreconhecíveis daquele menino com quem a relação mãe e filho parecia ficção mal contada. 

Venceu a melancolia para seguir na costura. Sua analista sempre indicou trabalhos manuais para momentos de angústia. Na segunda caixa, o trilho-agulha era mais leve, delicado, ótimo para tramar cuecas, meias, gorros, cachecóis compondo um circuito de acessórios perfurados. Passeou com o trem vermelho guiado pela palma de uma das mãos embaixo da mesa de estudos. Começou na toada lenta pelos trilhos, até chegar ao “Choo choo – Toot toot” em ritmo e volume frenéticos. O Toddy latia. Juntos, a sinfonia era potente suficiente para abafar o beep beep e o zumbido do home care. 

Foi ficando cada vez mais rápida nos seus gestos até que mãos e bocas saíram dos trilhos andando de quatro pelo quarto. Uma mão ia arrastando o trem, a outra espalhando o dinheiro pela cabaninha, mesa, luminária. Ela e Toddy lado a lado “Choo choo – Toot toot”. “Au au” saíram pelo corredor na algazarra de oito patas até o quarto de sua mãe. Ofegantes, se deitaram ao lado da cama de home care, de barriga pra cima, desacelerando o “Choo choo – Toot toot”. “Au au”. 

Se acalmaram embaladas pelo ritmo, que agora parecia um agudo infinito, vindo do home care. Beeeeeeeep. O som contínuo foi desviado pela chave abrindo a porta lá embaixo. Talvez o acordo para uma nova linha, no dia do encerramento da mais antiga das estações.

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