Colocaram um holofote sobre um prédio em construção há uns 500 metros de onde eu moro. Assim que escurece, para servir de alerta aos aviões e helicópteros ou iluminar alguma coisa de que não faço ideia, eles acendem a luz, que entra na minha sala como se fosse o sol. Um sol que dura toda a noite, atrapalha a TV e chega pelas frestas da porta do meu quarto. Fiz uma foto , escrevi um texto e enviei na página do bairro, no Facebook. As pessoas se surpreenderam, mas nenhum outro morador do meu prédio ou dos prédios vizinhos se manifestou. Houve sim, gente de outras ruas que se surpreendeu com a claridade na minha sala e me deu sugestões. Uma delas chegou com uma conversa de empatia e aproveitou para lamentar a falta desta capacidade humana entre os moradores do lugar. Ela contou que, há duas semanas, nesta mesma página, havia feito uma reclamação sobre seus vizinhos que deixavam o cachorros latirem nas varandas e não teve o mesmo sucesso que a minha. Ela e sua preocupação tão pertinente com a paz das pessoas com bebês, dos idosos , dos convalescentes e dos trabalhadores que precisam de sossego e descanso.
A mulher se chama Dulce Vieira, foi solidária comigo , mas aproveitou meu post para reclamar . Então ela se estendeu, comentou que a página servia a uma democracia de dois pesos e duas medidas e me deu a óbvia sugestão de ir até o prédio falar com o responsável pela obra. Na verdade, ela usou a palavra “construtora”. Disse que eu fosse falar com a construtora. Esta ideia passou pela minha cabeça e só escrevi na página para buscar alguns parceiros no mesmo problema. Depois da manifestação da Sra. Dulce Vieira, meu post foi perdendo força e o seu comentário cresceu.
Um tal de Sr. Altair Gomes resolveu conversar com a Sra Dulce Vieira e questionou a mulher a respeito do respeito aos cães. “Agora cachorro não pode mais latir? Esta é a fala dele. Você queria ser muda? Acho que não”, ele mesmo respondeu e continuou reafirmando que os cachorros não gostariam de ser mudos. Daí a Sra Dulce Vieira respondeu que ” claramente se referia a uma situação que era anormal e que não gostaria de viver em locais onde tivesse que conviver com cachorros que latem o tempo todo”. Justificou dizendo que ninguém ia poder conversar . Terminou repetindo que era preciso ter empatia com as pessoas que querem e necessitam de silêncio e sossego . Ela se referiu também à cidadania para um bom convívio. Dona Dulce Vieira é muito simpática às palavras empatia e cidadania.
À sua resposta, o Sr Altair Gomes sugeriu que ela comprasse um sítio e que a Sra Dulce Vieira não tinha noção de que morava numa metrópole onde tudo funcionava 24 horas, inclusive a fala dos cães.
“Sua resposta é típica dessas pessoas que não conseguem ver além do próprio umbigo” – escreveu Dona Dulce Vieira ao Sr. Altair Gomes . Então completou que a página do bairro e o próprio bairro estavam cheios de pessoas iguais a ele. Foi além e disse que a lei estava a seu favor e que estava abrindo processos contra todos que não pensavam no próximo. Seu Altair Gomes sumiu da conversa.
Neste momento surgiu a Sra Guiomar de Lira dizendo que concordava com a Dona Dulce Vieira quando ela dizia que era preciso ter empatia bem como cidadania e por isso preferia o latido dos animais. Assim mesmo cheio de “ias”. O que sugere que Dona Guiomar de Lira é quase uma poeta, é bem irônica e acha que todos os bichos latem. Dona Guiomar de Lira justificava seu comentário dizendo que os cães são irracionais, não têm noção quando fazem barulho de madrugada e que o problema era com o donos que não sabem educar e os maltratam. “ Difícil é aguentar vizinho escandaloso que se julga no direito de falar alto, gritar e dar festinha na varanda até de madrugada. Este, que chamamos de racional.” – ela completou.
Querendo ser gentil, entrou o Sr. Celso Fragoso dizendo que “cachorro é bom , mas às vezes incomoda”. Ninguém nem ligou para o que ele disse, assim como já tinham esquecido minha queixa sobre o holofote. Foi a única participação do Sr. Celso Fragoso no post.
Dona Letícia Andrade, cuja foto é decorada por uma bandeirinha do Brasil apareceu do nada: “pelamor, vocês reclamam de tudo tem que agradecer de não estar na chuva e ter sol na cama”. Dona Letícia Andrade faz o tipo gente de bem. Não consegui entender o que seria o sol na cama e cheguei a pensar que pudesse ser o holofote.
“Ah é, Dona Letícia?? Permaneça submissa a tudo que incomoda…ou será que já está tão anestesiada ou adestrada ao sistema que nada disso tem importância? É por isso que a qualidade de vida nas grandes cidades é cada vez pior, por este seu tipo de pensamento. Se todo mundo reclamar de tudo o que é abusivo , as empresas e a prefeitura, quem sabe, passem a nos ver como pessoas e não como números. Quem não luta, embolora, disse a Maria José Crispim, uma supercolaboradora da página, que invadiu a conversa e achou por bem apoiar a Dona Dulce Vieira que continuou a discussão com a Sra Guiomar de Lira.
“Você está reclamando também da reclamação dos seus vizinhos, não é? Já ouviu falar em empatia? O que não a incomoda pode incomodar o outro”. Olha aí a empatia da Dona Dulce Vieira de novo.
A conversa estava, até que enfim, voltando ao holofote.
“Realmente acho desnecessário reclamar de uma luz. Fecha a cortina”, Dona Guiomar de Lira respondeu desprezando a empatia tão defendida pela Sra. Dulce Vieira . “ Minha qualidade de vida só tem a agradecer e além do mais não sou sua vizinha” – ela completou.
“ Felizmente” – respondeu a Sra Dulce Vieira . Na certa, se referindo ao fato de não serem vizinhas. Sra Guiomar de Lira não respondeu . Deve ter saído para desfrutar a sua boa qualidade de vida
Quando eu ia voltar ao holofote de onde tudo surgiu, apareceu a Leonor Brustkas:
“Esse tipo de poluição está se tornando comum no bairro. Aqui colocaram um luminoso 24h ligado. É enorme e o quarto da frente vai precisar de outras cortinas. Um abuso.”
“ Pois é” – respondi meio tímido e sem vontade de continuar o que comecei. Pensei até que ia aparecer alguém oferecendo serviços de venda e instalação de black-out para salas, quartos e afins.
O comentário da Leonor Brustkas foi seguido por um “Eita” da Luciene Lima que foi ainda mais tímido que a minha resposta. Só não sei se o “eita” se referia ao holofote ou ao embate Dona Guiomar de Lira X Dona Dulce Vieira . Entendi que poderia ser para o holofote quando, a seguir, a Sueli Santos, muito simpática, comentou que , na foto, minha sala ficava tão clara que nem precisava acender as luzes.
“Estou no grupo há tempos nunca postei nada ! Resolvi colocar uns móveis e aparelhos médicos para venda, por conta de mudança e não foi aprovado pelo administrador. Quanta gente aqui vende e anuncia de tudo! Agora temos que ler respostas mal educadas por conta de uma reclamação justa que incomoda alguém. Absurdo !”
Achei curiosa a intervenção da Mariana Bertoldini, mas já tinha tomado o meu café, precisava ir para o trabalho e deixei tudo pra trás. Quando cheguei no escritório, tinham todos sumido do post. Ninguém mais discutia. Tinha uma nova publicação da Bernadete de Lima, que procurava por um especialista em ” reiki à distância para gatos” e o meu post da manhã se encerrava com o comentário da Vilma Trindade:
“Que horrível!”
É noite e vou enviar mais uma foto do sol na minha sala.
