A luz apagou no instante em que o pneu passou boiando por mim. Eu vinha acompanhando sua descida desde um quarteirão acima. Agora, no escuro, isso não seria mais possível. Se o resto da moto ou mesmo seu piloto viessem rolando na enxurrada, eu não teria como desviar naquela esquina em curva onde me agarrava ao tapume de uma construção. O clarão de um raio quase simultâneo ao trovão revelou um capacete descendo no turbilhão. Tomara que não tenha ninguém dentro, pensei. A essa altura, a Augusta era mais cachoeira do que rua.
De onde estava eu não conseguia distinguir o que era pista e o que era calçada. Desci da minha posição, submergindo até a cintura. Além do risco de ser atingido por algum objeto que viesse surfando no redemoinho, eu também podia tropeçar ou cair num bueiro aberto. Tateei, apoiado em uma grade, até dar a volta na esquina que subia para a Frei Caneca. O volume de água era menor ali. Novo relâmpago e, dois segundos depois, o ribombo.
Procurei qualquer luz, ainda que metafórica, sob o aguaceiro. Vi uma real. Na verdade, era só um brilho amarelo. Coava pela janelinha de vidro engastada em uma porta dois degraus acima do nível da água corrente. Olhei para cima, mas não vi placa identificando o lugar. Tanto podia ser a entrada de um apartamento pequeno como de um depósito, ou um bar anônimo. A grade externa de ferro estava escancarada, como se tivesse dado passagem a alguém apressado demais para fechá-la. Passei a estudar a maçaneta da porta interior. Era do tipo alavanca, mais fácil de quebrar que a de bola. Eu estava me preparando para meter o cotovelo quando resolvi testar o trinco. Ouvi o clique: estava destrancada.
“Porra, qué isso, cara! Tamos fechado!”
A voz da mulher veio do fundo do salão, se é que dava para classificar aquele cubículo de salão. Havia apenas um balcão do tamanho de uma escrivaninha ladeado por dois bancos altos e, no centro, uma mesa sem toalha que sustentava um lampião a querosene. O combustível devia estar no fim, porque mal dava para ver a cara dos quatro presentes. Um homem branco de formas compactas ocupava o banquinho da esquerda e outro estava sentado no chão, com a camisa aberta, a gravata torta e as costas apoiadas na parede. Além da mulher quase invisível que tinha tentado me expulsar, uma morena de avental segurava um copo e uma garrafa à frente do balcão
“Desculpe invadir. É que não quero me afog…”
A garrafa de cerveja explodiu no alto da parede atrás de mim, salpicando minha carapinha com lascas de vidro. A morena sentou no banquinho como se fosse a coisa natural a fazer depois de arremessar um vasilhame num estranho. Com o queixo erguido, bebeu o conteúdo do seu copo até o fim.
“… nem servir de alvo”, eu disse sem alterar a entonação.
Ninguém se mexeu por dez segundos. Até que a mulher que tinha falado antes deu a volta no balcão-escrivaninha e se revelou à luz vacilante. O cabelo era raspado de um lado e comprido do outro. A cor dos fios ia do loiro-palha ao cinza – talvez estivesse fazendo a transição capilar. Uma grande argola pendia da orelha colada na banda careca. Chegando nos quarenta, ainda conservava um ar juvenil.
“Desculpe, mas o expediente se encerrou faz tempo”, falou com um sorriso profissional.
“É só até passar a enxurrada. Tem tanta água lá fora que me deu sede.”
O clarão de um raio iluminou o cenário. Contei até três antes do estrondo. A tempestade estava passando.
“Preto na Augusta, a essa hora, ou é cana ou é ladrão.”
“Também pode ser michê…”
O primeiro que falou foi o sujeito pesado. Mexeu o corpo devagar e ficou de perfil, sem me olhar diretamente. Na fórmica à sua frente pude ver uma bandeja espelhada, uma nota de 100 enrolada como um canudo e um cartão de crédito. A segunda voz veio do desengravatado que, ainda no chão, tinha a voz pastosa de quem acabou de acordar.
“Ô, Madureira, decide logo se vai pagar com dinheiro ou cartão, vai!” A meio cabeluda se moveu de forma a ficar entre mim e o balcão, impedindo que eu visse a morena escondendo o flagrante.
“Olha, não quero atrapalhar nada nem ninguém. É o tempo de tomar um conhaque e volto pra chuva”, anunciei.
A mulher suspirou alto. Com um gesto teatral, me ofereceu o banquinho da direita agora vazio. Acenou para a outra, que alcançou um Domeq na prateleira.
“Noite difícil?, hein?”, perguntou a loira.
“Nem me fala”, bufei.
“Mulheres?”
“Só a minha mesmo.”
“Brigaram.”
“Sim.”
“Bateu nela?”
“Só um pouquinho.” Minha própria franqueza me deixou surpreso.
Notei que os dois homens estavam tensos. Monitoravam a porta da rua sem fazer questão de disfarçar muito. De fora, só chegava o barulho dos trovões, cada vez mais atenuados.
Depois de beber de um só gole, bati o copo com mais força do que o normal e encarei o homem no banco oposto: “Preto, sim, com orgulho”.
Como ele permaneceu encarando o vazio, continuei: “E cana, para mim, é com limão e açúcar. Já se sou ladrão ou não, só quem me conhece pode dizer”.
A loira pós-Balzac riu, mas só ela.
O gorila nem piscou. Estiquei a mão espalmada para ele: “Muito prazer, Rogério”.
“Antônio Madureira”, ao seu dispor.” Ele retribuiu o aperto, forte e breve, sem alterar a cara fechada.
“Agora que você me conhece, tem o direito de opinar se sou ladrão.”
“Até que não parece… está mais para tira. Da Civil.”
Sorri sem responder. Se eu queria aliviar a tensão, não estava tendo muito sucesso.
A loira se abaixou, o máximo que o vestido justo permitia, até o nível do homem esparramado no piso: “Ô, Zico, vai lá fora ver se a chuva parou, vai?”
“Tá louca, Zínia? Ainda dá para ouvir a água caindo daqui.”
“Zínia é seu nome?”, perguntei.
“Esquisito, não acha? Minha mãe era mexicana e adorava a Frida Kahlo. Aí me pôs o nome de uma flor que ela pintava. Melhor que mandrágora, né?”
“Sem dúvida.”
“A outra flor aqui é a Açucena”, apontou para a morena, “mas essa é do Nordeste mesmo”.
“E ruim de mira”, gracejei tirando um vidro imaginário do pixaim.
“Errei porque era preto no preto”, Açucena provocou.
“Sim. Está um breu aqui dentro. Escuro como a minha pele.”
Foi falar isso e a luz voltou num flash.
“Arre, que era hora!” Zínia apagou o lampião e o guardou na prateleira de bebidas.
Aproveitei para pedir outro conhaque. Açucena despejou o Domeq num copo americano até a boca.
“Vai dar conta de tudo isso?”, Zínia disse para preencher o silêncio. “E achar o rumo de casa depois? A mulherzinha já deve até ter lhe perdoado.”
“Não sei se ainda tenho casa, nem mulher. Moro na Baixada do Glicério. Lá inunda sempre.”
A porta da frente abriu com um estrondo. Junto com o vento molhado irrompeu uma figura toda de preto, incluindo o capacete.
“Caraio! Tive de deixar a moto e vim quase nadando…”
Com a viseira levantada, seus olhos congelaram assim que bateram em mim.
O motoqueiro levou a mão à jaqueta, mas eu já estava com a nove milímetros na mão. Meu gesto também serviu para congelar o Madureira no ato de levantar. Abanei o cano em sua direção e ele largou o corpo, extraindo um rangido do banquinho.
Ainda sem falar, indiquei que o recém-chegado devia ficar de frente para a parede. Sua roupa impermeável começou a formar uma lagoa no piso de cimento.
Ninguém se mexeu por um tempo. Fora o motoqueiro, os demais me encaravam sem saber como reagir.
“Zínia, vai lá pegar a encomenda”, comandei.
“Que encomenda?”, ela devolveu sem fingir muita surpresa.
“Vai.”
Ela se aproximou do rapaz pela lateral. Esticou-se para alcançar o zíper interno da jaqueta, tirou de lá um saco de supermercado e me entregou. Com a mão esquerda, extraí o pacote transparente que havia dentro. Apalpei para estimar o peso.
“Isso dá uns bons anos de cadeia”, eu disse para ninguém em particular.
Pensei no que fazer em seguida. A chuva tinha diminuído. Sem ser anunciado pelo raio, um último trovão rolou ao longe.
Ainda segurando a Glock, usei a outra mão para pescar algo no bolso da minha calça encharcada. Depositei o objeto no tampo do balcão agora plenamente iluminado, ao lado do pacote branco.
Dez pares de olhos fixaram o brasão característico da Polícia Civil do Estado de São Paulo. Com os dedos em pinça, abri o estojo de couro e retirei dele minha carteira de investigador de classe especial, a foto colorida estampando minha cara preta.
“Quem é bom de separar carreira?” Sem esperar resposta, levantei a funcional acima da cabeça: “Isto aqui é perfeito para fazer fileira”.
