Abafado

por Américo Paim

Enquanto confirmava à nova inquilina que ela poderia vir para o imóvel no dia seguinte, Júlio coçou as costas se esfregando na parede, junto à janela. O abafamento lhe dava agonia. Afastou as cortinas para o vento do fim de tarde. Debruçou-se a fumar e olhar o movimento da obra do outro lado da rua. Recordou outra vez seus muitos anos de pedreiro. O monta-carga, o andaime mambembe, o barro, tábuas, pedras, baldes, cimento escorrendo pelas fôrmas de madeira e o movimento da betoneira. Alguns peões ainda trabalhando, mas a maioria em movimento de ir embora. Quando aquele empreendimento se anunciou e colocaram os tapumes, ficou irritado. Acabaria sua vista para a serra, ainda que distante. Agora pouco importava e até que foi útil, pensou. Ia embora. Pedra Velha, a casa, a obra, seu casamento, nada mais fazia sentido. Agora é pé na estrada, assim que terminar o serviço, falou em voz baixa e notou resíduos na sua camisa. Com cuidado para nada cair no chão, tirou a camisa e a dobrou, suja e suada como estava. Não a lavaria. Iria desse jeito mesmo.

A mala puída e já descolorindo tinha parte da roupa e um par de sapatos. Ele foi até a cômoda e abriu a gaveta de cima. Colocou todas as fotos antigas em um saco plástico. Talvez escolhesse as melhores depois. Apesar da raiva, levaria o único porta-retrato. Eles dois na viagem à capital. Como Zenilda estava bonita… Ensaiou emoção, mas cortou logo. Foda-se. Já devia tá rolando nessa época. Otário, idiota. Bebeu um longo gole do 8 anos direto no gargalo. Tampou cuidadoso e acomodou a garrafa entre camisas e cuecas. Foi ao banheiro. Diante do espelho, quase não se reconheceu. Magro, barriga discreta, a pele enrugando. A elogiada cabeleira de outrora mais parecia uma massa disforme, o olhar vivo de sempre estava mais para um enfermo de dengue ou coisa parecida. Raspou tudo de gavetas e prateleiras. Colocou na segunda mala, bem maior e em melhores condições, já cheia de roupas de todo tipo. Deteve-se no aparelho de barbear elétrico, que a mulher lhe deu em algum aniversário que nem se lembrava mais. Tempo bom. A gente transando até dentro da banheira. Ela dizia que eu era lindo e tesudo e eu me achando… Só mentira! Agora tudo é um monte de merda, só isso. Por quê? Só queria saber…

Vestiu uma camiseta e, sentado na cama, removeu dois tacos do piso do lado onde dormia e pegou o revólver, ainda com quatro balas, que sempre escondeu ali. Refletiu por uns segundos olhando a arma e a deixou sobre uma das duas malas. Seguiu para a despensa. Vazia, com um ou outro pacote esquecido. Nem valia a pena levar. Na geladeira nada que estragasse nos próximos dias. Deixaria ali. Desligou aparelhos das tomadas, fechou o registro do gás, checou as janelas. Voltou para a sala e sentou-se no sofá. O cansaço bateu. Precisava concluir tudo, mas se permitiu uns minutos. Olhou a porta e foi como visse Zenilda entrando, encantada com o espaço do apartamento. Parecia ontem. Ela me amava de verdade, ainda não tinha perdido o rumo. Ela rindo e dançando sozinha aqui. A sala ainda vazia. Me olhava, sorria, cantava, mandava beijo. Era como um sonho. Que desperdício da porra…

Ia retomar o trabalho, só que o local onde ficava o quadro junto à estante lhe prendeu a atenção. Era um retângulo um pouco mais claro que o resto da parede. Lembrou amargo quando Zenilda chegou em casa trazendo a tela embrulhada em papel de seda. Estava toda animada. Falou que ganhou no bingo da reunião das ex-alunas da escola das freiras. Nem apurei de tão ingênuo. Me convenceu que merecia colocar na moldura, que era arte. Aquela mulher nua deitada numa cama, os peitos de fora. Disse que era só uma cópia, mas era um quadro famoso. Nem lembro mais o nome do infeliz do pintor. Mentirosa. Com certeza já foi feito por Valdir. O filho da puta sempre se meteu a artista. Pegou minha mulher e pintou. Ou pintou e pegou, tanto faz. Pelo menos aquela prova da minha cornitude tá ardendo no fogo do inferno. Virou cinza.

De repente teve a sensação de que era observado. Rodou devagar pela casa, checou cada cômodo de novo, olhou embaixo da cama, dentro de armários, atrás de portas, tudo. Ao concluir, apagou todas as luzes e atravessou confiante a cozinha. Abriu a porta do porão e desceu os dezessete degraus feito um ninja. Parou por instantes. Se concentrou em ouvir. A falta de som abraçava e oprimia. Um silêncio de morte. Acendeu as fracas lâmpadas incandescentes, uma em cada extremidade do lugar. Olhou tenso a parede do fundo. O cimento estava seco e o chão limpo como o de um laboratório de pesquisas. Espalhou os jornais cobrindo todo o piso, sem espaço para respingos, fixando com fita crepe. Estava pronto. Confirmou não haver barulho, dentro ou fora do porão. Pintou a parede devagar, com pincel. Nada do ruído do spray, só as cerdas atritando no cimento assentado. Seu trabalho sempre foi de qualidade. Não falharia agora. Logo tudo estava concluído. Sentiu orgulho e gastura. Recolheu todo o jornal agora sujo, conferiu a limpeza, apagou as lâmpadas e subiu cada degrau tentado a olhar para trás.

De volta à sala, recolheu os últimos itens: os livros na estante. Eram uns poucos sobreviventes. O resto ele tinha queimado no quintal, em um dos seus acessos de ciúme de Zenilda. Achava que o comportamento dela vinha mudando também por causa deles. E das companhias metidas a intelectuais. Ela o acalmou. Lhe assegurou que estava enganado. Em vez de entrar em conflito, o estimulou à leitura. Ele não aderiu por completo, mas leu uns contos de autores que ela sugeriu. Foi um período breve. E foi assim que seu destino de definiu, irônico.

Foi “O barril de Amontillado”, em uma coletânea de contos de Poe, que lhe deu a ideia. Simulou viagem a trabalho e voltou duas horas depois, de surpresa. Entrou em casa pela cozinha. Valdir e Zenilda na sala, bebendo e rindo. Tentaram acalmá-lo, mostrar que ele via coisas demais. Não conseguiram. Os amarrou e amordaçou sob a mira do 38. Desceram ao porão. O barulho das máquinas velhas de sua pequena oficina abafou os disparos certeiros. Depois foi só erguer a parede e pintar, com as sobras de material que o pessoal da obra em frente lhe vendeu. Agora estavam lá os dois, em silêncio definitivo. Horas depois, Júlio se sentiu traído de novo. Na sua cabeça, no fim, eles permaneceram juntos.

Pela manhã, carregou sua bagagem no carro que estava na garagem descoberta. Estressado, saiu de casa para caminhar e parou uma quadra depois, para um café. Grande, puro e sem açúcar. Júlio olhava o vapor subindo do líquido fervente em desenhos aleatórios sem se importar com a mosca teimosa passeando pelo perímetro de vidro do copo americano. Estava cansado e vazio. Pediu um pedaço de torta salgada. Comeu e repetiu. Freguês antigo, viu o estabelecimento nascer, há quase cinco anos, despretensioso. Agora tinha até serviço de delivery, apesar da brutalidade do proprietário, pouco afeito a conversas e gentilezas, mas bom no ofício de pães, bolos e afins. Chico Fortunato, chamado de “Chico Grosso”, o dono, observou o olhar perdido do cliente, que tinha as mãos entrelaçadas sobre o balcão. Nunca o tinha visto com aquela expressão no rosto. Se aproximou de Júlio sem cerimônia. Usava a camisa verde de botões com a logo da empresa. A barba cerrada, o olhar ruim com a cicatriz acima da sobrancelha esquerda, um restinho de tatuagem aparecendo por baixo do colarinho, o cabelo precisando de trato e a boca enorme com pelo menos três dentes coloridos entre prata e ouro.

– Tu é feio, Júlio, mas não precisa exagerar…

– Olhe como fala comigo, Chico.

– Hum, tá de cabeça quente…

– Não me encha o juízo.

– Tô de boa. Queria saber se pretende morrer no meu balcão ou só depois.

– Não tô mal pra isso não…

– Ah, imagine se tivesse. O que é que tá pegando?

– Nada, já disse.

– Né comigo não, é que fazia tempo que num vinha aqui.

– Não faz falta pro seu negócio pelo visto…

– É, não posso me queixar. E a patroa? Tá sumida…

– Quanto é que lhe devo?

– A mim, nada.

Falou já deixando o banco alto do balcão. Foi ao caixa, pagou e saiu sem olhar para trás. Nem viu a mosca se afogar no café ou o olhar desconfiado que Chico lhe lançou enquanto lia o bilhete que Zenilda lhe deu dois dias antes: “Chico, você me deve seu casamento. Se não tiver notícias minhas em breve, acione a polícia. Ele está muito estranho, enfiado naquela oficina. Tenho medo”.

Júlio caminhou por duas quadras, tempo de mais um cigarro. Encostou-se na parede da última esquina antes do acesso ao Morro do Coentro. Os olhos castanhos e inquietos escaneavam tudo à sua volta, mas nada conectava sua cabeça. Passou os dedos de unhas roídas nas bochechas magras. Tirou um resto de comida de um dos caninos. Voltou para casa e entrou no carro. Olhou aquele cenário uma última vez. Pôs as mãos no volante e notou manchas de tinta esquecidas no punho. O calor da manhã começava a aparecer e ele folgou um botão da camisa. Sirenes ao longe interromperam o canto do bem-te-vi na árvore em frente à casa, que permanecia em um silêncio duro, abafado.

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