Sambando na Lua ( de Carol Schettini)
Não, não, não. Márcia diz enquanto mexe os braços na frente do corpo. Michael, já te mostrei. Pro lado, pro lado. Assim, ó.
Márcia samba miudinho para o lado, com passos pequenos e cadenciando os pés com o corpo todo.
Michael tenta mais uma vez. Vai para o lado. Olhando para o lado.
Olha pra frente, pra frente! Márcia se desespera. Ô tradutor, ajuda aí. De ladinho, de ladinho. Vai, desce, sobe de ladinho.
Michael ouve as instruções em inglês. Ali, no parque da cidade, em frente ao foguetinho, tinha tudo para dar certo.
Ele não dançou no Morro Dona Marta no Rio e deu? Então. O jornalista inventou a aula de dança e para evitar clichês tipo Congresso Nacional ou Palácio da Alvorada, escolheu o Parque. Por causa do foguetinho.
O homem não era o criador da moon walk, andada na lua. Podia ter escolhido o planetário, mas um foguete famoso no meio do maior parque urbano da América Latina seria um sucesso total. Fecharam as duas saídas do parque, o que não impediu que muita gente pulasse as cercas e seguissem a pé para ver Michael dar show ou vexame, vá saber.
Bora, bora, ladinho, passinho pequeno, assim, assim. Márcia tenta voltar aos passos de samba. Leu em algum lugar que ele havia aprendido primeiro a dançar cha cha cha. Qual a dificuldade, meu Deus, em se mexer para o lado olhando pra frente?!
E se a gente tentasse outro passo e depois voltasse pra esse? A professora sugere, já caindo pra frente, trocando as pernas como se um chapéu imaginário estivesse desgrudando da sua cabeça.
Michael usa chapéu. E óculos escuros.
Não, nem pensar. O produtor explica: o chapéu fica. Fica colado.
Márcia coloca as mãos na cintura e volta ao status quo ante. Bora pro passinho de lado de novo. Assim, ó, pé coladinho no pé.
Não adianta. Michael segue olhando para o lado.
Meu Deus! Ele não faz aquele passo que cai de lado. O pé fica preso e ele cai de lado? Gente! O produtor conta o segredo. Um prego no sapato é encaixado num furo no palco. Um gesso impede o pé de ir para o lado.
E se a gente mudasse o ritmo? Ela sugere. Pensa. Funk. Isso, funk. Pro funk ele tem toda a malemolência.
Michael não concorda. É rei do pop, do hip hop. Funk é um comportamento imoral. Nem pensar.
Márcia pede uma pausa. O céu está em forma de mar calmo. Azul, sem espuma. Não sabe onde estava com a cabeça onde concordou em ensaiar uma coreografia de samba depois das dez da manhã, ao ar livre, numa seca de deserto do Saara.
E o homem branco. Branco. Mais branco que a areia do parquinho. De calça jeans. Na seca. Na seca de Brasília.
Vamos fazer assim. Diz pra ele. Manco, manco andando de lado. Broken leg, broken leg. Michael não entende. Manca pra frente. Andando com uma bengala imaginária.
Uma pessoa que ensaiou mais de dez mil horas durante a vida, deve saber fazer um sambinha básico. Está havendo uma má comunicação entre a professora e o tradutor, só pode. Márcia tem certeza: Michal não gostou da coreografia. Achou capenga. Um homem que inverte a mecânica da caminhada ao colocar o peso do corpo na perna contrária à de apoio não consegue mancar de lado três vezes. Três vezinhas seguidas. Tá de brincadeira!
O sol castiga. A plateia aplaude e grita. A escola de samba chega para a apoteose e Márcia com Michael não ensaiaram direito nem o primeiro passo. Deixa pra lá. Bora fazer assim. Deixa vir de dentro. Improvisa. Filma. Antes do desmaio final. Só um pedido, peço com clemência, não levante os dedinhos pra cima. Em hipótese alguma, levante aos dedinhos pra cima!
