(Leticia Eboli)
Partida I
“Busquem um copo limpo dentro da máquina de lavar” – meus braços obedeciam com pouca habilidade aos comandos da minha cabeça latejando.
A palavra ressaca era capciosa. Bebeu numa golada só letras para formar “seca”, “casa”, “ré”. E assim dei dois pequenos passos para trás, puxando a bandeja inferior da máquina de lavar louça. A deslizei pelo trilho, estacionando o meu olhar diante do COPO. Ou o que restava dele, preso entre um prato de sobremesa e uma colher de pau, provando que sempre tem alguém com uma noite mais agitada do que a nossa. Após pelo menos 12 horas de cabeça pra baixo entre os longos dentes de alumínio da máquina de lavar louças, visivelmente sucumbiu à exaustão e se partiu.
Do fundo da máquina, retirei os dois grandes cacos, que se desprenderam daquele corpo. Não havia poeira de vidro ou caquinhos, a própria máquina deve ter se encarregado de limpar a cena do crime.
Diante da morte, sempre me vem a cabeça o meu tio Jorge, o porta voz da família para as tragédias. Junto dos anúncios de óbitos fazia questão de destacar se havia sido uma “morte matada” ou “morte morrida”. Como se importasse saber se o defunto havia culpa no cartório. Nesse caso, a tensão na asa das minhas costas respondia com um nó na garganta: “morte matada”.
O laudo final ainda era inconclusivo, oscilava entre suicídio e homicídio, nesse caso eu seria a assassina. Mas, vamos combinar, que dificilmente me acusariam de homicídio doloso – quando há intenção de morte como o âncora do jornal explicava sempre. Nesse caso, a intenção podia até habitar em um latifúndio no meu inconsciente, mas o crime não foi premeditado.
Imagina se eu teria elaborado “Ah, COPO desgraçado, eu vou te matar hoje à noite e amanhã eu mesma terei que limpar seus cacos.” E saído para tomar um porre. Não, eu não tinha planejado nada.
Toda a vez que bebia água no COPO matava a sede de detestá-lo. Repetia pra mim que seria a última vez que encostaria naquele vidro barato, que de tão vagabundo tinha bolhas na superfície. Era feioso, com a boca estreita, nunca se deu bem com a máquina de lavar e carregava um passado turvo. Veio da casa de solteiro do meu ex-marido. A nossa separação se encarregou do divórcio de muitos objetos, minha falta de jeito de outros, mas o COPO resistia. Sabia que a separação era destino, só não imaginava hoje a sua partida. Isso me deu mais raiva.
Por que coube a ele e não a mim escolher o momento de ir?
Peguei a maior parte do vidro, estava preso entre os dentes de alumínio. Coloquei junto aos dois pedaços menores na bancada da cozinha, perto da janela, com as partes afiadas primeiro pra baixo. Depois pra cima. Só o do caco grande pra baixo. Não. Todos ficariam de barriga de barriga pra cima. Como cães implorando por carinho, balançando suas patas afiadas, a espera dedinhos bobos.
Abri a torneira, enfiei a minha boca embaixo dela.
Bebi uns quarenta segundos e meio litro de água gelada.
Já tinha se passado pra lá de quatro meses que o Francisco saiu de casa.
Quatro meses escutando dos meus pais, dos livros de autoajuda e caixas de supermercado variações de “o tempo cura tudo” com “o tempo vai organizando as coisas”.
Não sabia mais quanto tempo cabia dentro de mim.
O tempo do passado inconveniente como o defunto de vidro em cova aberta.
Uma linha no calendário se completou. Fui cutucada pra seguinte.
No tempo da guarda compartilhada, hoje era dia da Anna voltar.
O que tornava dia também de comprar legumes e frutas frescos. E bife descongelado.
Não tinha mais tempo pra tirar freezer. A criança sempre voltava faminta.
A funcionária do mercado colocou um exemplar de ofertas protegendo o fundo da sacola de papel da umidade da carne. Guardei as compras, separei o encarte de papel jornal. Peguei pela barriga cada um dos três pedaços do que um dia foram o COPO.
Embalei cada um deles com atenção, depois com a folha dupla da capa do encarte os coloquei juntos, vestidos de promoção de dia dos namorados. Na frente, uma etiqueta grande: cuidado.
“Até que a reciclagem os separe”.
Sentenciei fechando a lixeira do condomínio.
Partida II
Todos na casa ainda dormiam, quando o beijo entre chave e fechadura anunciava a volta de Chico da corrida. O som vindo do encontro do tênis encharcado contra o chão costumava ser proporcional ao desejo: se coaxasse alto como um sapo era prenúncio de gozo. O meu e o dele.
Seus dedos firmes disfarçavam as mãos suadas ao me agarrarem de jeito, evitando que eu escorregasse. A água da garrafa me invadia como cachoeira em dia de verão, o bafo quente e ofegante me envolvia com vontade na nossa troca de fluidos. O roçar da barba e o tamanho da sede faziam com que me sentisse muito vivo.
Além dessas manhãs memoráveis, vivi também noites intensas. A do primeiro porre foi inesquecível. Eu era virgem, não sabia nada. Só tinha conhecido aquela fábrica de fundo de quintal e a loja de R$1,99 onde fui parar com mais umas 30 dúzias. Até que meu momento chegou. Foi uma sexta-feira à noite, as portas da loja quase se fechando quando um jovem do mercado financeiro me levou. Na verdade, nos levou. Éramos meia dúzia.
Chegamos embalados para presente.
_”Fala, meu brother, trouxe aqui um reforço aí pra casa nova”
_”Opa, valeu irmão.” Copos, sempre bom, né? Ainda mais porque vivo quebrando”.
Como assim…quebrando? Quase tremi de medo. Eu queria cair no mundo, mas não despencar dele. Meu pânico foi deliciosamente congelado pela cerveja, depois anestesiado pela ardência da pinga e virou fogo com limão e cachaça. Sabores, línguas, salivas, respirações, pegadas, suores, nicotina, batom, bocas, boca. Uma em particular me marcou. Naquela noite de muitas estreias, dormi largado numa caixa instável que fazia bico de mesa lateral. Acordei sob a mira de um raio de sol que penetrou entre as frestas do papel pardo colado na janela. Exausto, porém excitado. Tinha esperanças de encontrar novamente aquela boca.
Minha paixão ao primeiro gole foi o do dono da casa. Francisco, que com a intimidade virou Chico. Eu tinha certeza de que me tornado o seu favorito. Aquelas minhas bolhinhas no vidro eram um charme, lembraram as covinhas dele ao sorrir. Eu retribuia estando sempre a postos na linha de frente. E o destino gargalhou pra mim com anos deliciosos. Nos mudamos de São Paulo para o Rio de Janeiro. Primeiro Barra da Tijuca e depois para o requinte do Leblon. O que parecia o ápice foi início do fim.
Quando pisei pela primeira vez no apartamento do bairro chique senti que não tinha entrado pela porta da frente. Depois de enrolar por anos a namorada, ele se mudou para a casa dela. Juntaram os trapinhos. Gabriela deu um xeque mate e o pediu em casamento. Dali em diante era uma caixa nova de presente por dia: taça de vinho branco, de vinho tinto, de rosé, copos de uísque, licor, copos de bico de jaca. Estes me irritavam até transbordar. Datados que só, com ares barroco, se promoviam como versáteis. Certamente entrou na lista como escolha daquela cafona. O importante é que mesmo com o armário de louças lotados, seguíamos juntos. Chico era fiel as suas preferências.
Aos poucos, passei a sentir um clima árido no ar. Uma casa sem suor de sexo, saliva de beijo, sem latinha de cerveja transpirando. Gabriela ainda teve a desfaçatez de dizer “que sem aviso prévio” ele partiu, de mala e cuia. Sonsa.
Sem poder fazer nada, o escutei dizer ao telefone que levaria o mínimo possível. Eu não constava na lista. Meu inconformismo não conseguia evitar que aquelas mãos largas dessem lugar aos dedos magrelos da Gabriela. Ela, que havia ficado com a missão de me enforcar a cada gole. Subitamente, parecia que eu tinha deixado de ser o preterido para ser o preferido dela. Antes fosse isso, uma predileção, a verdade é que me tornei um manifesto vivo da separação: eu espelho dele. Gabriela me detestava, mas alimentava uma relação doentia na qual era forçado a beijá-la todos os dias. Fui humilhado. Passei a ir diariamente para a máquina e com frequência era submetido a passar noites de cabeça para baixo entre os longos dentes de alumínio da lava louças.
Naquele último dia antes da chegada oficial do verão decidi que bastava. Em um golpe planejado me quebrei em três: a partir de um defunto de vidro nasciam as mais afiadas lanças. Lapidadas meticulosamente pelo ódio.
