Agora vai

por Américo Paim

Bezinho ouviu o relato, cuspiu o quase engasgo e mirou abestado o amigo. Seus olhos azuis se moviam em agonia e as mãos magras se apertavam. Coçou o sinal peludo do queixo protuberante e mexeu no cabelo castanho escorrido várias vezes. Sabugo ria nervoso, os dentes amarelos e pequenos como grãos de milho. Isso realçava suas bochechas vermelhas e lhe apertava os olhos grandes. Bateu no banco de pedra da praça com seus anéis dos dedos gordos e o amigo despertou do transe.

  

– Repita aê, Sabugo.

– Home, é ele mermo, é Jeguinho.

– Véi, isso é um saco de açúcar!

– Peraê. Eu explico, Bezinho. Tá tudo escrito aqui, óia!

– “Feijão do Ribombo”. É só um guardanapo com uns rabiscos, ué.

– É o lugar onde nós tava quando ele botou tudo no papel.

– Onde é?

– Lá perto da Canela dos Perdidos, num sabe?

– Sei não, mas siga.

– Nós tava tumano uma e, do nada, repare bem, ele se aperreou e danou a falar umas coisa.

– E foi? O quê?

– Que sabia que ia passar dessa, num sabe? E disse que ia pra casa esperar a danada.

– Eu, hein? Que culhuda é essa?

– Eu lhe juro! Acredite: ele morreu lá, fio! E eu encontrei o defunto.

– Deus é mais. Fez o quê?

– Ele era só, tu sabe. Ajeitei tudo e levei pra torrar.

– É cremar, Sabugo!

– Dá no mermo, é não?

– E tu arrumou dinheiro em que buraco, desgraça?

– Tu sabia também? Tinha um buraco numas tauba falsa na cabana, perto do galinheiro. Ele escreveu.

– Tu mente viu, véi!

– Tô lhe dizendo! Nera muito não, mas deu pra pagar a fogueira de boa.

– Cremação, Sabugo…

– Isso. Aí, no outro dia eu busquei o vaso com ele dentro.

– A urna.

– Nera eleição não, Bezinho. Larga de ignorança.

– Tu é burro que dói, Sabugo.

– Repare, home. Eu trouxe a caixa pra casa, prumode de fazer o que o pobre pediu.

– Me chamou aqui pra isso? Vim de longe pensando que era coisa séria com você.

– Oxe, oxe, isso é sério! Era meu amigo de fé.

– Aquele estrume? Só se for de cachaça… E cadê a urna?

– Apois, aconteceu um imprevisto. Foi Seriguela.

– Sua cadela maluca?

– Fale assim não. É boazinha. Só tá desajeitada feitaporra.

– O que foi?

– Eu deixei Jeguinho em cima da mesa da cozinha e fui atender uma ligação.

– E daí?

– Era Seo Rufino, me cobrando a conta do bar. O véi tava puto dendascalça, precisava de ouvir.

– Sim, Sabugo, e a urna?

– Seriguela correu atrás de uma rata que era gorda feito cachorro, eu juro.

– Bora, rapá.

– Foi só o pipoco de caco pra todo lado.

– Homem, tu quebrou a urna?

– Eu não, Seriguela. Mas eu varri tudo. Só que uma parte ela lambeu, num vô lhe mentir.

– Eca!

– Aí levei pra despensa. Lá tem saquinho que a patroa sempre usa. Tem comida, material de limpeza.

– Tudo junto?

– E não? Derramei Jeguinho num saco, amarrei a boca e arrumei com os outros. Ficou foi bonito!

– Que jeito de falar.

– Oxe? Aí Seo Rufino me ligou de novo. É que eu tinha desligado na cara do home na hora do barulho.

– Sim, isso não interessa.

– Tô contando, num me apressa. Voltei e peguei o saco. É esse aqui.

– Que nojo!

Sabugo não ligou para os comentários de Bezinho. Saíram dali direto até o Feijão do Ribombo, onde as instruções diziam que parte das cinzas deveria ser colocada no pé da mesa do canto, dentro de um copo, misturada com cerveja. Era o local onde Jeguinho sempre ficava. O dono do bar era um sujeito moreno e redondo, mas cheio de canto vivo por causa de um temperamento difícil.

– Nem fodendo.

– Ô, Seo Ribombo, liberaê.

– Tá pensando o quê, vagabundo? Meu estabelecimento é de respeito.

– Mas é Jeguinho.

– Aí acabou de lascar! Meu bar com alma penada? E desse quilo aí?

– Oxe, quem vai saber disso?

– Sabugo, tu é bebo sem-vergonha. Vai abrir o bico na primeira cana.

– Ô, Bezinho, fale aí pra ele. É uma desfeita com o serumano em pó.

– O senhor não podia reconsiderar? E se esconder o copo embaixo do taboado?

– Quebrar meu piso? Tu bateu a cabeça?

– É um favor pra um cliente antigo, fiel – insistiu Bezinho.

– Aquele caloteiro da porra? Morreu me devendo!

– Olhe, Seo Ribombo, pode tratar os falecido assim não…

– Vá se lascar, Sabugo.

– Quanto o infeliz devia ao senhor?

– Deixe ver aqui… R$463,00. Sem cobrar juro.

– Se Sabugo pagar, o senhor deixa jogar as cinzas?

– Ô, Bezinho, pera, véi. Assim tu me quebra, na moral.

– Sabugo, tô querendo resolver.

– Oxe, oxe, oxe… num tenho onde cair morto… Vixe, desculpa aí, Jeguinho.

– Então vaza daqui, encostado.

– Ruindade da porra! – disse Sabugo, indo embora.

A próxima parada foi na porta de Dalva. Chegaram devagar, conforme Sabugo orientou. Casa amarela simples com dois pavimentos, porta e janela embaixo e um janelão no andar superior. Terra batida arrodeando tudo e uma mangueira bonita do lado direito. Pararam na sombra oportuna.

– Bezinho, tu fale baixo, viu? Dalvinha num pode saber. É surpresa.

– Me deixe, Sabugo.

– Tá aqui no papel: “colocar as cinzas no pé da mangueira”.

– Dois lesados, tu e ele.

– Né não. Ele veio aqui todo dia duas semanas, direto. E eu com ele.

– Fazer?

– Serenata. Deu certo não, num sabe?

– A voz de Jeguinho servia nem pra chamar boi – completou Bezinho.

– É que ela é uma pessoa nervosa, essa moça.

– De que jeito?

– Pssss… óia o barulho!

– A janela é pro outro lado. Por que colocar Jeguinho aqui?

– É pra onde nós corria da ruma de coisa que ela jogava.

– Vixe.

– Era prato, livro, manga, bacio… Até uma Nossa Senhora das Virgens de barro. Pecado!

– Ói, Sabugo, me bata um abacate, viu?

– Calma, Bezinho. Vou colocar. Pera, devagar. Pronto.

– Que formato de coração é esse, Sabugo?

– Tu tá falando alto! Aí, tá vendo? A janela tá abrindo! Fodeu minha porra…

– É você de novo?

– Dalvinha, minha santa, tudo bem? Tá linda assim de bob…

– Veio fazer o quê, misera?

– É que Jeguinho morreu e…

– Aleluia, já foi tarde!

– Peraê, fala assim não, ele amava tu…

– Amava carcá o dente na cachaça. Quéquetuqué, infeliz?

– Se aperreie não, minha flor. É que ele foi torrado…

– Cremado, Sabugo.

– Para, Bezinho, que saco! Viu, Dalvinha, ele pediu pra jogar um tantinho dele aqui.

– É o quê, seu sem-vergonha?

– Caridade, minha linda.

– Peraê que vou resolver seu problema.

Ela sumiu da janela. Bezinho não gostou e sugeriu que saíssem logo dali. Ainda discutiam quando ela reapareceu, com um revólver. Disparou três tiros enquanto eles corriam. Ninguém se machucou, mas uma bala atravessou o saco e o conteúdo vazou durante alguns metros até Sabugo notar.

– Vixe, matou Jeguinho de novo! Tá todo esparramado.

– Esse cocô mole? A gente quase morreu, Sabugo!

– Que nada, ela já fez isso antes.

– E tu não me conta?

– Pra tu desistir? Bora. Só falta um lugar. Nunca lhe pedi nada.

– Filho da puta. Já fiz foi merda pra lhe salvar.

– Passou, passou.

Seguiram para o pequeno estádio de Pedra Velha, onde o Canelito Futebol Clube mandava seus jogos pelo campeonato intermunicipal. O finado era louco pelo time e pediu que o restante das cinzas ficasse atrás da trave onde ele tinha feito o único gol da vida dele, comemorando seu aniversário com um baba entre amigos. Naquela sexta-feira à tarde não havia jogo. Sabugo contava com sua amizade com Viriato, o zelador do local. Chegaram e ele lá estava, cigarro no canto da boca, barba rala, boné virado para trás e uma camisa do Flamengo que ele sempre contava que seu pai conseguiu com Zico.

– Virinho, minha pedra!

– Se saia, papá. Lhe dei ozadia? – falou o vigia, atrás do portão.

– É assim que tu fala? Vim porque tenho precisão.

– Tenho dinheiro não, peste.

– Oxe, num vim pedir nada que tu num possa resolver.

– Fala, pinaúna da desgraça.

– Jeguinho, nosso saudoso amigo, bateu as botas, sabia?

– E quico?

– Peraê… Ele foi tostado e…

– Cremado, Sabugo.

– Me deixe, fio de cabrunco! Virinho, só quero colocar as cinzas atrás do gol da leitoa, num sabe?

– Rapaz, isso é complicado…

– Oxe, tu libera e num leva cinco minutos.

– Vou falar com o gerente. Espera aqui.

– Acha que vai deixar, Sabugo? – Bezinho falou sem fé.

– Tem que dar certo. Tá ficando trabalhoso demais.

– Tu queria o que com Jeguinho, aquela bosta enrolada?

– Ói, lá vem o home. Ih, meu jesus cristinho, né possível… Deu ruim, vamo chegar.

– Por quê?

– Acuma que esse home trabalha aqui, meu pai…

– Sabugo, veio me pagar de uma vez?

– Oi, Seo Miranda, que prazer!

– Tá tirando onda comigo, safado?

– Que é isso, tô aqui pela amizade. Virinho explicou não?

– Já. A resposta é não!

– Faça uma gentileza aê, papá.

– O certo era lhe quebrar todo, seu moleque. Me deve faz oito meses!

– Calma, vamo resolver, tudo se conversa.

– Pague meu dinheiro, seu ladrão!

– Peraê, olha a agrestia!

– Vou lhe mostrar o que eu faço com esse saco…

Ele abriu a grade de ferro e partiu para cima. Viriato e Bezinho tentaram segurar, só que os brigões agarraram o saco. Puxa daqui e estica de lá, rasgou, derramando tudo sobre Sabugo, que caiu no chão todo breado. Os três olharam para ele e sua expressão de desespero.

– Bezinho do céu, agora é que deu!

– Que foi, home?

– Jeguinho tá doce!

– Pirou de vez?

– Prove, prove.

– Eita, isso é açúcar!

– Que hora é essa, pelamordedeus?

– Quase cinco, Sabugo.

– Lenhou tudo. A patroa já fez os bolo e tá na rua vendendo, home!

– Tu trocou os sacos? Mas ela não experimenta antes?

– Porra niúma, já tá acostumada. Misturou foi tudo no pote grande!

– E agora?

– Coitado… Vão comer Jeguinho pela cidade! E num é que tu tava certo?

– Como assim?

– Ele agora vira bosta mermo!

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