Onde houver ódio, que eu leve o amor

Não tinha margem de erro, sabe? E paguei seguro funeral nacional esse tempo todinho pra quê? Sim, fiz elas lerem a carta no hospital, na minha frente, linha por linha, cheguei até a perguntar se tinham dúvida. “Bora mudar de assunto, mama, tu vai sair dessa”. Odeio “sair dessa”, pra mim é igual a “descansar”, só que ao contrário. Sempre ensinei a essas meninas, pensem na palavra, escolham a palavra exata, não tenham medo da palavra. A carta? Detalhadíssima. Escrevi, cortei repetição, apertei a verificação ortográfica, conjugaçãoverbal.com.br numa aba e dicionário de sinônimos na outra, pra galera falhar no básico. “Eu quero ser cremada em Recife”. Tava lá na primeira linha. Agora crema em São Paulo e me traz pra cá só o pó. Fiz uma metáfora boa até do calor de Pernambuco, coisa e tal, e tô nesse gelo de bagageiro de avião porque uma achou que era jeito de dizer e a outra que era uma piadinha. Vê mesmo se tô com cara de piadista. Eu por mim, me espalhassem logo no Tietê que não tenho nada pra fazer em Boa Viagem nesse estado. Tenho horror a Boa Viagem, era só pra velar e cremar em Recife, perto dos parentes. Depois jogasse da janela do Uber, no meio da rua, pra não ter nem trabalho de sujar o pé de areia.

Tava tudo lá. “Botem uma musiquinha de fundo no velório, não precisa ser Bethânia”. Já no medo delas sapecarem “Sangrando” e o povo lembrar das hemorragias do final. Aí foram de que? Oração de São Francisco. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Não ria não vá. E a roupa? “Veste uma camisa, a parte de baixo não precisa nem se preocupar, cobrem de flor, não dá pra ver nada”. Pronto, meia hora a escolher o sapato. E acharam que com esse sapato era melhor vestido e meia-calça. Vê, meia-calça. Chega lá me queimam na dr Martens que podia ter ficado de herança pra uma das duas, pelo amor de Deus. Nem cheguei a ver se me puseram brinco e relógio que a essa altura já tô acreditando em qualquer coisa.

Contigo não, né? Contigo foi tudo certo. Por que será? Tinha eu tentando pescar o que tu disse num dia, 20 anos atrás, sobre o futuro velório. Tá lá enterrado, todo bonito, perto da tua gente. Tu nem pra pagar um seguro funeral, parcelei tuas despesas em vezes, sabia? A gente separado há milênios já. Tá aí, eu podia ter morrido antes. Carga mental até pra se acabar. Minha nossa senhora. Igualzinho a data de presente. Dia dos pais, as meninas tudo grande e eu “lembra que o papai sempre gostou de perfume de figo e que gostou dessa loja nova de sabonete? Liga pra lá pra ver se tem. Ah, não tem? Será que dá pra mandar fazer?, Mamãe manda encomendar”.

Sim, e tás aqui comigo por que, hein? Como é? Me queimaram de aliança? Puta que pariu. Eu não tinha mandado elas derreterem a aliança? Guardaram foi? Com a minha e com a de mainha? Que presepada foi essa?

Ô mainha, tá aí? Não, Boa Viagem é massa. Eu sei que tu também tá lá, não fui eu que te joguei, mulher. Foi, joguei painho também, não era pra jogar não? Foi muito perto, foi? Ô, rapaz, desculpe. É que ele não deixou nada dito, eu fui meio na adivinhação, sabe? Onde houver discórdia, que eu leve a união. Não, eu também gosto da oração de São Francisco, não isso não. É que eu queria um Caetaninho. Mas foi bonito. E tô lá fazendo chacota de religião nenhuma, mainha. Depois, tô no céu agora, não tô? Deu certo, olha aí. Não, se aperreie não. É que a gente não tá no avião? Aí eu pensei, céu, avião, sei lá, uma piadinha de nada. Pronto, parei, parei. Mas e aí, quanto tempo, como estás? Tá apertada? Chegue pra cá.

Ai, é painho? Tá aí, meu querido? Sei, pegou carona na aliança de mainha. Eita, que galera. Fala pai. Gostou não de Boa viagem, foi? Ah, queria ser enterrado. Ô, rapaz. É que não tinha mais espaço no jazigo, sabe? Esse? É meu ex-marido, pai das meninas, lembra? Tinha, tinha me livrado dele já, faz um tempão, é que ele veio, bem fantasminha camarada, na minha aliança . Foi, as meninas me largaram cheia de aliança. Pare, pai. Não ria não, vá.

O velório? Conto, conto demais, mas vocês são fofoqueiros, né? Olhe, não é porque eu tô na minha ausência não, mas o meu fez mais sucesso do que o de vocês tudinho, juro por deus. Ô, mainha, desculpe, juro não. Pois então, multidãozinha lá a olhar na minha cara inchada. Isso porque eu tinha mandado as meninas fecharem o caixão, mas fecharam nada, encomendaram até uma risadinha pra mim, meio no canto da minha boca, sabe? Coisa esquisita, a morta era a única que ria. Assim, dos que ficaram pertinho ali. Os do fundão, tavam numa barulheira, parecia uma festa, um monte de desconhecido, devem ser os amigos das meninas, achei ruim não. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Mas foi cada bagaceira escrita nas coroas. O povo parece que fica nervoso. Eu disse na carta, “Manda fazer pix do valor das coroas. Diz que eu pedi pra vocês doarem pra alguma instituição, depois vocês dividem”, que coroa é cafona demais, né? Mas parece que elas não tiveram coragem não. Vocês lembram de Danielle Brito de Garanhuns? Pois então, foi. Tá tão caquética, botocada que só vendo. As meninas nem conheceram. Ficou lá segurando minha mão. Falsa. Tua viúva foi também, visse? Não pai, a tua não. A tua já morreu. A do outro aí. E digo mais, a-com-pa-nha-dís-si-ma. Um bebê o marido dela, gracinha de pessoa. As meninas? As meninas gostaram dele também. Ah, cadê as meninas? Oxe, desceram, foi? Esqueceram todo mundo no avião? Meu Jesus, não vou passar eternidade com vocês de jeito nenhum. Pare, minha gente, não riam não, vá.

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