Ossos do Ofício (de Carol Schettini)
Há quatro anos ela espera por hoje. São dias e dias. O tempo corre mais rápido para ela do que para mim. Ela é velha. Não pensei que ela estivesse tão ansiosa a ponto de me acordar antes das sete da manhã.
— Oi, tia. Disse que vou com a senhora.
Não são nem nove e estou chegando na porta do cemitério. Ossos do ofício. Na administração. Uma placa avisa só abre às dez.
— Tem hora pra morrer? Tem?
— Não tem né, tia. Vamos tomar um café.
Tia Ana casou quando já havia passado dos enta. Não teve filhos, só agrada uns sobrinhos exploradores. Faço por ela em consideração à minha mãe. Dá vontade de falar: por que não chama a Raquel para vir aqui com a senhora? Não falo. Tia Ana casou com Tio Martinho e foram felizes por décadas. Até ele morrer e ser enterrado neste cemitério. Ela ficou bem. Tem um apartamento de frente para a praia onde mora com a sobrinha encosto. Eu moro longe do mar. Num subúrbio. De metrô, chego na casa dela em menos de uma vida. Uns dois anos depois que tio Martinho faleceu, foi a vez da sua irmã, também minha tia, Tia Cotinha morrer. Tia Cotinha morreu de repente como se de repente existisse para alguém com mais de noventa anos de idade. No afã do enterro e no corte dos gastos, enterraram Tia Cotinha na mesma gaveta do Tio Martinho. Agora me deu um nervoso. Como enterrar alguém numa gaveta? Como meias velhas apertadas junto a meias novas lotando um espaço dois por dois palmos? Enfim, nem tínhamos pisado na terra limpa, nem tínhamos trocado a roupa, lavado o sapato, tomado banho, Tia Ana comenta:
— Isto não foi certo.
— Isto o quê tia?
— Um homem casado com uma mulher solteira.
— Quem tia?
— Martinho com Cotinha, ora.
Começou a chover. Ela pegou um táxi e foi embora com a cara fechada. Sem lágrimas. A raiva dentro dela entupiu as glândulas lacrimais. Tia Ana nem esperou a missa de sétimo dia para tomar uma decisão:
— Tati, a gente tem que tirar a Cotinha de lá.
— Tia, não inventa. Enterrou, tia. Fim. Não dá pra rebobinar.
— Se vira.
Ou eu me virava ou ela me enlouquecia. Pois bem. Descobri que poderia exumar os ossos e levar para outro lugar se cumprisse um monte de requerimentos do cemitério. Fizemos (juntas) toda a papelada, pagamos todas as taxas, os impostos e as caixinhas e pronto. Era só esperar o tempo. Quatro anos. Nem lembrava mais. Tia Ana marcava na folhinha.
— Trouxe a bolsa que te pedi?
Entrego a ela uma bolsa de couro marrom antiga. Falei que seria melhor uma malinha de mão. Tia Ana não aceitou. E se o osso for grande?, argumentei. Não é. Ela era baixinha. Velho encolhe, encolhe e vira carretel. Fiquei esperando na sala da administração. Tia Ana serelepe nos seus setenta anos seguiu com o coveiro ou com quem de direito e voltou aparecendo os dentes com a sacola em mão. Sorria. Não um sorriso humilde, faltava dar uma gargalhada.
— Podemos ir.
Ela disse decidida e saiu andando com a bolsa pendurada no braço, comigo correndo atrás. Na rodoviária, o ônibus só sairia dali a duas horas. Como Tia Ana se recusou a ir pra casa, a convenci a colocar a sacola no guarda-volumes para almoçarmos em paz. Não dá para comer preocupada se um trombadinha vai roubar a bagagem ou um vira-latas sentir o cheiro de osso. Cão não rejeita osso.
Almoçamos e eu paguei. Claro. Tia Ana é daquelas. Você trabalha, portanto, tem dinheiro, portanto, pode pagar a conta pra você. E pra mim. E já que estou resmungando, ela tem um péssimo hábito. Não dá presentes. Diz que a pessoa não precisa. Casamento? Eles vão ganhar muitos presentes. Como assim, tia? Vão ganhar tudo. Não precisa. Precisa sim, tia. Dá um abridor de lata. Ninguém dá. Ela nunca dá presentes.
Na hora de resgatar a encomenda no armário, um probleminha. Tia Ana não se lembrava do código do cadeado.
— Seu aniversário tia?
— Três do doze cinquenta e três.
— Não.
— Tenta da Cotinha. Um do dez trinta e quatro.
— Ih, não é.
— Só pode ser o da Cotinha.
— Quantos anos ela tinha quando morreu? Não deve ser 34!
— Não?
— Deve ser trinta. Viu? Deu.
— Nunca fui boa de matemática.
Abraçou a bolsa e fomos pro ônibus. Tia Cotinha foi acomodada entre mim e tia Ana. Tadinha viajar no bagageiro, podia ter falta de ar. Três longas horas com uma bolsa cheia de ossos encostada no meu quadril. Tia Ana vai ao banheiro do ônibus e volta cheia de assuntos.
— Tem um homem na poltrona 15 com cara de quem vai morrer a qualquer segundo.
— Espero que não, tia. Já basta um morto sem carne.
— Sabia que se ele morrer, todo mundo tem que esperar tirar o corpo pra sair do ônibus?
— Não sabia.
— Foi a Raquel quem me disse. Num dia, coitadinha, ela demorou tanto pra chegar.
Aposto que é lorota pura. Rachel é uma mentirosinha de quinta categoria. Pode ser verdade precisar esperar o morto sair primeiro, por questão de educação. Igual casamento. Se chover e a noiva ficar no altar, todo mundo tem que aguentar o aguaceiro. Os atrasos e sumiços de Raquel são velhos conhecidos. Uma vez disse estar num retiro sem celular e encontrei a bonita num baile funk no meio da quebrada. Tia Ana quer papo:
— A Raquel me lembra muito Cotinha na juventude.
— É? A tia Cotinha era cheia dos truques?
— Menina, ela dava em cima de tudo que é homem.
— Mesmo?
Não imagino a tia, uma velhinha aguada, dando em cima de ninguém Deve ser ciúmes da tia Ana. Uma ciumenta flecha preta.
— Eu ia namorar um ator da Globo e ela atrapalhou.
— Qual?
— Um galã de novela.
— Antonio Fagundes?
— Não me lembro. Sei que não chegamos nem nos comerciais porque a Cotinha laçou o homem primeiro.
— Imagino.
— Era danada.
O ônibus faz uma curva, fazendo os ossos baterem dentro da bolsa como se reclamassem da fofoca da tia. Logo vi. Não há carne sem osso, nem madeira sem nó.
— Agora entendo a preocupação da senhora em tirar ela de perto do tio Martinho.
— Já viu, né? Em viva, em morta.
Tia Ana com ciúmes dos ossos da morta. Pior que pegamos o ônibus parador. Capaz de chegar tarde e o cemitério fechar. Espero que ela não pense em arrombar túmulos para ela se livrar do corpo da irmã namoradeira.
— Tia, se ficar tarde, a gente deixa pra amanhã. Podemos dormir num hotel.
— Tá tudo no esquema.
— Olha a hora.
— O Afonsinho é prefeito. Tá esperando a gente. E depois é só empurrar a lápide, jogar a sacola dentro e pronto. Depois, alguém fecha.
— A senhora vai deixar minha sacola lá?
— Claro! Igual vi num filme. A mulher matou e queimou a amante do marido e ele colocou os ossos na sacola e jogou no mar.
— Com a sacola e tudo?
— Não mostrou essa parte. Foi um filme incrível.
— Incrível é o tipo de filme que a senhora anda assistindo.
E no frigir dos ossos, chegamos. Garoava. Chuva não quebra ossos. Tia Ana fala mal do meu cabelo. Bem que eu podia ter feito uma escova para uma ocasião solene. Peço desculpas por não ter usado meu melhor vestido. Fico esperando por ela do lado de fora do cemitério. Não me importa se vai demorar horas ou dias ou uma eternidade lá dentro. Na verdade, ela volta em poucos minutos. Ela é boa no desapego. Vem de braços dados com o prefeito. Com uma cara de sofrimento como se acabasse de enterrar uma irmã (de novo). Sem dentes aparecendo, uma boca murcha, um maracujá seco. Ela discursa:
— Tati, um alívio pousar minha irmã ao lado dos nossos pais. Tão querida. Estou abalada. Um abalo pior que o pior terremoto do último grau da escala Richter.
Podia ganhar um troféu de melhor atriz. Perdeu o ator da Globo, mas ganhou toda a majestade. Decidiu que deveríamos dormir na cidade. Se não dormem os olhos, folgam os ossos. Tinha Ana combinou um jantar na casa do Prefeito, onde bebeu vinho e conhaque e licor. E terminou a noite com uma frase típica:
— Tati, acredita que Afonsinho acabou de se separar e está solteiro?
Para quem acabara de enterrar uma irmã morta, Tia Ana me saiu uma boa casamenteira.
