Coincidências existem?

Ricardo Terto é um jovem escritor da periferia de SP, autor dos livros de crônicas Marmitas Frias Os Dias Antes de Nenhum, escritos no bloco de notas do smartphone, além de Quem É Essa Gente Toda Aqui? (Todavia), sobre a pandemia. Publiquei-o também na edição 4 da revista Morel – a primeira parte do conto afrofuturista “Coisas que viram fumaça” está aqui. Retirei a crônica a seguir de sua newsletter, Praticamente Interessante, que pode ser assinada aqui.
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Um peixe no peito

Uma coisa que eu fazia muito lá na coisa de doze anos de idade era bater perna no bairro. Não tinha muito destino definido, entra aqui, sobe ali, retorna de lá. Ruas pintadas em cores desbotadas para uma Copa do Mundo agora distante. Cadarços em fios elétricos que sobreviveram a invernos e primaveras. Um muro que deixaram ali na frente de uma casa que nem existe mais. Crescer na periferia foi ter outra relação com o tempo. Vez em quando um novo comércio abria e eu ficava encasquetado de não lembrar o que tinha ali antes. Um fliperama? Uma granja?

O tempo era visto na transformação, um fusca que afunda uma garagem é cicatriz de meses ou anos. Vote vereador Fulano Detal no poste por gerações, matinho espichando pra fora dos cacos nos muros. O que mais me interessava era o contorno que essas linhas todas produziam na paisagem.Ao longo da minha vida, eu fui percebendo o quanto era importante para mim a contemplação.

Se sentar em um lugar e observar as coisas. Sem necessariamente absorver alguma opinião, alguma reflexão direta delas. Simplesmente observar e deixar. Contemplar significa deixar que as coisas apresentem suas próprias histórias. Foi assim que eu me tornei cronista.Eu era uma criança que aprendia rápido e podia ficar no pátio da pré-escola antes da hora do recreio por terminar as lições mais cedo.

Sozinho eu conversava com as árvores com as folhas. Observava meus colegas de longe já que eu tinha vergonha de falar com eles de perto. Naquela época me alfabetizava em duas formas simultâneas, a da escrita e a do olhar.

Não sei se as cartilhas de hoje são assim, mas, naquela época, toda letra era apresentada como um desenho. A letra A da palavra casa era um telhado. A letra V da palavra uva era um cacho. Nunca parei de ver desenhos nas coisas.Eu tenho uma mancha no peito que parece um peixe. Esses dias eu reparei que essa mancha no meu peito realmente parece um peixe.

O nome disso é pareidolia.

Quando você vê um prédio que parece um rosto. Um borra de café que parece um cavalo.

O rosto da Dilma no joelho da Gracyanne Barbosa.

Semana passada eu estava na sala de casa e vi, juro que vi uma barata voadora.Foi verdadeiramente uma barata voadora passando por trás de mim até que virou uma pequena mariposa, uma meia preta que eu deixei jogada e um pouquinho da minha dignidade.Pareidolia. Também acontece com sons. O disco da Xuxa ao contrário, marquei um six, six, six, no seu coração.Eu passava por uma estação de metrô onde uma escada rolante em específico tinha um defeito que a fazia produzir uma batida que me lembrava muito a introdução de Blue Monday do New Order.

Tem a ver com a nossa capacidade de entender padrões (ou será de produzir?).

Rostos em Marte. O morro Dedo de Deus no Rio de Janeiro. A face da morte na imagem da Nasa do furação Matthew. O fantasma que flutua ao lado do armário que é a jaqueta no cabideiro. Na avenida Paulista tem um prédio que parece ralador de queijo enferrujado.Carl Sagan no livro O mundo assombrado por demônios diz que esse fenômeno acontece porque evolutivamente a gente passou a ter a necessidade de reconhecer rostos rapidamente. De reconhecer nossos pares e nossas expressões amigáveis ou intimidadoras.Cães foram domesticados conforme suas feições foram adquirindo traços que a gente reconhece em bebês, tipo aqueles olhinhos brilhantes. É por isso que alguns bichos nos enchem de ternura.

São esses olhos brilhantes que a Pixar ou a Dreamworks vão colocar no rosto de insetos ou carros quando eles querem que a gente se importe com suas histórias.Eu já esbarrei em interruptores surpresos, relógios de parede entediados, árvores irritadas e em um espaghetti desconfiado.Eu passei a pesquisar sobre isso porque tem a ver com o meu primeiro romance, que estou escrevendo.

Eu fiquei intrigado com isso porque é uma espécie de alucinação e ao mesmo tempo um exercício criativo passivo da mente, você não força pra ver o coelho na nuvem, você observa o céu e de repente ele está lá.Há quem diga que tudo tem a ver com a intenção que projetamos, com nosso escopo emocional e com o nosso repertório de vida. Quanto mais coisas encontramos, mais padrões são possíveis.Numa sociedade que está sendo soterrada pelo cinismo ao mesmo tempo em que a realidade está não só fragmentada, mas manobrada em câmaras de eco, encontrar um peixe no peito tem o seu fascínio. Ainda que seja perigoso, ainda que seja recomendável cautela ao ver demônios em plantações e deuses em torradas.

Ainda assim eu gosto que o nosso cérebro tenha a poesia de confundir e persistir nas buscas pelos rostos e contornos, pelas formas amigáveis e intimidadoras e pelos sons do mundo que nos cerca.

PROPOSTA

Bem, é isso o que você vai fazer: um texto baseado em coincidências recorrentes.

Você pode escrever uma crônica ou um conto.

Em qualquer caso, tem que trabalhar com imagens fora de lugar associações livres.

O texto de Terto dialoga com o conceito freudiano de unheimlich, ou seja, o estranho familiar.

Um objeto que é muito familiar, conhecido, íntimo até, aparece em um contexto surpreendente.

É o caso clássico da imagem de Jesus vista em uma torrada, por exemplo.

Mas uma imagem só não faz verão. Para que ela adquira status de sentido, precisa de uma narrativa.

E para que ela ganhe narrativa, precisa reaparecer em pelo menos mais uma vez.

Essas duas vezes precisam ser significativas.

Se quiser fazer uma crônica, pode refletir sobre tais coincidências, usando a forma ensaio como investigação. É aqui que entram as associações livres.

Se quiser fazer um conto – o que pode ser mais interessante mas mais difícil – , precisa mostrar as situações em que as imagens fora de lugar apareceram. No mínimo duas. Idealmente, três vezes.

O seu personagem, ou o seu narrador, podem buscar algum sentido por trás dessas coincidências.

Ao final da crônica ou do conto, a conclusão pode ser uma dessas duas:

  • não existem coincidências, elas significam alguma coisa específica;
  • era tudo só uma coincidência, e vida que segue.

Capriche nas imagens.

Em uns 8 mil toques.

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