Damon Duarte tem os dentes amarelos. Não é sua cor natural, nem a cor modificada pelos cigarros. Damon não fuma e cuida bem da dentição. Escova sempre depois das refeições ou mesmo entre elas, quando sente necessidade. Costuma levar um fio dental nos bolsos e conserva, junto com os enxaguantes, um estoque deles no armário do banheiro. Ali também guarda um limpador de metais para polir o amarelo do ouro.
Damon ama a sua aparência, seus dentes e, mais que tudo, ama o metal precioso. Aos dezesseis anos, quando recebeu seu primeiro pagamento como auxiliar de serviços gerais num mercadinho do bairro, buscou um dentista. Saiu do Sapopemba para a Rua Barão de Itapetininga no centro de São Paulo à procura de uma capa dourada para o canino direito. O valor da peça, no entanto, era muito superior aos duzentos reais que tinha separado. Insistiu com o dentista se não existia um material imitação. O que Damon buscava era parecer com os personagens dos desenhos ou dos quadrinhos, que ao sorrir exibiam o brilho do dente como uma espécie de superioridade e poder. O profissional desaconselhou usar metais impróprios na boca e ele saiu do consultório com a única alternativa brilhante disponível: uma pedra de zircônia colada.
Os colegas da escola e do mercado debocharam do efeito apagado da pedrinha e do mal uso do primeiro salário. Os pais, nem se fala. Ele teve que admitir que o dente não brilhava como nos sorrisos dos personagens e ainda incomodava ao encostar na gengiva do lábio superior. Damon se defendeu como pode das broncas, das brincadeiras e do incômodo. Se o canino enfeitado pudesse enviar um raio paralisador, teria usado o poder no primeiro deboche. Não tinha ,nem jamais teria. Damon extraiu a pedra depois de um mês.
O adolescente era popular e se defendia bem das brincadeiras. Ele guardou o rancor e a vontade dos dentes dourados para quando enriquecesse. O amor pelo ouro ia além do brilho nos dentes. Damon queria ficar rico, mais rico que o dono do mercadinho, que o pastor e os traficantes do bairro. Damon passou a economizar o que podia dos salários para comprar um computador usado, equipamentos e livros de como vencer na vida. Queria produzir vídeos. Não gastava em correntes grossas de ouro falsificado, em tatuagens e roupas da moda. Ele começou a criar programas contando sobre o seu desejo de enriquecer e o desejo de ter dentes de ouro como os personagens dos desenhos e os rappers que ouvia.
A proposta inicial de mostrar, em programas semanais, o resultado das práticas sugeridas pelos coaches da riqueza foi aos poucos substituída por depoimentos do seu absoluto fracasso. Nenhuma ideia de empreendedorismo se sustentava. Damon encontrava quase sempre um obstáculo burocrático ou material para realizar as receitas de sucesso. Foi assim com a produção de brigadeiros, de sapatinhos para pets e sabão caseiro com óleo de pastel. Ele então terminava os vídeos lamentando não poder realizar o sonho dos dentes de ouro. “ Tá difícil ficar rico”. O lamento final virou uma espécie de bordão e o público se sentiu atraído pelas histórias de fracasso. Damon foi ganhando seguidores.
O dia em que começou seu programa com os dentes revestidos por uma embalagem dourada de bombom, ele conseguiu mais de um milhão de visualizações e o patrocínio de uma rede de clínicas odontológicas especializada em estética. Fez um contrato em que ganhou uma a uma as 32 capinhas móveis de ouro. Cada uma custava 10 mil reais.
Damon ganhou os revestimentos e muito dinheiro. A cada programa, revestia um dente diferente, mudava os ângulos das câmeras e notou que conseguia mais audiência quando se esforçava para mostrar as capinhas no fundo da boca. Provocava cenas grotescas e ao mesmo tempo engraçadas que correram o mundo virtual até ser procurado por Jonas Justo, famoso empresário mais eficiente que os mentores de riqueza. Ele atendia todo tipo de influenciadores: de maquiagem, bem-estar, comportamento, livros e filmes.
O empresário trouxe novas propostas que agradaram a Damon. Ele gostou da ideia de não mais exibir seus dentes um a um, mas fazer uma série em que a cada edição ia acrescentar um novo dente ao de ouro anterior. A ideia era chegar aos 32 da dentição completa e então fazer um programa de 12 horas para exibir a boca totalmente dourada. Na mesa de entrevistas ouviria dos influenciadores fracassados suas experiências de insucesso. Ao longo das histórias, Damon exibia a boca de ouro em sorrisos planejados. O programa e o sorriso de dourado total foram tão bem recebidos que Damon não mais se imaginava ostentando um único dente brilhante como o dos personagens dos desenhos. Ele passou a exibir a boca de ouro todos os dias a qualquer hora.
Damon enriqueceu aos vinte anos de idade. O bordão “Tá difícil ficar rico” foi acrescido de um “mas tu consegue”. Damon agora acorda e dorme com todos os dentes de ouro e paga bem aos seus entrevistados. Não faz poesia como um rapper, mas se sente um herói dos desenhos quando sorri dourado pelas ruas. Semana passada, ele teve a ideia de doar uma de suas capinhas de ouro a um mendigo na calçada e pediu que filmassem. O homem, escolhido ao acaso, não tinha dentes , disse que não precisava da capinha e devolveu a peça. A cena viralizou nas redes.
