Pronto, falei de novo

por Américo Paim

Sábado no shopping, início da tarde. Estavam os dois a conversar, amigos desde a faculdade. Marcelo, moreno, cabelos bem curtos, óculos sem aro, com camisa verde de botão e anéis na mão direita, pediu um café. Candinho, forte, camisa de malha colada, cabelo penteado para trás e barba por fazer proposital, ainda terminava a sobremesa. O encontro foi um acaso e o almoço foi a melhor opção para esticar a conversa, que acabou em Eustáquio, amigo comum, sujeito bem discreto, sempre arrumado, mas fora de moda, magro e muito branco, um cara peculiar.

– Marcelão, na reunião anual ele tava como nunca, não foi?

– Ele é meio obcecado, só isso.

– E chato, vamo combinar.

– Gente boa, só tem umas manias. Desde a escola já acontecia direto.

– Eita! E como era com a mulherada?

– Oxe… Se a conversa nem rolava direito? Até com os professores! Precisava ver, véi.

– O bicho é pirado.

– Teve uma vez que o Supervisor Geral pegou pesado.

– Como foi isso?

– Ele tava descascando em cima de uns alunos esculhambados. Eustáquio tava lá de gaiato.

– E aí?

– Zé Taboada, escroto que só a porra, começou a pirraçar o Super e ele perdeu a cabeça, xingou.

– Ê lasqueira.

– Aí danou a falar bobagem.

– E nosso amigo não perdoou.

– Claro! Encheu tanto o saco que foi suspenso.

– Sério?

– Por deboche. Os pais foram à escola. Uma confusão. Aliás, em casa era a mesma coisa.

– Como assim?

– Pai, mãe e quem mais aparecesse pra levar um lero, ouvia era coisa.

– Que doideira. Como ele arrumou trabalho na vida?

– Ah, véi, empresa gosta de cara metódico, detalhista e implacável.

– É ele todo, Marcelão.

– Agora tá numa situação chata com a noiva.

– É o quê? Achei que não pegava nem gripe!

– Uma hora dá certo, né? Ela é gente boa, bonita, sabida, cheirosa, uma gata.

– Opa, também quero!

– Cê tá rindo, mas a coisa tá feia. Ele andou exagerando e a relação tá por um fio.

– A mulher deve ser uma santa. Quem aguenta dez minutos dele, na moral?

– Ele é bróder. Cara inteligente, ajudou todo mundo a vida toda.

– E como ele tá?

– Sabe cachorro que desce de caminhão de mudança?

– Barril. Cê vai encontrar com ele?

– Aqui mesmo. Deve tá estourando aí.

– Ele não tentou uma terapia, uma viagem com ela?

– Eustáquio na terapia? O terapeuta ia se internar…

– Que nada, véi. Esse povo resolve é treta.

– É, talvez ajudasse. Olha ele chegando na área…

– Fala, garoto, tudo na paz?

– Em paz, Candinho.

– Beleza. Bem, já tava na minha hora. Vou nessa.

– A gente se fala.

– Te ligo, Marcelão. Ah, independente de qualquer coisa, pode contar, já sabe. 

– Independentemente…

– É o quê, Eustáquio?

– Nada não.

– Então tá, um abraço, fui – e Candinho saiu.

– Você é impossível, véi…

– O que foi, Marcelão?

– Deixa quieto. E aí, alguma melhora?

– Rapaz, não. Ela não cedeu.

– Nem a ideia do jantarzinho?

– Você precisava ver. Deu chilique.

– É, tá foda. O que vai fazer?

– Aceitou conversar na varanda da casa da irmã dela.

– Mude, Eustáquio! Use o charme! Crie um ambiente propenso!

– Propício.

– Sim, isso. Pense fora da caixa, véi! Ao invés de ir pra casa da cunhada, vai pra um lugar discreto.

– Em vez de.

– Hein? Puta que pariu. Tu tá me ouvindo?

– Você.

– Não. É você que não tá me ouvindo!

– Foi o que eu falei: você.

– Venha cá, véi, como Diana lhe aguenta?

– Não mais. É por isso que estamos aqui.

– A princípio, o que você precisa é seduzir a mulher de novo.

– Em princípio.

– Rapaz, eu vou lhe dar uma broca.

– Não dá tempo. Tenho uma entrevista com um gerente naquele restaurante ali.

– Pediu demissão?

– Não. Me dispensaram.

– Cê num tava indo bem?

– Três anos na empresa. Aconteceu um pequeno desentendimento.

– Ah, tá… Largue o doce.

– Teve uma festa para receber o novo diretor.

– Tô ouvindo.

– Fomos apresentados e houve um momento em que ficamos conversando eu, ele e a mulher dele.

– E daí?

– Ela falava muito errado.

– Não me diga que você…

– Só umas palavrinhas.

– E ela ficou puta…

– Não, coitada. Nem percebia. Ele é que não gostou. Aí pediu minha cabeça, imagino.

– Porra, por causa de uma bobagem dessas?

– Ele também falava errado demais. Aí eu comentei…

– Véi, você é caso perdido…

– Tenho que ir. Depois a gente conversa mais.

Eustáquio foi até o restaurante. O momento era importante, a oportunidade de trabalho também, mas só conseguia pensar em Diana e em ficar bem com ela.

– Como vai, Eustáquio?

– Tudo bem, Dr. Tenório. E o senhor?

– Vou indo.

– Indo.

– Isso, foi o que eu disse.

– Sim, senhor.

– Vou lhe pedir desculpas…

– Lhe peço.

– Me pede o quê? Nem falei nada.

– Hã? Não, nada.

– Você falou “lhe peço”.

– Impressão.

– Poderia jurar.

– Acontece. O que ia me dizer?

– É que precisaremos ser rápidos. Minha agenda mudou. Tem um monte de coisa pra mim fazer.

– Eu.

– Você não, rapaz, eu.

– Foi o que eu disse.

– Bom, na medida que for lhe apresentando as informações, pode se manifestar.

– À medida.

– Eu falei isso.

– Não. Quer dizer, não é necessário.

– O quê?

– Interromper a sua fala.

– Ah. E sobre a questão salarial, peço descrição.

– Discrição.

– Ô, rapaz, é perca de audição? Eu, hein…

– Perda.

– Eu sabia! Procure um médico.

– Retome a palavra, por gentileza.

– Sua voz me lembra uma tia de minha mulher, que tinha uma fala assim meia cantada.

– Meio.

– Sim, deve ser mesmo influência do meio.

– O senhor ia dizer algo…

– Sim, é uma posição de grande relevância na empresa e eu preciso…

– O que foi, senhor?

– A mulher me sai com uma roupa desta? – disse Dr. Tenório, apontando uma passante.

– Dessa.

– Ah, você concorda, então! Um “tomara-que-caia” na eminência de cair.

– Iminência.

– Eustáquio, você tem problemas?

– Ao contrário, senhor: soluções.

– Sei não. Meio desconcentrado, repetindo o que eu falo…

– Não repeti nada.

– Talvez seja melhor continuarmos amanhã. Ao meu ver, você não está bem.

– A meu ver.

– Você também vê isso, então. Não fala coisa com coisa.

– Não, senhor.

– Repare, o tempo tá apertado. Vou reagendar. Minha secretária estará telefonando para o senhor.

– Telefonará.

– Meu rapaz, parece um papagaio. – Dr. Tibério saiu, com cara aborrecida.

Eustáquio ainda processava a cena e o celular, que estava no bolso, vibrou. Mensagem de Diana! Queria encontrá-lo de imediato, no mesmo local combinado. Ele achou um bom sinal. Como não teria mais tempo para uma alternativa e o principal era estar com ela, tomou o rumo da casa da cunhada.

– Chegou rápido, Eustáquio.

– Estava aqui perto. Não vai me chamar de Taquinho, Di?

– O clima num tá pra isso.

– Está impaciente, Di. Vamos conversar com calma.

– Com você? Não dura mais que cinco minutos e eu fico louca.

– Nem sempre foi assim.

– A paciência era outra. Já fazem dois anos que estamos nessa.

– Hummm… hã? Já?

– Nem isso você percebe? Quando a porrada vim, não se queixe…

– Hummm… hein? Não captei.

– Tá debochado demais, viu? Não dá pra conversar.  

– Que é isso? Estou bem melhor.

– O quê? Noventa por cento dos nossos papos é briga. Você tá é doente.

– São.

– Rá, não está nada são. Tá é bem pancada!

– Você não compreendeu. Eu quis…

– Pare! Não comece a doutrinar. Não dá mais.

– Todo relacionamento é uma troca, sabia?

– Sou eu que faço as perguntas aqui!

– Quem.

– Eu, euzinha. Tá surdo?

– Não, preste atenção, eu só tentei… Qual é a sua dúvida?

– Tá me zoando? Tá de sacanagem?

– Não! Repare, é só você prestar mais atenção. Nós podemos nos entender.

– Esqueça isso. Não quero mais. Acaba aqui!

– Você não queria conversar?

– Não estou acabando a conversa. É fim de papo do noivado, fio! Tá leso?

– Que estresse é esse, Di?

– Entre eu e você é “game over”!

– Mim.

– Hein?

– Que foi?

– Cê falou “Mim”?

– Hã? Não, repare…

– Cê tá enrabichado com aquela vadia?

– Quem?

– Não se faça de besta comigo, Eustáquio!

– Olhe, você está exaltada, não estou compreendendo.

– Tu tá saindo com a puta da Yasmin?

– Você.

– O quê? Eu sou puta? Me chamou de vadia, miserável?

– Eu? Quando foi isso?

– Olhe, você sempre debochou, só que passou do limite agora!

– Eu não fiz nada. Estou apanhando sem culpa.

– Nunca bati em homem, mas posso começar agora, viu?

– Você me chamou para uma conversa e do nada se aborrece assim?

– Do nada? – ela se levanta ameaçadora, ele se afasta preocupado.

– Calma, não vamos perder o controle. Sente-se de novo, por favor. Assim, bom.

– Você me tira o sério.

– Do.

– Hein?

– Nada, nada. Di, a gente se ama.

– Amor? Amor? Você não existe. Louco de pedra. Doido varrido. Conhece isso?

– Sim, expressões elementares.

– É você. O pancada elementar! Me deixe, viu!

– Mas é você quem quer me deixar!

– Eu vou lhe bater!

– Calma, Di. Que é isso?

– Eu não sou assim. É você que me deixa pirada.

– Quem.

– Como “quem”?

– Hein? Esqueça isso. Que briga é essa? Se ainda fosse porque tem outra pessoa…

– Ah, sabe do que mais? É isso aí. Outra pessoa. Sim, vou falar essa merda logo.

– Agressiva de novo…

– Miltinho, por exemplo, não me desperta isso. Pronto, falei.

– Quem? Que Miltinho? Pilão?

– Milton, para você.

– Pilão? É sério isso? Ele deu em cima de você?

– Foi consenso.

– Como é que você aguenta um cara como ele?

– Não é tanto assim como falam…

– Ei, estou falando do temperamento.

– Hein? Ah, tá…

– Que decepção, Diana. Logo você…

– Tudo tem um limite. Tentei até não poder mais.

– Me traindo… Por isso que ele passa por mim e dá uma risadinha… Desde quando essa safadeza?

– Há muito tempo atrás! Pronto, falei de novo.

– Há muito tempo.

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