(Leticia Eboli)
Dois um de cada lado, mais do que oito mãos, já que as luvas de chenille em formato retangular ampliavam a superfície de contato. O toque sintético macio mostrava o vigor daqueles profissionais, embora ocultasse calos.
Tá certo que escolhi a opção manual por receio de chupões na lataria. Mas daí me privarem de dedos de verdade. Quem não gosta daquela pegada que deixa marcada a impressão digital? Podia ser um dedinho de cada, um de cada um. Daria um mini exército de quatro indicadores. Talvez algum tivesse habilidade pra chegar ao Santo Graal.
Achava graça na fantasia de bonés, aventais, bota até o joelho. Apreciava o cenário de umidade rústica em cima da esteira de uns 8 metros, na velocidade constante de 30 dólares por 600 segundos, sem que fizesse esforço algum. Vai dizer que nunca gostou de um sexo múmia, quando deixa seu corpo entregue em modo de economia de energia.
Não estava ali para fazer amigos, me apaixonar. Era transacional. Uma gozada limpinha. Sabão, água, um pouco de desinfetante pra dar aquele sentimento de “tô viva” começando a semana como quem toma shot de cúrcuma, limão e gengibre em jejum.
Mas a falta de um indicador foi levando a relação pra aquela impessoalidade dos papos cinzas de “Será que vai chover?” Talvez por isso fossem amarelas as luvas em suas tentativas de trazer sol para a experiência do lava jato manual, porém sem dedos.
Pude apostar que eram três destros e um canhoto. Homem dificilmente tem habilidade com os dois lados do cérebro. Usavam a mão boba de apoio para dar mais força à mão trabalhadora, que após ser mergulhada num balde de água e sabão vinha encharcada. Em termos de lubrificação, peco pela falta. Gosto de dar tempo ao meu corpo para que se dispa, se sinta à vontade. Com tanta tecnologia ainda não conseguiram inventar um lubrificante artificial decente.
O lado positivo é que as luvas molhadas nos baldes retinham bastante da água. Depois dos primeiros sustos, pude finalmente relaxar nos 360 graus das mãos lambendo meu corpo. Minha mente entrou no flow, se separou do corpo e foi dar uma passeada pela loja de conveniência.
Chegou tímida pela sessão de cabos usbs, adaptadores, carregadores, copos térmicos.
Fez carinha de quem tava gostando no passeio pelas ecobags e necessaires de viagem.
Passeou pela esquina com slimes, adesivos, carrinhos e salamandras de plásticos.
Chegou a rosnar no fetiche de dominatriz com coleiras de coração de glitter, exército e poás, fazendo jus ao título de “best dog ever.”
Quatro das oito mãos me deixaram. Apenas duas seguiram para a minha traseira.
Esfregavam a região próxima a bunda. Me assanhei desejando que as mãos sem dedos alcançassem o botão de abrir a mala, embaixo do cóccix, perto da minha placa.
Embarquei na fantasia de submissão. Seguia como uma cadela correndo atrás do donut, de um osso, e de uma preguiça – o bicho. Todas pelúcias da prateleira de artigos pet.
O penúltimo se despediu em um tapinha leve, que me fez até escapar uma risada safada.
Sobrou um par de mãos, que ao se encharcar novamente me desconcentrou. “Puxa, não precisava!” – pensei.
Bateu um vento frio, que me desviou para a prateleira acima. A “Dogquila”, uma garrafa de tequila de pelúcia com formato fálico, tinha no seu topo uma tampa de cabeça de pinto rosado.
Gargalhei alto, saindo pela porta de trás.
“Blim Blom. Thank you for your visit” – Disse o sensor automático.
“You are welcome” – pensei já sentindo a chave na ignição da segunda-feira.
Meu motor sentiu cosquinha ao reparar na pequena queda d’água na saída do terreno do Splash. Devia ser apenas cenário. Mãos sem digital.
