Chão inevitável

por Américo Paim

Seu corpo moreno ainda era magro nessa época. Peito nu, barba e cabelos ralos e descuidados, olheiras como máscaras e mãos inquietas a brincar com um copo. Todo esse insosso conjunto largado na poltrona da varanda do apartamento, com vista bem parcial do oceano entardecendo. Não conseguia decidir a melhor maneira de contar a ela e aquele fim de semana de inverno silencioso se aproximava como um abutre em círculos, salivando. A ideia de dar sinais diversos, um caminho escolhido por causa de um livro de autoajuda experimentado nos últimos dias, não comunicou sequer dúvidas. Só serviu para alimentar o monstro do tempo e ajudar a angústia a se espalhar confortável, como deitada em um sofá, com pipoca e cerveja, diante da final do campeonato na tv. A moça, apesar de tão esperta, seguia alheia, planando em ar rarefeito, capaz de fazer por ele tudo e mais um pouco e lenta para perceber que a coisa estava fazendo água. Ele não sentia culpa ou mesmo reconhecia que fosse dissimulado, apenas incompetente para abrir a boca e desenhar no ar: acabou.

Horas depois e ainda pensava: como chegou a esse ponto? Algo se esvaziou, simples desse jeito. Folha morta caindo, aleatória, até o chão inevitável. Ainda assim, lhe pareceria impossível se alguém previsse, seis meses atrás, quando o romance engatou, depois de muito quase. Todos dele, bem sabia. Ela esteve pronta, aliás, parecia assim desde que veio ao mundo. Algo que ficou desde a primeira impressão. Ao contrário do que viveu com outras mulheres, não foi ao chão porque ela fosse linda. Na gradação dele, se enquadraria no máximo em uma “simpática plus”. Tinha aquela expressão viva, transbordada em olhos grandes e molhados, de um azul indeciso entre o fundo do mar e um dia de verão. Se sorria, o nariz não perdia a ponta saliente e apenas uma bochecha esboçava covinha discreta. Essa assimetria nunca lhe trouxe desconforto, que ele até consideraria normal. Aquela pele branca, porém, não lhe parecia combinar com o contralto que emitia como uma cantora de jazz, tipo de música que ouviu muito na casa dos pais, mortos há mais de década, mas que nunca o conquistou. E ela tinha uns gestos frequentes com as mãos que, fossem em qualquer direção ou intensidade, lhe chegavam como canto de sereia e seu barco ficou à deriva com facilidade. Não projetou que ela seria a mulher de sua vida, só que foi tão natural quando ele enfim se entregou, que não fazia sentido analisar por que demorou tanto. A pergunta, porém, martelava: de onde aquele oco, a ausência de tudo, que começou há poucas semanas?

   

Dias depois, ainda não digeria o sentimento drenado de forma tão fluente e muito menos se concentrava no trabalho. Pelo vidro junto à sua mesa no escritório, olhou a praça defronte. Pessoas com pressa, outras com seus bichos em coleiras, ambulantes mercando alto a testar a proteção acústica do prédio, copas de árvores sacudindo com o vento médio, carros destratando a beleza. Lhe lembrava um quadro, talvez impressionista, só que jamais saberia dizer qual. A tela do seu computador aberta com números que nada lhe diziam. Contrariou as regras e abriu a janela. As temperaturas se abraçaram e ele ouviu um estrondo. Foi o início da jornada pós-almoço do bate-estacas da construção do outro lado da praça, mas ele olhou para o céu de forma instintiva, embora não houvesse qualquer sinal de chuva ou temporal. Estava tudo azul, exceto por umas formações amassadas, como sua saudosa avó fazia com as batatas na cozinha, e a visão de uma nuvem como uma folha enorme, retorcida, virada para ele como se quisesse ser lida, em seus traços delicados feito rios. Era tão real, nem parecia capricho da natureza. Lembrou do Tio Anastácio, que dizia ver os rostos de parentes e amigos nos desenhos de algodão no céu e que quando morreu tinha bigode e barba tão brancos quanto suas nuvens familiares. Fechou a janela do mundo colorido e voltou ao cinza de uma planilha inaceitável.

Meses depois, um verão estava no fim, as chuvas fortes apareciam aqui e ali e sua vida seguia afogada. Aquele relacionamento havia terminado, graças a ela e a seu temperamento resolvido. Ele permaneceu inerte até a solução brotar e lhe aliviar a existência. Olhava para trás vendo aquilo tudo como algo triste, melancólico, que até lhe humilhava. Sobrevivia a duras penas na empresa e foi destacado para uma viagem ao interior. Deveria avaliar área para construção de um condomínio de casas populares. Também precisava encontrar sentido para seu trabalho e entender como ainda era escolhido para tais tarefas importantes. Não percebiam sua total dificuldade em realizar bem o seu trabalho? Seu emprego era como mais uma mulher com quem não deveria estar e não conseguia se desvincular. Mais uma árvore que esperava que apodrecesse e lhe fizesse o favor de cair de uma vez, para ele descer sossegado dos galhos altos. Passava pelas ruas quentes da cidadezinha olhando os cenários como se fossem cópias desgastadas de um filme antigo sem diálogos. Nada de útil no intervalo entre suas orelhas. Caminhava e só isso. Atravessava a avenida principal, esburacada e exalando cheiro úmido do aguaceiro recente, intenso, mas rápido, e ouviu um barulho alto, metálico e seco, poucos metros à sua esquerda, perto de uma esquina onde uma caixa de som anunciava promoções de uma loja de brinquedos. Um choque de carros. Não lhe pareceu nada muito grave e sequer se mobilizou até o local, que logo foi cercado por pessoas, curiosas ou ajudando. Indiferente, mudou de direção e seguiu à direita. Andou pouco até parar diante de um muro descorado e sofrido de um terreno baldio. Lhe chamou a atenção. Coçou a cabeça, desalinhando ainda mais seus agora longos cabelos, que se rebelavam com o vento moderado. Diante dele, caprichosas e inexplicáveis trincas e rachaduras desenhavam o que se parecia com uma folha vista de cima, com um talo central e suas ramificações, tudo em tons de marrom vindos não se sabe de onde. Parecia até um desenho. Demorou um pouco para ele recordar a folha no céu, tempos antes, no escritório. Isso só lhe veio à noite, no hotel, deitado na cama de molas, contando quantas manchas grandes de sujeira havia no teto do quarto. Adormeceu quando já passavam de cinquenta.

Alguns anos depois, ele estava em um treino de corrida. Seu médico recomendou e o terapeuta validou. Precisava se envolver com atividades físicas. Equilibrar corpo e mente, sentir a vida renovada e preenchida. Para que as coisas ficassem mais leves. Para que se movesse, não apenas esperasse. O parque estava um tanto vazio. Ventava pouco mais que o normal para aquele outono. Ele colocou óculos escuros por causa das rajadas de pó. Já corria há uns dez minutos, quando fez uma longa curva à esquerda pela pista de cascalho fino e batido, contornando o barranco de terra quase vermelha e começou uma descida suave. Avistou à sua frente, perto dele, uma mulher jovem, vestida com uma roupa bege e seguindo na mesma direção. Ela tinha um rabo de cavalo, boné e tênis pretos. Ele estava mais rápido que ela. O que era brisa forte virou ventania. Ele se aproximou mais e veio um estalo como uma pequena explosão. Uma árvore fina, quase toda seca, oscilou forte, quebrou-se e caiu entre eles, sem atingi-los por pouco, porque ele antecipou a cena, pulou e empurrou a moça. Caídos, ela conteve o grito porque entendeu logo o que houve. Ele apenas olhou para ela preocupado. Nem notou que sua mão esquerda, apoiada no chão, cobria uma folha inteira e real, improvável, caída na poeira, órfã de um galho.

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