Para você
Desculpe todos esses chutes. Aquele peixe que você comeu devia estar estragado e eu não tive como evitar. Sinto muito por sair antes da hora e te levar pra faca, mas não tenho culpa se você come em qualquer pé-sujo e não se deu ao trabalho de tirar as espinhas.
Desculpe a demora. Roberto da Matta te diria que o atraso dos cariocas se deve a transfusões de sangue azul, mas eu não tenho tanta cara de pau. Atraso porque preciso. Se você não consegue me esperar por meia hora, como vou saber se consegue esperar enquanto decido se quero ficar com você ou com outras ou com ninguém ou com todo mundo? Atraso porque te amo.
Desculpe a pressa. Mas é que você é muito gostosa. Mas é que você fala frases de filme pornô e filme pornô você sabe como é que é. Mas é que você tem que me dar uma segunda e uma terceira chance. Mas é que aí, na quarta, você vai ver como é que é.
Desculpe a mordida no seu pé. Você deixa ele pendurado, gordo, carnudinho, rosado. Você com a boca no mamilo, não larga mais pra nada. Até quando você não quer, ela abaixa a blusa, mostra a rodelona marrom e esfrega o mamilo na sua boca, uma gotinha cremosa e docinha escorrendo na ponta. E eu nessa merda de chupeta com gosto de nada. E eu com cada vez mais dentes me rasgando a gengiva. E a mulher sentada nessa cadeira baixinha. E eu quase já sei ficar em pé. E você com essa boca no mamilo o tempo todo, nem pra chorar você larga.
Desculpe a bronca. Você tem toda a razão. O filho é seu, eu não sou pai dele. Eu sou só seu namorado. Eu sou só o cara que faz comida, leva cuspida na cara, limpa fralda quando você não está e segura a ânsia de vômito. Eu sou só o cara que, por noção do meu lugar e por respeito à sua maternidade, não te disse que é doentio colocar fralda num moleque de quatro anos que faz uns toroços de quem come feijão (o meu, muito bom, por sinal). Eu sou só a única presença masculina que se faz presente e que não deixa ele dar tapa na cara de adulto. Já a mãe é tudo. A mãe está por todos os lados todo o tempo e todo o tempo a mãe está por todos os lados. Quem sou eu pra criticar? Você pariu, você balança, você diz como é que dança. Você projeta na infância dele a possibilidade de esquecer a sua. Dizer não pra ele é dizer não pra si mesma. E quem sou pra criticar?, eu também odeio Freud.
Desculpe o não. Você me disse um também, quando tudo que eu te dizia era sim. Você me trocou por caras tão piores a ponto de me procurar mais de dois anos depois, certa de que sou o homem da sua vida. Eu já recusei algumas mulheres depois que você me recusou. Como me senti? Nem melhor, nem pior. Sinceramente, não tenho nada a te cobrar – a freguesa tem sempre razão. Toma um não quentinho por conta da casa.
Desculpe a palestrinha. Sim, eu falo demais, levanto a voz, te corto várias vezes. Não, eu não disse exatamente o que você acabou de falar. Coloquei outras palavras, fiz uma construção sintática diferente. Devo ter ouvido sua frase quando já estava pensando na minha. Pensando bem, nem ouvi o que você disse, porque quando começo a pensar em algo pra dizer não ouço nada em volta. Que coisa louca, né, acabamos de nos conhecer e já estamos sintonizados. Sim, sei que quando eu falei todo mundo escutou como se a ideia fosse só minha. Se você quiser, volto lá e falo pra eles que a ideia é minha e sua.
Desculpe a mijada. Eu sei, não é porque uma mulher tira a minha roupa que posso fazer o que me der na telha. Só que deitado assim, arreganhado, de saco ao relento, o sujeito fica muito sensível. E você rindo de mim, apertando minha barriga, me deixando com a bunda gelada, debochando das minhas brotoejas. E ainda por cima dizendo:
“Cadê? Cadê a torneirinha da vovó?”.
Pois então. Tá aqui.
Desculpe ir entrando. Ainda bem que você me lembrou. Ainda bem que você me lembrou que a única camisinha que eu trouxe foi pro lixo depois que broxei antes de colocá-la, há cinco minutos atrás, bem na hora agá. Ainda bem que você me lembrou agora, bem na hora agá, de novo. Já pensou se você esquece? Ufa.
Desculpe ir saindo. Você me pediu pra terminar dentro. Não me entenda mal, talvez eu até o faria se você não tivesse pedido, porque essas coisas acontecem. Afinal, sem hipocrisia nenhuma: quem nunca? Acontece que você pediu, eu me assustei e saí saindo mesmo. Afinal, quem é que pede uma coisa dessas?
Desculpe a mancada. Foi sem querer. Eu não sei dançar, nem mesmo esse xote rastejado, nem dois pra lá e, dois pra cá, só se for cá pra cuca. Deve ter sido a defumação que eu fiz antes de entrar, o beck me bambeou. Mesmo assim você me chamou pra dançar. Você é tão bonita que eu fui, mesmo sem querer. Você me trocou por um filhote de Cauã Reymond que ainda por cima tinha cintura de mola. Quando ele te trocou por uma loirinha, você me chamou pra dançar de novo. Você é tão bonita que eu fui, mesmo sem querer. Talvez a falta de vontade explique a falta de jeito e a falta de jeito explique a sobra dos meus pés nos seus. Depois você ficou o resto da noite sem dançar e por três dias sentiu dor pra andar. Foi sem querer.
Desculpe o sumiço. É que você é tão pra frente, inteligente, bem-sucedida, gostosa, desencanada, imune a chantagens, consciente de quando digo que te disse alguma coisa que na verdade eu nunca disse. E ainda por cima é tão atenta, achei que tinha percebido minha insegurança. E ainda por cima é tão madura, achei que não fosse preciso explicar.
Desculpe extrapolar. Outra vez esperei você me avisar pra fazer faxina, ou deixei colher de pau no lodo da pia, ou deixei lodo na pia, ou troquei a areia da caixa do gato e fui cozinhar sem lavar as mãos. Você disse que eu pareço criança. Eu disse:
“Não sou eu quem precisa de alguém segurando minha mão e fazendo cafuné quando tenho cólica, dor de cabeça ou até gases”.
Eu sei, perdi a linha. Mas foi você quem começou.
Desculpe o pulso torcido. Eu não devia ter aceitado a responsa de garantir que você não saísse da linha. Eu devia ter dito isso pro Papai na hora em que ele estava pegando a estrada pra trabalhar, e não quando te encontrei com um cigarro na mão em frente a um bar cheio de caras de 18, depois de passar a noite canelando a cidadezinha atrás de você. Você não devia ter tentado arrancar o celular da minha mão. Agora vou passar o resto da noite ajoelhando no chão da sala de espera da UPA, rezando. Porque se o raio-x der notícia ruim, a gente vai voltar pra casa, vai foder mais de um mês de férias e eu vou ter certeza de que não devia ter feito isso.
Desculpe a confusão. Essa calcinha não é sua, claro que não. Achei que fosse, mas não é. Então é de quando minha irmã veio me visitar. Não é o tipo de calcinha que ela usaria? Você só a viu uma vez, e vestida. Aliás, tanga, calçola, fio dental, é tudo a mesma merda. Tudo a mesma merda, ouviu? Claro, pergunta pra ela se quiser. Não, eu não estou de sacanagem com a sua cara. E não, os homens não somos todos iguais: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Desculpe a insistência. Eu era só um adolescente idiota. Meus amigos da escola falavam da capa do batman, falavam que quem não arrisca não petisca e quem não chora não mama. Você, matinê, vai quê, arrisquê. E mesmo assim você não cedeu, o que foi de chorar. Eu era só um adolescente idiota, ainda não tinha aprendido que não é não. Aprendi, meus amigos da escola não são mais meus amigos e eu sou um homem consciente. Tanto que não vou te propor nada. Mas se você quiser, tamo aí.
Desculpe a grosseria. Eu sou um dos caras mais gentis que conheço. Não levanto a voz, não te interrompo, escuto até o fim o que você diz. Não tenho culpa se você não faz o mesmo, e às vezes a paciência me esgota. Não tenho culpa se você é meio surda de um ouvido. Tenho certeza que não te chamei pelo nome da minha ex. Não tenho culpa se você está ouvindo coisas.
Desculpe a educação. Não vou mais agradecer quando você disser que me ama.
Desculpe a surpresa. Sempre sou tão criativo, sempre me supero, sempre tenho explicações que fogem a clichês como dor de cabeça ou estresse no trabalho. Mas agora, sentado no pé da cama depois de três vezes tentar cantar pra subir e nada, me falta o que dizer. Não é mole não, simplesmente me falta a mais vaga ideia de qualquer farrapo de escusa ou subterfúgio. E eu te juro, isso nunca aconteceu comigo antes.
Desculpe o silêncio. Você é tão boa em dizer o que pensa, tão boa em defender o que pensa, tão boa em discutir aos gritos. E eu sempre perco quando o negócio é aos gritos. Tudo bem, ficar calado só te prova que eu não te quero do jeito que você é, com sua voz e sua verve. Tudo bem, você vai embora. Mas quem ganhou fui eu.
Desculpe a tagarelice. Não faço a menor ideia de porquê falo dormindo. Não sei o motivo de gritar palavrões como se estivesse a ponto de cair na porrada. Ou de acordar assustado gritando por minha mãe. Ou de falar baixinho, enquanto puxo o lençol só pra mim, coisas como: “senta na minha piroca”. Tem razão, vou procurar uma psicóloga. E vou contar o que você me contou que falo dormindo, já que não lembro quando estou acordado. Ou seja, são as suas palavras contra nenhuma palavra minha. Mas vou te dar esse voto de confiança.
Desculpe a ajuda. É que não consigo te ver carregando esse peso todo, é mais forte do que eu. Não devia ter tomado a mala da sua mão. E você não devia ter me mandado tomar no cu, mesmo depois de recusar educadamente por mais de seis vezes. Mas eu já te desculpei por isso.
Desculpe o transtorno. As roupas mofadas na máquina que esqueci de pendurar, a privada com cheiro de banheiro químico durante o carnaval, o doce que você comprou pra comer depois do trabalho e eu matei você chegar. Deve ser muito difícil viver com alguém tão cheio de defeitos, né. Deve ser muito difícil pra você, ser tão exigente assim o tempo todo, né.
Desculpe te abandonar. Era isso ou deixar você se enforcar com meu cordão umbilical. Era isso ou você me fazer depender de você por você depender de mim. Era isso ou ficar cada vez mais autoritário e te desrespeitar até você não querer nem mesmo me recolher à escuridão do ventre. Era você ou nós.
Desculpe as desculpas. Mas você me disse pra assumir meus erros.
