Enrolada

Enrolada (texto de Carol Schettini)

Irene tem nome de personagem de romance. E, para ela, viver dentro de romance, lhe dá liberdade de trazer para vida o que quiser de todos os livros que lê.

Quando pequena, Irene enrolava um fio de lã no dedo indicador. Ou um fiapo da barra da saia ou um fio dental. Tanto fazia. A linha dava a ela uma calma. Podia estourar uma bomba atômica ou uma nota baixa, olhava o pedacinho de tecido e tudo ficava bem.

Na faculdade, precisou fazer um trabalho sobre autores portugueses e conheceu os livros de Saramago. E, ali, no romance, na terra que virou barco,  a personagem puxava uma linha, um novelo azul que nunca se desfazia. Ali pegou para si o início de algo antes começado.

Amarrou um pedaço de linha azul fina no dedo. Linha tipo Cléia. De fazer crochê. No início, cortou um pedacinho. Após um tempo, um pedaço de vinte centímetros ficou pouco. A personagem do livro puxava a linha e nunca acabava. O novelo precisava ser maior. Um novelo tem cento e vinte e cinco metros. Foi bom para começar.

“Eu amarrava a ponta no dedo e colocava o novelo na bolsa”, Irene me diz. “Na hora de tomar banho, cortava bem rente, e logo após me secar, amarrava de novo.” “Dava um pouco de trabalho”, ela confessa, “o que fazia eu tomar banhos escassos”.

Parou de ir à praia e à piscina. O novelo não secava por dentro e o cheiro de bolor dava espirros em Irene. Antialérgicos dão sono.

Depois de algumas semanas carregando o novelo para cima e para baixo, achou que a cor desbotara. Na verdade, a cor queimou. Como o verde vira marrom depois de pegar muito sol. Em vez de comprar um novelo novo ou deixar a mania para lá, Irene comprou outro e acoplou ao antigo, criando um novelo maior.

“Falei pra ela pegar outro tom e misturar, tipo um degradê, sabe? Ela quis cobrir o antigo. Ficou parecendo uma bola de futebol americana azul e amassada”, disse sua mãe, Maria Guaíra, que, pela falta da sílaba “va” não tem o nome da personagem de Saramago, a Maria Guavaira, a personagem da meia de lã azul que não termina de desfazer-se, formando um novelo enorme.

“Cada vez ela aumenta mais a bola, um pouco mais. Está enorme, não cabe mais na bolsa!”, dona Maria Guaíra me conta.

Do novelo no bolso ou na bolsa de mão, Irene passou a levar sacolas e mochilas. O problema é que precisavam ser transparentes. Irene precisa ver com seus olhos seu amuleto como se fosse um pedaço do corpo agarrado por uma cordinha. “Um tubo de oxigênio, sabe? Sem oxigênio, claro!”, ela ri. 

Irene arrumou um namorado que não se importava com o novelo nem que o fio enroscasse em seus corpos nas noites ardentes. Casaram e tudo. Na hora de viajar à lua-de-mel,  o novelo precisava ser descolado de Irene para passar pelo raio X. Ao ver aquilo, Irene refugou. Mais vale um novelo na mão a voar em uma viagem para a Europa. O namorado, agora marido, fez com ela respiração de ioga enquanto desamarrava o fio, ela passou pela revista em passos duros e, sem respirar, ficou por noventa e três segundos, enquanto o novelo passava pelo túnel junto com as malas de mão. “Foi uma provação. Um suplício. Uma única vez pra nunca mais”, ela diz e dá uma risada, colocando no colo uma bola enorme azul. 

Pesquisando na internet, Irene soube que na Austrália havia uma cidade com enormes bolas de lã, demolidas por causa de cupins. Irene toma cuidados para afastar traças do seu novelo. Costuma colocar cascas de limão ou cravos da índia para espantar os insetos. 

Irene assume: só será feliz de verdade no dia em que seu novelo for tão grande a ponto de poder dar um abraço em volta da terra. 

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