2038
– Talvez tenha chegado a hora de implantar os três de uma vez.
– Não, isso não. De jeito nenhum.
Pérola segurava com força a alça da bolsa debaixo da mesa de granito do consultório da Dra. Olívia. Fez-se um silêncio oco.
– O endométrio tá com 11mm. É o melhor que a gente já conseguiu até aqui. Vamos pra quinta tentativa, 46 já. Não sei se faz sentido seguir depois dessa.
– Mais de um eu não quero.
– Veja, no seu caso, é muito difícil que mais de um embrião se desenvolva. A gente não tem como garantir 100%, mas o perigo de gêmeos é mínimo.
– Não é isso, Dra. Olívia. São as três bolinhas juntas lá dentro. Eu não dou conta.
– Oi? Mas elas ficaram juntinhas no seu ovário antes da gente tirar. Lembra da ultra do folicular? Quer ver?
– Não, não não não não
Olivia se vira para o monitor, corre o mouse na pastinha da área de trabalho, o exame surge na tv da parede diante de Pérola. Volumes cinzas se movimentam redondos, um pertinho do outro, um apertando o outro, o foco falha, volta, aproxima. São dez folículos. Ela tenta levantar, “eu falei que não queria ver o exame, lembra, eu não quero ver exame. Não sou eu aí não. É só um exemplo, não é?”, Pérola diz quase gritando. Bate o joelho na mesa, se enrosca na alça da bolsa, tropeça primeiro na própria perna, depois no tapete e, por fim, na balança perto da porta do consultório. Dra. Olívia não entende nada, mas Pérola, nunca mai volta. Naquela semana mesmo, dá início ao processo de adoção.
2023
Pedal das manas
Domingo
(Pérola) – Oi, meninas, fui assaltada agora no Copan. Levaram minha bolsa com o cadeado da bike. Ela tá presa e eu não consigo estourar de jeito nenhum. O que é que faço?
(+55 11 99431-2481) – De bobeira no Copan, minha joia?
(Pérola) – Tava com um tio meu que encontrei pro almoço, deficiente visual, um senhor já
(+55 11 99421-8481) – E ele tá bem?
(Pérola) – Tá, a gente tava esperando o táxi. Ele tinha acabado de entrar no carro
(+55 11 98423-9873) – São Paulo tá foda
(+55 11 97507-0345) – É um Ulock? Talvez tenha que arrebentar
(+55 11 93840-0086) – É desse aqui? Posso tentar usar a minha
(+55 11 99976-2234) – Acho que não vai abrir, gente. Tem que chamar um chaveiro
…
(Pérola) – Galera, consegui recuperar. Fui na rua onde os caras ficam vendendo as coisas roubadas e tava lá minha bolsa por 20 reais. Com tudo dentro
(+55 11 98423-9873) – Amo heheheheheh que desespero
(Pérola) – 300 reais em disco de vinil que eu esqueci de entregar pro meu tio e o cara pedindo 20
(+55 11 97507-0345) – Meu deus
(+55 11 98776-9888) – kkkcrying
(Pérola) – Eu meti a doida e fui atrás
(+55 11 98423-9873) – Na Sé ou no parque Dom Pedro?
(Pérola) – Na Dom José
(+55 11 99976-2234) – O próprio cara que te roubou tava vendendo?
(+55 11 98423-9873) – Que caos mana
(Pérola) – Eu não sei se era o próprio cara, mas ele disse que comprou do nóia a 15 e queria pelo menos 20 conto de volta
…
Segunda
(Pérola) – Alguém tem uma derma pra indicar
(+55 11 98776-9888) – Dra. Natália 98566 3349
(+55 11 97507-0345) – Tá tudo bem, ami?
(Pérola) – Tranquilo. Uma sensibilidadezinha no canto da boca
(+55 11 98776-9888) – Isso é herpes, precisa nem consulta
(+55 11 97507-0345) – Total. O estresse do assalto, gata
…
Não foi o assalto, nem o nóia. Foi o encontro com tio Olavo que abriu a porta e jogou pra longe a imunidade de Pérola. Ela quis sair do grupo, parar de pedalar, se mudar de São Paulo, mandar matar o tio e jogar a boca fora. Visualizou as bolinhas, coladas, vivas, um grupo em expansão descontrolada. A imaginação fez convite, elas chegaram rápido. Quase viu crescer uma a uma no espelho do banheiro. Quase viu o vírus nadar na água que as bolhas carregavam dentro de si. Jurava que assistiria ao rompimento dos ovinhos, eles nascendo, serenos, confortáveis e completos, insetinhos virais voadores. O céu de Santa Cecília todo tomado pelo bando que se hospedou ali. Cobriu o espelho com a toalha, sentiu bater na própria caixa torácica o coração de todos os aflitos, amargou sete dias de antiviral sem sair de casa, sem olhar o próprio reflexo, sem tocar o rosto, vazando lágrima de angústia de de manhã até de noite.
2002
Era veraneio em Tamandaré. Os adultos da família pondo em prática o acordo que fizeram sem consultar nenhuma criança. A cada ano, um casal bancava a temporada e levava na bagagem os filhos e sobrinhos. Quem não estava na vez se livrava das crias janeiro inteiro. Não tinha condição de dar certo. Pérola, os 4 de tio Olavo, os 3 de tio Odilon e as gêmeas de tia Olga. Brigavam do começo ao fim das férias, alguém sempre fechava o tabuleiro do War no meio do jogo, alguéns tomavam o chá de camomila que as mais velhas faziam pra passar no cabelo, ninguém confessava, mas todo mundo roubava na sinuca e na divisão do brigadeiro e da bolinha de queijo, um primo pendurava o picolé na conta do outro. Seguiam se odiando de fevereiro a dezembro. Rompia o ano e a saudade se encarregava de aprumar o povo pra mais uma temporada de praia.
Pérola devia ter uns 9. Era a vez de tio Olavo, sempre os anos mais caóticos. Ele tomava as crianças por colegas de república, não dava uma ordem, mas também não resolvia nada por ninguém. Cantava de manhã pra dona Madalena, a caseira “Madalena, Madalena”, e ela “o que é que você quer?”, aí ele “traz um pãozinho bem quentinho, a manteiga, um cafézinho, garfo, faca e colher”. Pérola ria no máximo até o primeiro sábado. Um dia, três irmãos de Maceió bateram nela e na prima mais nova. As duas correram na barraquinha da praia para buscar salvação. “Deixe comigo”, ele gritou subindo a sunga de listra. Chegou lá, olhou bem na cara dos delinquentes e soltou “sempre ouvir dizer que em uma mulher, não se bate nem uma flor, loira ou morena, não importa a cor, não se bate nem com uma flor”. Deu o assunto por resolvido e elas tomaram caldo dos alagoanos até não poder mais.
Tio Olavo não levantava nem pra assar o pão e tomava o expediente de dona Madalena por meio expediente. Uma da tarde e tchau. A casa ficava daquele jeito. As crianças davam uma varrida, mas era areia até em cima da mesa. Ele nem levava chinelo, pegava qualquer um que visse pela frente, não importava o tamanho, se enxugava com a primeira toalha que achasse no banheiro, música nas alturas o dia todinho, um churrasco que emendava o almoço no jantar, a galera pisando no colchão de de noite, o barulho da pedra de dominó no juízo, do dia 1 ao 31. Era muito pra uma Pérola, filha única de pais pediatras. Uma Pérola que, fora das férias, tinha hora pra tudo, tinha refeição programada, tinha guardanapo de tecido combinando com pantufa, toalha e lençol. Ela se trancava no banheiro, ligava o chuveiro, que nem quando no pega-pega você precisa de um tempo e grita “Fulana de cença” Pronto. Pérola tirava licença. E foi na licença que viveu a experiência dos bebês insetos.
A água escorrendo do lado de dentro do box. Ela do lado de fora, quieta, sentadinha no chão, olhando pro nada. Na quina da parede, úmida de mar e de vapor, um conjunto de bolinhas rosa bebê. Tinha umas 10. Uma colada na outra, bem pertinho. Pérola achou aquilo bonito de doer. Quis se achegar, arrancar, levar pra casa. Ver pegando. Foi se aproximando com a mãozinha, a unha preta de caranguejo e de falta de banho. Os dedos finos, doidos pra fazer contato. Se brincar põe na boca, 10 cm, 5 cm, 2 cm. Quase desiste, mas cavou coragem, como quem puxa a última patinha de caranguejo. Fechou o olho. Encostou. Ui. Era frio, mexeu um monte de negócio lá dentro. Uma bolinha grudou nela, não saia por nada. Estourou na tentativa de desgrudar. Sujou a menina pra sempre. Ela sentiu o corpo todo se horrorizar. Gritou até com a unha, mas ninguém ouviu.
Janeiro passou lento. Tio Olavo só se deu conta do pavor da menina lá pelo meio do mês. Ela rejeitou a praia e os primos, tremelicava do nada pro nada, passou pra sempre a vez na sinuca, parou de comer bolinha de queijo, brigadeiro e tudo que fosse redondo. Tiveram que ligar pros pais. Os dois de plantão. Tamandaré nunca mais viu Pérola, nem tio Olavo que daquele ano pra frente galopou no glaucoma. No aniversário de 10 anos dela, ele já andava com o cão Guia. Mas nesse dia ele enxergou. Chamou dona Madalena pra ficar com os meninos e tirou ele mesmo o Ômega da sombra do coqueiro para levar de volta a menina que deu defeito. Três horas de PE 126 e 177 cantando alto pra ver se animava. “Lançamento, lançamento, todo mundo comigo, debaixo d’água se formando como um feto, sereno, confortável, amável, completo. Não? Essa tu gosta, bora. Coração bobo, bobo, bobo, bobo, bola, bola, bola, bola, bola, bola, bola de balão”. Não teve jeito.

