Trabalho forçado

Priscila Gontijo, 40, carioca, é atriz, dramaturga, roteirista e professora. Publicou os romances Peixe Cego e O Som dos Anéis de Saturno, além das peças A Vida Dela, Deadline e Soslaio, e co-escreve a série Dom (HBO). Animais Submersos (Quelônio) é seu primeiro livro de contos.  Uma voz é feita de pontuação (respiração), um jeito original de olhar pro mundo (um imaginário pessoal, uma maneira única de criar metáforas), de olhar para alguns personagens e não para outros (uma voz é edição: mais a escolha do som do que silencia que do som que fala). E a voz da Priscila Gontijo fala com vigor nessas 17 histórias, todas vocalizadas por personagens bem diferentes (a maioria mulheres, mas nem sempre). O título entrega a ambição do livro: os tais “animais submersos” são metáforas para desejos, rancores, fúrias, ressentimentos, perturbações, incômodos que navegam por dentro dos corpos desses personagens até aflorar à pele. É uma escrita muito física, em que o corpo dita o andamento da narrativa (falar nisso, as cenas de sexo são espetaculares – bem como uma cena de quase-sexo em especial).

Também as premissas das ficções são peculiares: uma garota se emprega em um restaurante paradisíaco que abusa das funcionárias; um homem se obceca pela bunda de sua colega de trabalho, mas se segura; uma esposa feliz com o marido perde totalmente o tesão por ele; uma esposa estranha o interesse súbito do marido tosco por filmes cabeça; uma mulher quer se matar mas não consegue; uma adolescente vê o futuro na buceta da amiga; uma ninfomaníaca se apaixona por um alcoólatra violento; uma professora assedia um aluno; uma septuagenária pega homens décadas mais novos. Os tais animais do título aparecem materialmente como indícios ou motores da perturbação – cachorros, gatos, ratos, polvos, peixes, corujas, capivaras, trazendo colorido a histórias sombrias. Sim, há horror e medo – os contos foram escritos durante a pandemia -, mas também humor, nonsense e tesão, e desses contrastes as histórias são feitas, entregando desfechos muitas vezes anticlimáticos. Destaque para os diálogos, se alinhando à tradição de Luiz Vilela, Maria Adelaide Amaral e Marçal Aquino – Priscila foi atriz e, além da voz, sabe usar bem os ouvidos, o que é raro na literatura brasileira. Certamente um dos melhores livros de contos de 2023

PROPOSTA

Inspirado nesta ficção, você vai contar uma história em que seu personagem aceita um trabalho que parece incrível.

Porém um detalhe torna o trabalho impraticável.

O problema é que seu personagem precisa muito do emprego, está necessitado de grana e vai precisar encarar a bronca.

Escreva seu conto direcionando-o para uma dessas 4 conclusões:

a) seu personagem não consegue encarar o trampo e é despedido;

b) seu personagem encara a bronca e é promovido;

c) seu personagem se dá muito mal no trabalho;

d) seu personagem se vinga da bronca.

Descreva bem seu protagonista. Descreva os colegas do seu protagonista. Descreva o chefe, o subchefe. Descreva o ambiente. Descreva o tipo de trabalho.

Pense em situações que vão escalando.

O trabalho novo começa bem, as perspectivas são ótimas. O personagem se encanta pelo trabalho. Mas aquele detalhe surge e mostra que a coisa é bem mais complicada. Mesmo assim, o personagem teima em persistir no trabalho. As coisas não melhoram, pelo contrário, só pioram. O personagem ainda insiste. Até que o desfecho se impõe.

Escreva na terceira pessoa, no discurso indireto livre.

Use cenas e diálogos.

Em até uns 9 mil toques.

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