por Américo Paim
– Evilásio, né?
– É sim, senhor.
– Vou repetir: limpar e arrumar tudo e vigiar a noite toda.
– Entendi, mas o senhor me permita…
– O que é?
– Eu gostei do pagamento e tal, mas por que de noite?
– Você quer o trabalho?
– Sim, senhor! É que…
– Começa hoje mesmo. Já tem o endereço e sabe onde pegar as chaves.
– Tá tudo certo.
– O material de limpeza também.
– O senhor pode confiar.
Evilásio sentiu alívio ao sair do escritório naquela manhã. Conseguiu, mas sua primeira impressão sobre o Sr. Frota não foi boa. A caminho de casa, olhava a paisagem e não esquecia o homem. Cabra forte da desgraça, feio que dói. O bigodão parecendo uma piaçava, uma cara de quem bateu na contramão, eu hein… E a cicatriz de orelha a orelha? Oxe, parecia que o pescoço tava rindo. Deus é mais. E fumou aquele charuto fedido feito uma paranga na minha cara. Me deu foi medo, num vou mentir. Bem, o que interessa é o trampo. Tá não mão, papá.
Chegou ao sítio perto do anoitecer. Terreno grande, todo murado, no meio do nada, sem vizinhança. Portão metálico com pintura recente, caminho de terra batida até a casa nem nova nem grande e quase toda azul. Oxe, num tem janela pra rua, só nos lados. Porta robusta e telhas gastas. Havia muitas árvores e duas mangueiras ladeavam a frente da construção. Ele caminhou até a varanda, abriu a porta, acendeu as lâmpadas incandescentes bem fracas. As paredes eram brancas e nuas. Passou da sala, entrou no corredor e abriu as portas dos quartos, duas de cada lado, cada uma de uma cor. Troço esquisito isso. Passou do banheiro, da sala de jantar, cozinha, área de serviço e encerrou no quintal. A limpeza lhe consumiu os primeiros dias.
Nas semanas seguintes tudo melhorou. Era raro chegar e as coisas estarem fora do lugar. Agora esse cheiro de desinfetante forte assim. Num era preu limpar saporra? Chego e já tá limpo? Ele começou a aproveitar. No quarto verde, havia TV, poltrona, mesa e cadeiras. O azul era como quarto de criança, com brinquedos e até um berço velho. O amarelo tinha mesas de sinuca e carteado. O branco era a biblioteca, com muitos livros. Casa esquisita, tanto quarto e num tem cama pra dormir. Ele se virava nas cadeiras ou no chão. Nunca acontecia nada mesmo. Os dois primeiros meses foram na maresia e o dinheiro pingando.
No terceiro mês, já bem à vontade, descobriu bebidas em um fundo falso nas prateleiras da biblioteca. Hesitou, mas julgando que ninguém ia dar pela falta, começou a explorar as possibilidades. Começou devagar, controlado. Depois, já no quarto mês, bebia sem medo. Será que tem mais coisa escondida por aqui? E se tiver dinheiro?
Mais ou menos nessa época, um dia ele estava almoçando no Bar do Cabeça Quente. Andava animado, esbanjava sorrisos. Sei que tô bem. Chiquinha tá me olhando do bar. Tô de olho nela. Ali eu vou me dar bem uma hora dessa. Então aconteceu um encontro casual com seu amigo Afrísio.
– Rolete, miserável, só assim pra lhe ver. Ninguém lhe acha mais na noite!
– Oxe, tô trabalhando, Chumbica.
– Eita, então é o fim do mundo mermo.
– Deixe de palhaçada. Tô me dando é bem.
Contou tudo ao amigo. Afrísio não se animou, mas entrou na onda do amigo, fez um monte de perguntas e no fim do papo mandou um recado.
– Home, tu tá é bonito. Penteado, barba feita, roupa limpinha. E tá mais cheiroso que fio de barbeiro.
– Se saia, véi. Tenho que mandar bem no emprego.
– Tá com a cara mais redonda. Tá até menos dentuço! Nem parece o velho Rolete.
– Óia, é Evilásio. Num pega bem isso de apelido.
– Deixa de frescura, Rolete, que eu te vi com cachorro lambendo a cara, cheio de mosca.
– Tu num vale é nada.
– Conta logo, home, quem lhe contratou?
– Foi um tal de Sr. Frota.
– Vixe, Bago de Jaca?
– Oxe, por que esse nome?
– Melhor cê fica na ignorância… E tu num sabe quem é o chefe dele?
– Juro que não.
– É o cramulhão em pessoa…
– Quem?
– É Serafim, abestado – ouvindo o nome, parte do bar se virou em direção à mesa deles.
– O todo udo?
– Ele mermo. Se ligue.
– Oxe, tô de boa.
– Esse sítio fica lá perto da Canela dos Perdidos, né? Bocada da porra…
– Tu já foi lá?
– Eu? De jeito nenhum. Tu devia desistir.
– Oxe, tá variando? Dinheiro, trabalho mole.
– Dizem que ali teve coisa ruim.
– O povo de Pedra Velha aumenta tudo. Lá é tranquilaço.
– Cê que sabe. Eu avisei.
– Deixe comigo. Ói, vou nessa que tá na minha hora.
– Fale assim não, que atrai…
– Oxe, tome seu rumo, Chumbica.
Naquela noite, depois de várias, ele cochilou profundo no sofá do quarto verde diante da TV. Acordou ouvindo seu nome baixinho, no pé do ouvido: “Evilásio, Evilásio, acorde…”. Abriu os olhos devagar e quase pula no teto. Sentado junto a ele, um homem velho, bem-vestido. Tinha olhos claros, dentes muito brancos e uma cicatriz enorme do lado esquerdo da cabeça, perto da orelha. Evilásio ficou logo de pé, encostado na janela, arma na mão e tremendo. Quis saber quem ele era, o que queria, como entrou. O velho sorriu e disse que precisava de alguém com braço forte para cavar. Oxe, esse é tonto de tudo. Como esse véi entrou aqui, meu pai? Preciso parar de beber. Se o Frota me pega assim, babau.
– O senhor me acompanhe até a saída, por favor.
– Só preciso de um homem assim pra fazer um serviço. Né longe daqui não.
– Olhe, o senhor vá embora.
– Evilásio, me ajude.
– E como sabe meu nome? Me deixe, viu…
Mal o velho saiu, ele correu a casa toda, trancou o que podia e voltou pro quarto verde, já sem sono e cheio de perguntas. Nos dias seguintes não foi tão divertido. Só pensava no vacilo que deu pro velho entrar. Após mais uma semana, já passava das duas da manhã e ele estava acordado, limpando sua arma na sala. Quase caiu da cadeira quando ouviu um som agudo, uma melodia. Vinha do quarto azul. Carregou o revólver e entrou.
Não havia nada de estranho, mas ele ouvia a música bem baixinho, com clareza, às vezes misturada a um canto, parecendo hino de coral de igreja. Ele podia jurar que ouvia seu nome: “Evilásio, Evilásio…”. Que diabo é isso? Que porra que tão me chamando? E essa merda de musiquinha, véi? Revirou o quarto todo e não achou nada que emitisse aquele som, nem caixa de música que era o que parecia. Durou um pouco mais e parou. Aquilo se repetiu por vários dias. Ele, muito assustado, achando que ninguém ia acreditar, procurou Frota no dia seguinte.
– O que quer?
– Seo Frota, o trampo é bom e tal e coisa, mas eu desisto.
– Como assim?
– Num posso mais continuar. Tem umas paradas rolando aí…
– Sei, tem mesmo.
– O senhor sabe?
– Claro. Achou que não?
– É que eu num falei nada…
– Lógico. Ia se entregar?
– Achei que o senhor num ia aceitar.
– Não aceito mesmo.
– Mas é verdade.
– Eu sei que é. Como você vai resolver?
– Eu? Sei lá. Tenho nada a ver com isso. Só quero ir embora.
– Não tem? E vai sair sem prestar conta? Dr. Serafim não vai gostar. Você bebeu da adega dele.
– Oxe, num tô falando disso não.
– Mas é com isso que você deve se preocupar. Não irrite o homem.
– Eita e agora?
– Vá trabalhar. Vou pensar em uma solução.
Sem alternativa, Evilásio voltou ao sítio e nada aconteceu por uma semana. Só que não conseguia se concentrar, só pensava em resolver sua situação. Uma noite, depois de tomar umas e de novo sem aviso, ouviu movimento no quarto amarelo. Foi devagar. A luz atravessando a fresta da porta. Encostou a orelha e escutou voz de mulher: “Entre, Evilásio”. As pernas lhe tremiam, mas ele não conseguia fugir. Abriu a porta sem nem pensar sobre como aquilo aconteceu.
Vestida em um robe bege, sujo e surrado, uma mulher muito branca com um cabelo preto enorme que lhe cobria a face. Não era possível distinguir qualquer traço de seu rosto. Ela o convidou a sentar-se na sua frente na mesa de carteado, onde ela repousava suas mãos esquálidas. E então falou.
– Você ouviu o velho.
– Aff, a senhora conhece aquele homem?
– É meu pai.
– Graças a Deus. A senhora precisa ver isso aí, ele tava abilolado.
– Escute. Tenho pouco tempo. Meu nome é Gabriela e no meu livro você vai entender tudo.
– Seu livro?
– No quarto branco. Está lá. Vá de uma vez.
A ordem era por demais definitiva. Ele tinha medo, porém, não hesitou. Saiu direto para a varanda. Precisava respirar. Foi quando se tocou que deveria voltar e perguntar à mulher como ela tinha entrado na casa. Todo mundo entra aqui! Que porra é essa? Sou um vigia de merda. Entrou na casa de novo. A única luz acesa era a do quarto branco. Quem acendeu essa merda? A mulé num foi embora? Melhor apagar. Entrou, mas não desligou a luz. Foi até uma prateleira de livros e ficou ali olhando até que um livro caiu no chão e na página em que se abriu havia um papel dobrado. Evilásio pegou e viu o que estava escrito nele:
“Ouvimos eles conversando. Não passaremos de hoje. Eles vão nos matar. Estão rindo. Um deles falou que vão nos enterrar no pé da cajazeira no quintal. Papai está sereno, meu filho está quase morto, de fome e sede. Não passaremos de hoje”.
O bilhete tinha data de um ano antes. Chocado, Evilásio sentiu uma rajada fria lhe correr a espinha. Pela janela do quarto avistou a cajazeira. Abaixou-se, pegou o livro, fechou e o devolveu ao lugar vazio na prateleira. Na lombada estava escrito: “Gabriela”.
