Cyperus articulatus

Priprioca. O nome indígena batizava uma essência de aroma fresco, amadeirado e picante capaz de identificar seu portador a metros de distância. Tânia usava todas as manhãs e nem se dava conta dos rastros que deixava pelos pavimentos do prédio pequeno e sem elevador. Descia do quarto andar às seis e trinta e o contido espaço das escadas, os vitrôs fechados mais as rachaduras no corrimão ajudavam na fixação do vapor do perfume. Só poderia ser dali, do toque de outras mãos, que a essência da moça tinha ficado conhecida pelos vizinhos.

Ela nem tomava conhecimento. Muito distraída. Tão distraída que, certo dia, depois de chegar no trabalho, na hora de pegar os livros, deu pela falta das chaves. Todas elas. A do apartamento, da porta do prédio e do armário da escola. Ficou preocupada, mas precisava pensar nas aulas e no material trancado. Tratou do mais urgente com a chave reserva da secretaria. Ela ia encontrar. Na certa tinha esquecido em algum lugar da casa. Sua distração congênita era acompanhada de um otimismo também hereditário. Nem ia contar para o Cacá. Voltariam juntos e assim que ele abrisse a porta da sala, ia vasculhar cada pedaço suspeito: as gavetas, os bolsos, as bolsas, as roupas da lavanderia, o cesto de lixo e a geladeira.

Cacá já estava acostumado . Devia ter perdido outro anel, brinco, pulseira ou o recibo do condomínio. Na busca, Tânia só encontrou os fones de ouvido, duas lixas de unha e os cupons da pizzaria. Nada das chaves. Achou melhor tomar banho e pensar sob o chuveiro.  Ao toque no registro, conseguiu se lembrar. Já estava na hora de trocar o chaveiro de tecido encardido , lembrou das voltas na fechadura antes de sair para a rua. Que bobagem. A busca pela casa foi inútil. Tinha saído sozinha logo cedo. Cacá ainda estava dormindo.

Tânia se preocupou de verdade. Naquela noite, demorou para dormir. Pensava em alguém invadindo a casa e, ao mesmo tempo, planejava outra estratégia para não contar a Cacá. Ele a criticava por ser distraída e até por ser otimista. Sairiam juntos de manhã e Tânia voltaria um pouco mais tarde, depois que ele já tivesse chegado. Ia tocar lá debaixo. Dizer que a chave estava no fundo escuro da bolsa e pedir que ele abrisse pelo botão do interfone.

O plano deu certo. Que bom que consertaram o porteiro eletrônico. Cacá ia resmungar se tivesse que descer os quatro andares. Ao mesmo tempo que sentiu alívio, sentiu também que devia contar e contaria tudo assim que tomasse banho. Antes de ligar o chuveiro, ouviu a campainha. Distraída como sempre e mais distraída sem roupa nem estranhou a hora. Cacá vai atender. Entrou com tudo na água e se demorou com os cabelos. Muita massagem no couro cabeludo.

Desligou o chuveiro, secou o corpo e vestiu um roupão. Com a toalha enrolada nos cabelos, abriu a porta. Cacá esperava com um dos pés encostados na parede. Foi um susto. Ele balançava as suas chaves com a mão direita.

– Você achou?

– Você não me disse que tinha perdido.

 – Onde estava?

– O rapaz do primeiro andar, o músico cabeludo, recebeu de uma senhora que chamou pelo interfone. Você derrubou na calçada. Ele desceu para atender e ela lhe perguntou se conhecia o dono.

– Ele disse que sim?

– Isso mesmo! O cabeludo reconheceu suas chaves.

– Isto é brincadeira. Não tem nada que me identifique e nem o apartamento.

– O cabeludo disse que sentiu o seu perfume. Que o chaveiro de pano guardava uma essência e complementou perguntando:

-É priprioca, não é?

À noite, Tânia dormiu tranquila só com o cheiro de banho. O marido não.

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