O La Belle Beleza da rua Tatuí é cor-de-rosa da maçaneta da porta até o saquinho de lixo do banheiro – e das bancadas da podologia, e dos carrinhos de manicure, e da recepção.
– Tô me sentindo na casa da Barbie
– Chama-se acolhimento, Iara, – isso é a Pá, Paloma, gerente do salão. Ô desculpa, da belezaria – a gente recebe com amor. Qual é a cor do amor?
– Puxa, que demais
– Aceita um café, uma água? Quer uma balinha? – Paloma disse já com a xícara na mão. Uma mão com anéis do polegar ao mindinho, brilhava mais que o lustre de castelo do La Belle Beleza.
Iara vinha de uma sequência de salões de bairro, quase todos querendo pender pra belezaria, mas menos adiantados no caminho, sem o mesmo elã. Nenhum tinha lhe oferecido café, nem bala – das de iogurte, também cor-de-rosa. Ela creditou o upgrade ao curso no Santa Maria Goretti na Rio Branco. Metamorfoseou-se de pedicure pra podóloga. Aqui não é esmalte, lixa e acetona não. É bioética, biossegurança, higiene e profilaxia. Só ficou faltando a reflexologia podal por meio ponto, mas na prática, ela dá conta.
Recebeu o certificado de conclusão do curso numa quarta-feira. Negociou o meio ponto na competência da advogada que sua mãe gostaria que tivesse se tornado. Sim, tem talento. Soltou os currículos no mesmo dia. E na quinta ainda recebeu o telefonema de Paloma. Ela faltou ao expediente do Julia Hair alegando atestado. Passou a calça e a camisa brancas, que já estavam passadas, e caminhou 3,5km pra não se amassar no metrô.
– Açúcar ou adoçante?
No La Belle Beleza, as profissionais não usavam branco e Iara, quando entrou, se sentiu uma Susi, a não Barbie, quase aperta o botão interno da inadequação. Quase. Naquele dia, a cor não era erro, era escolha, tentou se convencer, higiene e profilaxia. Arrumou oportunidade pra enfiar as duas palavras em alguma resposta e voilá. Estava o branco justificado. Estava o período de experiência acordado entre as duas.
– Bem-vinda, Iara. Já estou até te imaginando de rosa. Vai realçar seu loiro. Tem cliente às 9h30. Preparada?
– Nasci pronta. Até amanhã.
Antes de voltar pra casa, passou na Renner da Paulista – ainda bem que os tons pastéis voltaram à moda – e depois no Julia Hair. No caminho, combinou consigo que não pediria as contas. Não precisa pedir nada a ninguém, desde menina. Comunicaria o desligamento, como eles dizem nos escritórios. Isso, desligamento. Entrou no salão cheia de sacola e confiança. Teria saído com a carteira já carimbada, isso se tivessem assinado qualquer coisa na contratação. Nem saber onde a carteira estava, Iara sabia. Era chegar em casa e procurar a danada, porque no La Belle Beleza eles assinam carteira sim. E tem mais, conhece plano de saúde e vale? Pois então. No caminho, uma mensagem para a mãe.
– E a chefe é uma fofa. Deus abençoe. Pois a senhora se arrume que vou lhe levar pra comer pizza de cogumelo. Três mil e oitocentos Reais, é mais do que Renata ganha, mãe. Que tal?
Renata, a prima advogada, foi convidada à pizzaria. Tia Arlete, mãe da advogada e madrinha de Iara também. Brindaram as quatro. No fim da noite, quando Renata encostou os cabelos de escova no travesseiro, e os pés de calo no colchão, odiou secretamente cada dia que frequentou a faculdade, cada chefe de cada estágio, cada página estudada para a OAB. Amanhã mesmo ligava no Santa Maria Goretti.
Iara acordou às 6h pra chegar no salão às 9h. O plano era achar a carteira, assistir ao vídeo que Paloma mandou, lavar, secar e trançar o cabelo, engomar a calça rosa, experimentar as duas blusas e eleger a favorita. Mas a mãe passou café, comprou pão doce de goiabada e requeijão Poços de Caldas. Comeram levinhas de conquista e de alívio. Deu pra fazer quase tudo, saiu às 8h30, tempo folgado de chegar no horário. Ela foi de metrô, mas segurou a onda em pé pra garantir o melindre da roupa nova – um papel toalha entre a mão e alça de segurança.
– Bom dia, querida.
– Bom dia, dona Paloma.
– Pá, meu bem. Aqui é como disse a sábia Veveta, na base do beijo, na base do amor. Venha, tire seu sapatinho, vou te mostrar os protocolos, – abriu a porta que ligava a recepção ao salão de atendimento e fez um gesto apontando para a sapateira – você prefere Iarinha ou Iaiá? Essa é a Candinha, a Van e a Amanita. – Candinha, Van e Amanita, em seus batons do exato mesmo tom – será que dividem um batom só? – pés descalços e sorrisos ensaiados, se enfileiravam de costas para o espelho, mãos escondidas como quem não quer mostrar algum segredo.
– Olá
– Bem-vinda
– Oiê
– Iaiá, pode tirar a meia, queri.
Higiene e profilaxia. Era o que girava sem parada na cabeça de Iara. Mas ela parou o giro, metade bêbada de três mil e oitocentos Reais, metade nutrida da inveja de Renata e do orgulho da mãe. Pisou o carpete sintético da Mattel enquanto ouvia as instruções de Paloma.
– Você vai ficar com as onicomicoses.
– Certo.
– Eu sei, as melhores gorjetas e os clientes mais longevos, sortudinha.
– Tem autoclave?
– Claro. Qualquer coisa esteriliza, mas também não esteriliza por qualquer coisa – ha ha has e he he hes, do coro – Já viu uma coleção de alicate dessas? Não parece coisa de dentista? No carrinho, alicates de todo tamanho tomando o ar que não deviam.
– Tá bacana mesmo. E as luvas?
– Pronto, amada, esse é nosso diferencial. A onicomicoselândia é um terreno solitário para os clientes. Eles sentem de longe o asco dos outros. Aqui não. Aqui, nós e eles tiramos os sapatos na recepção para que os pés pisem o mesmo chão. Pra que os pés se vejam. Conexão podal, sabe? Aqui, eles são tocados, massageados. Aliás, amei ver a reflexologia no seu currículo. A gente desenvolveu a La Belle Belezologia. Você viu o vídeo que te mandei, não viu? Uma massagem de unhas com unhas. Sem luvas. Há um fluxo de energia unhal, pouquíssimo conhecido. Essa técnica é indiana. Exclusiva nossa. Já reparou na unha do povo de lá? Coisa linda. A gente precisa aprender a não ter medo de contato.
Candinha, Van e Amanita faziam que sim com a cabeça. Iara mirou os pés das três, elas encolheram os dedinhos pra dentro, na coreografia automática dos portadores de fungos e micoses. Só aí ela se deu conta das mãos de soldadinhos, atrás das costas, desde o dia da entrevista.
– Iara, por favor comparecer à recepção.
– É o Sr. Gervásio, o das 9h30. Venha buscar, venha?
– Mas
– Sr. Gervásio, meu anjo, essa é a Iara. É ela que vai cuidar dos seus pezinhos. Mas foi mesmo? Espalhou? Minha gente, que cogumenlinhos amostrados. Isso tudo só pra conhecer Iaiá? Essa menina tem mão de ouro, Sr. Gervásio, pode confiar.
Na cabeça de Iara, ela num corredor de álcool gel. Não, embaixo de um chuveiro de óleo de melaleuca. Não, não, ela embaixo de uma cachoeira de Loceryl. Encharcada da voz do professor de microbiologia e parasitologia. Sr. Gervásio foi logo dando o pé pra ela tirar o sapato dele.
– Se importa, Iaiá?
– Imagina – chega saiu fina a voz da bichinha
O das 9h30 emendou com dona Ruth, Margô e o último Sr. Marcos, que satisfeito com o trabalho, alisou uma por uma as unhas contaminadas. Com a mesma mão tirou do bolso a carteira, lambeu o indicador e contou notinhas de R$5 para presentear Iara. Ele passou pelo corredor, calçou os sapatos e entregou o cartão para Paloma na recepção, “é de inserir”, “senha”. Os dedos, além de contaminados, lambidos, apertaram quatro números e o verde da maquininha. Não satisfeitos, apertaram também a mão de Paloma. Ela no mesmo ânimo que a apertou de volta, virou a plaquinha de fechado na porta e convocou a equipe para o almoço na feira.
– Hoje é por conta da La Belle Beleza, pra dar boas-vindas a Iaiá
Candinha, Van e Amanita soltaram u-hus e passaram uma a uma pela porta dos fundos em direção ao de carne, ao de queijo ou ao especial. Ninguém lavou as mãos. Iara se vestiu de gastrite e rumou pra barraca de tapioca. Ou pelo menos foi o que disse. Nunca mais tiveram notícias da então podóloga, hoje advogada.

