A coroação (de Carol Schettini)
Negueba era um homem mau. Bem mau. Também era bom. Bom, de vez em quando. Por isso, quando soube que uma bala virou fogo de artifício na cabeça do compadre, tratou de mandar subir o afilhado. Filho de reza é filho meu. A mãe do menino foi embora mais rápido que poeira. Não sabia se sabiam que ela tinha visto quem foi, se foi, o que foi. Foi-se. Patrick subiu para a cobertura do morro. Com laje, vista para a praia e até piscina.
Negueba achou bom o menino ficar uns tempos sem ir à escola. Escola pra quê? Patrick juntava as letras, dava para ler cartaz de procura-se, dava para ler nome dos outros, ia ler um romance, por acaso? E somava e subtraía sem colocar um numerozinho sequer no papel. Contas e mais contas. Tudo na cabeça. Não errava um centavo. Se tivesse nascido de terno e gravata em vez de chinelo amarrado com liguinha, poderia dar carreira de doutor.
— A professora pode perguntar por mim. — Patrick disse quando lhe impediram de descer e ir à aula. Nunca perguntou. Era aluno de mais para escola de menos. Se faltou, sumiu, paciência. Não ia ter conselho tutelar que saísse da salinha do ar condicionado para bater perna no sol atrás de filho de traficante morto. Epa! Alguém confirma a morte? Ninguém fala sobre isso.
— Vai por o menino pra vapor?
Negueba nem respondia. Vê se filho meu vai ser subalterno dos outros. Patrick seria bom de aviãozinho. Era ágil. Andava pulando de muro em muro. Tinha o dom de se esconder e ouvir atrás do madeirite.
— Vai pro caixa — ordenou Negueba.
— Que isso, Negueba? Todo filho de rico começa de office boy.
— Como tu sabe?
— Lá em casa tem revista de salão. Jô me conta. Filho de rico é tudo humilde.
Negueba quis ver a reportagem. Sentou na varanda, passou página e outra e outra e outra. Fingiu que lia entrelinhas, quando não enxergava vírgula do escrito no papel. Mal via as figuras. Culpa de um pouquinho de pólvora que se soltou e caiu dentro do seu olho. Ô ódio daquele morto. Se o morto não fosse já matado seria assassinado por um tempo a mais.
— Nunca vi tanta falseta.
— Filho de rico começa por baixo. Tá vendo, não?
— Pois aqui é filho de pobre. Filho de pobre começa logo na diretoria. Arruma um fuzil pro pivete.
— Um fuzil?
— Dá um AK 47. Dá logo.
E, assim, Patrick ganhou uma arma e uma ocupação. Antes, ele queria ser doutor. Doutor dos números. Quero mais não. Quero mandar no morro todo.
Patrick acordava tarde e passava o dia sentado ao lado de Negueba, fazendo contas, ouvindo o padrinho brincar de Rei Salomão. Chegou ao ponto de tirar o bebê de uma e entregar o mesmo bebê para outra. Não sem antes dar uns tabefes na falsa mãe. Negueba começou a treinar Patrick. Dá um tapa ali, coloca a arma na cabeça daquele para fingir. Patrick achando uma beleza. Ele não conhecia aquele povo. Antes de ser adotado, nunca chegava lá em cima. Ninguém ali frequentava sua casa quando morava com a mãe. Era tudo gente estranha. Negueba começou a passear e deixar Patrick sentado no trono dando ordens. Patrick tinha o dom. Começou a fumar e adorava apagar o cigarro nas mãos dos ladrõezinhos, nos braços dos atrasados e assim por diante. Dava para contar quantas vezes havia aborrecido o patrão pelo número de círculos na pele de alguém. Até aparecer Cesinha. Cesinha, antes de ser Cesinha, antes de Patrick subir ao morro, era seu amigo. Seu irmão de pobreza. Irmão de sangue de Jandira.
— Aí, chefia. O malandro tava passando bala por fora.
Passar bala por fora era grave. Falta grave.
— Sem visão. Vai pagar como?
Patrick olhou para Cesinha todo roxo. Havia levado uns sopapos antes de chegar lá em cima. Fato. E agora? Negueba estava por perto, viu o aperto de Patrick, problema dele. O moleque não quer ser dono do morro? Bem-feito. Ser chefe não é só cercadinho de baile funk não. Patrick calado.
— Paga amanhã. Ou tu morre.
Negueba deu a sentença. Cesinha correu.
— Vai ser o primeiro teste pra tu.
Negueba disse a Patrick. Patrick aprendeu a meter fogo em folgado. Passar faca em quem não lhe dava o respeito. Marcava com cigarro igual gado por diversão. Mas, Cesinha. Cesinha era gente dele. Patrick se escondeu pelo resto do dia para não verem seus olhos vermelhos e inchados. Não por droga. Por choro. Negueba dando pelo sumiço de Patrick, foi atrás do afilhado.
— Tem essa não. Não tem amigo. Tem tu.
— Mas, padrinho, Cesinha é.
— Não é. Quem manda em tu sou eu. E eu tô falando. Cesinha paga ou tu paga pra ele.
Negueba deu um tapa na cara de Patrick.
— Quem manda aqui sou eu!
A dívida de Cesinha foi trocada por Jandira e Jandira foi parar no quarto com Patrick.
— Tá pensando porque mora em casa de tijolo é melhor que nós. Tu é pobre igual nós, Patrick.
Jandira não tinha medo dele. Não foi Patrick quem colocava a mão em suas costas e dizia que iria protegê-la? Para toda vida, ela se lembra bem. Patrick abraçou a amiga como se ainda estivesse lá embaixo, protegido do morro. Só que Jandira perdeu. Patrick ganhava poder e tinha poder sobre Jandira. Patrick não namorava com ela e ela não podia namorar ninguém.
— Fala, piranha, foi ele que seguiu tu? Foi ele?
— Não tenho certeza.
— Foi ele, piranha? — Patrick insistia, alternando sua arma na testa do rapaz e na testa de Jandira.
— Não sei.
— Fala piranha, a bala vai pra ele ou vai pra tu?
Jandira olha para cima. Patrick não está brincando. Ele teria coragem de colocar uma bala na cabeça da sua Iaiá? Teria? Jandira arregalou os olhos, uma febre falsa de quarenta graus tremia seu corpo. Ela tampou os ouvidos apagando o barulho em volta. O ar plastificado a impedia de respirar sem esforço. Havia Jandira. Havia Patrick. Só para os dois corria o tempo.
— Pra ele ou pra tu, piranha?
— Pra ele.
Dizem que quando algo morre em um lugar, nasce em outro. Morreu a esperança em Jandira e nasceu a certeza em Patrick.
Com as subidas e descidas, com as artimanhas e espertezas, Patrick foi crescendo e antes dos vinte anos já era temido. Ficava na boca o dia todo. Fazia as contas, dava as punições, controlava todo o esquema. Modernizou o tráfico, trocou a fedorenta cocaína por balas inodoras, construindo um laboratório dentro da favela. Queriam um emprego, uma ajuda, uma bala? Patrick resolvia.
Patrick teve sorte. Se o pai não tivesse morrido, a mãe não sumisse sem ele e não fosse Negueba padrinho, tudo poderia ser diferente. Ficaria estudando, morando de favor na casa de Jandira ou de algum outro vizinho, trabalharia por trocados e nunca saberia armar um revólver, não saberia a diferença entre um fuzil de assalto e um fuzil profissional.
— Se mandar os pivetes de bate-bola pode dar ruim — disse Negueba ao ver as fantasias de cetim e perucas chegarem como banana em penca no alto do morro. Negueba gostava de distribuir droga no carnaval no mano a mano. Patrick vendia em aplicativo de mensagem, dava preferência a clientes fixos e agora inventava de fantasiar pivete para distribuir droga em blocos de carnaval.
— Quem inventou essa moda? Já trocaram refri por balinha!
— Eu tô inovando tudo aqui.
— Te trouxe pra cima moleque, cadê respeito? — falou Negueba empurrando Patrick pelo peito.
— Respeito? Guardo pra morte.
Patrick rebate, batendo em cima da nova tatuagem, desenhou a carta de tarot no antebraço. Negueba levanta e encara Patrick. Patrick mais novo, mais alto e encorpado, sua pele com viço, brilha, o suor fazendo vezes de bronzeador. Os dois portam armas de alto calibre, os dois passaram horas treinando juntos pontaria e rapidez. Uma onça-pintada lutando contra um guepardo. Os dois se encaram olho no olho. O olho preto e branco de Patrick encara o olho amarelo de Negueba.
Não vai teatro nem filme de bang bang. Negueba leva a mão ao pescoço, tira o cordão de ouro em que está pendurada uma chave e entrega a Patrick como o sinal da sua coroação. Patrick sobe no alto da escada, levanta o fuzil e confirma:
— Quem manda aqui sou eu!
