Assentamento

(Leticia Eboli)

“Filha, posso dar uma passadinha aí? Comprei um negócio pra minha neta” 

“Ainda não estou em casa, mas pode ir que já chego.” 

Na portaria, ele me esperava sentado ao lado do porteiro rindo debaixo pra cima com seus dentões de coelho. 

“Olha, que graça” – falou se levantando com cuidado da pequena cadeira amarela.

Uma única cadeira, de madeira laqueada, encosto reto e ângulos bem resolvidos. 

“Tava na promoção, na vitrine daquela loja de móveis bacanas no prédio do trabalho. Só tinha essa”. 

Achei fofo, depois nonsense. Hoje penso, talvez já fosse o câncer. 

O que se faz com uma cadeira apenas? 

Decide a cor do quarto da neném: amarelo-cadeira. Usa como suporte de Hipoglós e algodão umedecido. Transforma em canto pra fazer a filha pensar. Carteira na brincadeira escolinha. Purgatório de brinquedos, onde a Barbie o ioiô partidos aguardam ansiosos enquanto seus destinos são avaliados. Até que a peça vira a cadeira amarela do conjunto de mesa e duas cadeiras rosas, também de criança, no quarto entulhado de pandemia. 

“Amiga, pensei em dar para as meninas a mesinha e cadeiras da Nina.”

“Nossa, vamos adorar”. 

Nos mudamos para os EUA e a cadeira para Teresópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro.

Às vezes, chove um tanto de saudade. Do meu pai, da maresia, da versão mini da minha filha. Imagino o coletivo de saudade sendo a nostalgia, que me leva a catar na unha memórias. 

“Filha, se senta aqui.” – Falei apontando para a cadeira da nossa mesa de jantar, com assento verde-amarelado, enquanto fechava o computador. 

“Teve um caso de piolho na sua sala. Deixa eu olhar sua cabeça”. 

A ponta dos pés já alcançam o chão, uma afronta a menina de quase 8 calçar 32. 

Na manhã gelada de sábado, depois do alarme falso de piolho minha filha dispara reagindo à conversa que tinha escutado há pouco entre o pai e eu:

“Mãe, vai! Você adora livro, conversa e passear”

Me vesti de mil camadas para enfrentar o frio de janeiro. Lá fui eu no banco do carona até a estação onde peguei trem, seguido de metro. Numa estranha coincidência, desci na plataforma com ladrilhos desenhando na parede uma imagem do James Baldwin, tema das discussões das próximas semanas do clube do livro de Begin Again, ensaio do pesquisador Glaude Jr sobre o escritor e ativista. 

Na capa vermelha do título, James Baldwin sentado em uma cadeira de madeira com as pernas cruzadas tomando o que parece ser um chá, cercado de três cadeiras vazias. Na sala no segundo andar do Bronx Museum, a roda de cadeiras pretas com pés de metal ia se preenchendo de pessoas com olhares encasacados de timidez.  

Três encontros depois, a intimidade nos permitiu povoar os assentos de papel do livro. Entraram Audre Lorde, bell hooks, Michele Wallace. Eu convidei o Ailton Krenak. Como grupo, sentimos falta no livro de Glaude Jr. da abordagem de pessoas e temas importantes relacionados à luta de Jimmy. O ensaio não se limitava ao tempo cronológico de sua vida, muito pelo contrário, vinha até quase os dias de hoje discutindo como Trumps e Bolsonaros se multiplicam mais do que Gremlins após a meia noite. 

Desde então, venho copiando com lápis, caneta, guache as cadeiras da capa do livro e conversando com pessoas sobre quem colocariam em suas cadeiras. Segundo o próprio Baldwin, “o mundo é mantido íntegro pela paixão e amor de pouquíssimas pessoas”. “Talvez você conheça cinco ou seis e já é o suficiente.” 

Esse exercício de assentamento se fincou com quatro pernas em mim. Além da pesquisa sobre esses “poetas da revolução”, fiquei obcecada por desenhar again and again a imagem da capa do livro escavando em meu cérebro de baixa gramatura uma seção “cadeiras”. 

A cadeira de escritório abandonada ao final do expediente do bicheiro no caminho entre escola-casa na adolescência em Copacabana. Cabra, como a apelidei nunca estava exatamente no mesmo lugar, pairava ao redor da banca de jornal.

A cadeira de madeira clara caída ao lado do sinal no chão de Los Angeles. Parei e a foografei de todos os ângulos. Depois me perguntaram: por que não sentou a cadeira? 

A cadeira de balanço farta com couro gasto e tachinhas de metal, velha amiga do suco de tomate, na casa da minha avó. 

A cadeira do posto de saúde onde minha mãe se sentava agarrando o meu braço para não fugir. 

As cadeiras da série da Netflix onde a família do personagem principal tem uma galeria de arte de cadeiras produzidas com modelo das bundas deles. 

A cadeira da viúva no cemitério, na tristeza que se senta curva. 

A cadeira que nasce das curvas do caminho do trem. Experimente desenhar trilho de trem. Aquele desenho bem clássico: duas linhas grossas paralelas cruzadas por pares de linhas perpendiculares. Cada par de linha atravessada gera um encosto perfeito para o desenho da cadeira de Baldwin. 

Fiquei obcecada pela imagem de uma cadeira parada em cima do trilho do trem. Poderia chamá-la de cadeira de estar? Ou aquele assento já seria um caminho em si? 

No exercício de pintar a cadeira do livro, pintei também a ausência dela. Coloquei o papel com a sua silhueta grosseiramente recortada em cima de um papel em branco e fui colorindo com tinta vermelha, quase marrom, apenas ao redor. Ao final, retirei a cadeira e sobrou um vazio, que na pintura e recorte apressados, pouco lembrava a cadeira. 

Fui levar a minha filha para a escola e no caminho vimos um esquilo entrar numa árvore. Na volta, já sozinha, parei em frente ao local de novo. Estava diante do vazio entocado no meu olhar. Disfarcei minha presença ali, me apoiando no tronco tirando uma pedra fictícia do meu tênis. Olhei para dentro do buraco. No lugar de esquilo, uma caixa de fósforos. Dessas clássicas da época em que eu cabia numa cadeira amarela, quando meus pais colecionavam caixinhas de fósforo de souvenir de restaurantes, hotéis e descobri que depois também de motéis. 

Conto 8 fósforos daquele tipo chatinho, cobertos de pedaços de folhas e fuligem, em cima do que deve ser sua capa ou cinta de papel onde consigo ler “Match Box | Strike on Cover.”

Nunca tive coragem de fazer queimar.

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