Crer para ver – Yan

Na van, o ar condicionado no quente se concentrava para desembaçar os vidros, mas não podia fazer nada com a neblina do lado de fora. Não era possível ver as outras serras que cercavam aquela serra e a umidade de estar dentro de uma nuvem não bastava para retirar a sensação de ter um serrote seco nas narinas. Na van, o ar condicionado no quente se concentrava nos vidros, as pessoas tiritavam de frio e tiritaram mais um tico quando o motorista estacionou e abriu o trinco do veículo. Doralice desceu da van, fez uma festa nos olhos por conta de um resto de sol frio, viu a paisagem pelo trinco dos óculos e constatou: a vista era um presente de Deus.
Mais um presente, entre tantos: uma mar de morros sem barraco, só árvores e nuvens; um clima europeu de montanha a uma hora e meia de carro do seu sol de maçarico em Bangu; e um trabalho que caiu de um canto celeste do céu exatamente quando a mãe caiu pela décima vez no meio da rua por falta de dinheiro para operar a catarata. Doralice, de calça jeans, gorro achatando os cabelos e com o casaco mais grosso que tinha e que ali parecia mais fino que canga de praia, estava grata. Tanto, mas tanto, que não deu atenção às pessoas que passavam de bata, turbante na cabeça e colares de contas no pescoço. Sim, porque o Senhor lhe dá as pedras no caminho para construir seu castelo. Sim, porque o Senhor colocou em seu caminho a oportunidade de trabalhar num palácio.
Ela andou pelo caminho de paralelepípedos, cercado por um lago mimoso com patos gordos mimados a farelo de pão de ló, até o maior casarão que já tinha visto na vida: o Palácio Quitandinha, a jóia plebeia de Petrópolis. Parecia uma cabana saída de filme da Disney, mas uma cabana de gigantes. Três grandes torres brancas com madeira marrom entalhada. Depois, Douglas, seu vizinho que carregava e descarregava os caminhões e a indicou para o trabalho, lhe contou que aquela era uma cabana de bacana, inspirada na arquitetura alemã, coisa de alto nível. E mais bacana era seu interior, imitando a Hollywood dos anos quarenta, coisa de cair o queixo.
“Por que tem uma grade de portão no meio do salão?”, Doralice perguntou enquanto limpava as lentes do óculos com uma mão e carregava a mala com a outra. Os dois entraram em um elevador antigo com grades douradas.
“É o portão da jaula, ué”, Douglas disse. “Claro que não era pra bicho. As dançarinas ficavam ali dentro quando isso aqui era um cassino”.
“Misericórdia, garoto. Tu jurou pra minha mãe que eu ia trabalhar num centro cultural do Sesc, só por isso ela deixou”. Doralice disse e olhou de lado para o risco na sobrancelha de Douglas.
“Já foi um cassino, um clube, um condomínio. Agora o Sesc comprou a parte dos salões. Eu não sou caôzeiro não, garota”, Douglas disse e sorriu, fazendo o risco da sobrancelha se mexer.
O elevador parou e a grade se abriu com um rangido. Os dois caminharam por um corredor estreito, escuro e torto, com papéis de parede com listras verticais em preto e branco. As paredes fizeram Doralice se lembrar do desenho Beetlejuice, sobre um fantasma de terno preto e branco que aparecia quando as pessoas repetiam seu nome três vezes. Ela assistiu três episódios e depois sua mãe se converteu e a proibiu de ver: conjurar alguém chamando seu nome três vezes é coisa do demônio. Na época Doralice não entendeu, porque elas iam ao terreiro no final da rua quando faltava comida em casa e lá sempre se gritava para chamar as entidades. Mas a mãe se converteu, as duas se batizaram e a época de terreiro era um segredo que ninguém da igreja sabia. Olhando para o papel de parede preto e branco, ela pensou no desenho do fantasma, pensou ter ouvido atabaques e se benzeu três vezes.
 “Pronto, tá entregue. A menina que divide o quarto contigo é maneira, qualquer dúvida tu pergunta pra ela”, Douglas disse e parou em frente a uma das muitas portas do corredor.
“Vem cá, que barulho é esse?” Doralice perguntou.
“São os músicos passando o som pro show”, Douglas disse e deu as costas para ela, que soltou a mala no chão.
“Douglas, tu me trouxe pra trabalhar em show de macumba?”, Doralice disse.
“Trabalho é trabalho, e esse aqui é moleza”, Douglas disse enquanto seu cabelo platinado e sua pele marrom e sua sobrancelha riscada sumiam no corredor torto. “Não vai vacilar, é o meu que tá na reta, hein”.


A lua brilhava por trás da neblina, o ar seguia seco, Doralice sentia os pés gelados e se tremia toda. Menos pelo frio e mais pela fadiga da função. Foi até a área externa do palácio para tomar um ar e logo se arrependeu, porque havia um monte de funcionários fumando cigarros e até maconha. Ela tapou o nariz e andou até a porta para engolir o resto de suas obrigações até o fim da noite. 
“Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo, dai-me forças”. Ela repetiu o nome três vezes e apareceu do seu lado a menina que dividia o quarto com ela, de nome Aparecida.
“Ah, achei a bonita!”, Aparecida disse. Ela tinha um cabelo como o de Doralice, porém livre de gorro, mais hidratado e com mais volume. Trazia um colar de contas vermelhas e pretas no pescoço e um canudo de papel marrom na boca. “Tá tudo bem, preta?”.
“Tá sim, Aparecida”, Doralice disse, “só sai pra respirar um pouco”.
“Me chama de Dinha, pelo amor de Deus”, Dinha disse e tirou o canudo de papel dos lábios. “Só minha mãe e o chefe me chamam assim. Mas é bom mesmo tomar um ar, aqui tudo é muito carregado, né?”.
Doralice fez que sim com a cabeça.
“Quer dar um doiszinho comigo pra relaxar?”, Dinha perguntou e levantou o canudo de papel marrom em uma das mãos.
Doralice fez que não com a cabeça.
“Hum, já saquei. Pode ficar tranquila que não vou fumar dentro do quarto. Mas ó, vou acender um incenso, tá? Esse lugar tem uma história pesada, suicídio, assassinato, teve até uma convenção do partido nazista, sabia?”, Dinha disse.
Doralice não mexeu a cabeça nem nenhum músculo do rosto, só piscou algumas vezes.
“Tá, vai lá, gata. Quando o show acabar, vê com a Juçara se ela precisa de alguma coisa”, Dinha disse, colocou o canudo de volta nos lábios e caminhou para perto do lago. “E não esquece: o show não chama Voz das Mulheres Negras? É pra gente. Assiste lá e aproveita”.
Doralice entrou no palácio e foi para o teatro pela entrada dos bastidores. Olhou para o palco e viu, de costas, a tal Juçara. Era uma mulher com idade e aparência de sua mãe, com um sorriso bonito como o de sua mãe, e que falou com ela com um tom carinhoso como o de sua mãe. Mas as semelhanças paravam aí. Juçara cantava no meio do palco, segurava o microfone com uma mão e com a outra dançava como se cortasse alguma coisa no ar. Um esporro ensurdecedor de batucada e guitarras e a mulher gritando no microfone com a mesma energia que sua mãe gritava nos cultos para expulsar os exús das pessoas:
“São João Batista é Xangô
Ele é dono do meu destino até o fim
Se eu perder a fé no meu senhor ele rola a pedreira por cima de mim
Ele rola a pedreira por cima de mim
Ele rola a pedreira por cima de mim”.

Doralice se tremia toda, menos pelo frio e mais pelos atabaques que batiam cada vez mais rápido e mais forte e as montanhas de todas as serras de Petrópolis pareciam que iam rolar. Ela tremeu, tremeu, rolou no chão e apagou. Acordou na cama do quarto, olhou para o lado e não viu Dinha. Na mesinha de cabeceira ao lado da cama, encontrou seus óculos com uma das lentes mais trincada que antes. Pegou o celular, espremeu os olhos frente a tela e ligou para a mãe. Doralice quis perguntar para a mãe se ela achava que o povo do terreiro podia ter jogado praga nelas depois que se converteram, mas não perguntou. E quis contar a verdade sobre o trabalho e se deveria desistir e ir embora, mas não perguntou. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a mãe disse que tinha orgulho dela e que mal esperava a operação para poder ver direito os olhos da filha. Doralice pediu a bênção, desligou e viu tudo ficar embaçado e molhado e salgado.
Doralice estava exausta, mas o trabalho era fácil. Organizar os bastidores e ver se as cantoras precisavam de alguma coisa, levar água, limpar o espelho do camarim, moleza mesmo, como Douglas disse. E pagava por três noites de show mais do que ela ganhou como produtora durante os três meses que trabalhou para uma banda gospel que seu pastor indicou. Três noite ouvindo macumba para sua mãe poder voltar a ver direito. Mas o problema não era só ouvir, ela tinha medo de logo começar a ver coisas.
Dinha abriu a porta, Doralice espremeu os olhos e viu a cara de preocupada e os olhos vermelhos da colega de quarto.
“Meus Deus, preta, o que aconteceu?”, Dinha disse e pôs a mão em seu rosto.
“Nada. Acho que a pressão baixou só, não comi direito”.
Dinha entregou um pedaço de chocolate para Doralice e tirou um incenso da mala.
“Come, peguei no catering pra você”, Dinha disse, tirou um isqueiro do bolso e acendeu o incenso. “Falei que esse lugar é carregado, cheio egum. Sabia que aqui tinha uma sala que os endividados do cassino iam pra se matar?”.
Doralice comia o chocolate em silêncio.
“Já falei do nazista né? Tinha também um pastor que vinha rezar a alma dos suicidas e depois abusava das camareiras. Claro que aqui tá cheio de encosto cristão”, Dinha disse e caminhou sacudindo o incenso pelos quatro cantos do quarto.
Doralice engoliu o chocolate com dificuldade, tossiu e espantou a fumaça com a mão.
“Cristão não encosta em ninguém. O problema é essa batucada, ficar chamando um monte de nome o tempo todo, é claro que uma hora aparece.
Dinha fechou a cara e abaixou o incenso.
“Você acha que passou mal por causa dos pontos? Querida, quem te dera”, Dinha disse a apagou o incenso.
Doralice se levantou e jogou o resto do chocolate na cama de Dinha. 
“Pode apagar mesmo. Só tem uma coisa que corta essa energia, a Bíblia. Infelizmente eu esqueci a minha, mas foi pra aprender!”, Doralice disse e saiu batendo a porta.

Aquela conversa tinha sido um sinal. Iria embora no dia seguinte e o Senhor proveria outra solução para a catarata da mãe, não precisava daquelas migalhas. O próprio Senhora foi tentado pelo demônio, viu coisas, mas prevaleceu, Doralice pensou. Enquanto pensava, não deve ter visto o elevador, porque seguiu reto pelo corredor torto e se perdeu. Não sabia onde estava, não conseguia ver o número nas portas do quartos, as paredes em preto e branco iam ficando mais estreitas como se fossem cair sobre ela. Doralice ouviu passos, não via quase mais nada, seus óculos caíram no chão e terminaram de trincar. Tremia inteira, sentia o chão tremer também, sentiu um vulto se aproximando, se ajoelhou no chão e juntou as mãos.
“Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo”.
Doralice sentiu uma presença fria para na sua frente, colocou os óculos e abriu os olhos pronta para ver um homem preto de capa preta. Abriu os olhos e, pelo trinco das lentes, viu um homem branco cadáver, com uma roupa preta com uma suástica no braço e um crucifixo no pescoço.
“Preta sem fé”, o homem grunhiu com um bafo de enxofre, estendeu a mão e tocou os olhos dela. Doralice não viu mais nada.

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