
A teta racional
Estou trancada no banheiro da agência ordenhando. Ajeito a peça plástica em volta do mamilo, aperto a válvula com força, vejo o leite esguichar pela cânula e cair dentro da mamadeira. Eu poderia fazer isso de olhos fechados. Poderia fazer isso de olhos fechados assobiando o hino do Brasil. Faço isso quatro vezes por dia, cinco vezes por semana.
Depois guardo a mamadeira na geladeira da copa e, à noite, volto para a casa carregando os frascos a tiracolo, como um entregador de leite. No dia seguinte, a babá serve tudo para o meu bebê.
O meu chefe bate na porta e pergunta se vou demorar. Mais uns dez minutos, eu digo. Jogo a cabeça para trás, fecho os olhos e tento mentalizar coisas que despertem o meu amor, porque uma amiga me disse que o amor estimula a produção de ocitocina e isso faz o leite fluir mais rápido. Penso no meu bebê, nas covinhas dele, e começo a sentir um negócio no peito, um negócio que me deixa toda animada porque é forte, funcional, produtivo, um amor funcionário do mês que vai estimular o meu corpo todo, e já sinto os dutos se enchendo de novo, a válvula chiando, a peça plástica pressionando, o leite esguichando, um barulho ritmado, um cântico de adoração à teta, tchof tchof tchof, e então o babaca do meu chefe bate na porta de novo pedindo que, quando eu sair do banheiro, vá direto para a sua sala.
Meu mamilo brocha. Eu juro por Deus, ele brocha. O bico, que estava duro, amolece e se retrai, deixando clara a sua recusa de trabalhar em tão precárias condições.
Puxo-o para fora, mas, como se fosse revestido por uma mola, ele volta para dentro.
Lembro de uma cena que vi um dia. Uma cadela estava deitada na calçada, amamentando. Os filhotes se revezavam nas tetas. Uns mamavam, outros brincavam com uma lixarada jogada ali perto. Quando eu estava voltando para casa, vi a cadela deitada no mesmo lugar, as oito tetas esparramadas, alguns filhotes mamando, outros brincando, tudo igual, com a única diferença de não estarem mais sob a luz do sol, mas de um poste.
Eu limpo o mamilo, guardo a teta, fecho a blusa, solto a trava de segurança, desrosqueio a válvula, tiro o receptáculo, desencaixo a cânula, derramo o leite num frasco, anoto a data num adesivo, colo no frasco, esterilizo as peças, guardo tudo na bolsa de amamentação e saio do banheiro.
No caminho para a sala do meu chefe, paro na copa e guardo o leite na geladeira.
Depois olho no relógio: sete e meia da noite, hora de eu ir.
A porta da sala dele está aberta e eu entro, dá licença, você quer falar comigo?
Meu chefe diz que sim. Sabe aquele cartaz de Natal que você fez para o shopping? Eu faço que sim com a cabeça. Pois é, eles não gostam da foto do Papai Noel, acham que o velho tá muito… murcho. Penso em dizer que todos os velhos são murchos, é uma commodity da categoria, mas nem perco meu tempo. Digo tudo bem, amanhã troco a foto. Meu chefe diz que não, tem que ser hoje, o cliente quer ver o cartaz pronto o quanto antes. Lembro ao meu chefe que o Natal é em dezembro e estamos em junho, por que a pressa? Ele me diz que sabe em que mês estamos mas todos os lojistas precisavam aprovar o cartaz. Levando em conta que são cem lojistas, até dá para entender a urgência, não é mesmo? Não digo nada, só baixo a cabeça.
Olho para os meus pés num par de sapatos e, com tristeza, constato que não sou uma cadela. Digo ok, pode deixar que eu resolvo.
Já estou saindo da sala quando ele me pede para fazer um favorzinho, já que estou de pé, já que vou passar pela copa mesmo. Que eu traga para ele uma xícara de café com leite, com duas gotinhas de adoçante, se não é pedir muito.
Vou até a copa. Pego uma xícara, coloco na máquina, aperto o botão.
Enquanto a engenhoca rosna depurando o grão, abro a geladeira e fico olhando para os meus frascos, para o líquido quase amarelo de tão denso, para os riscos que marcam os mililitros. Pego o último frasco que guardei, o leite ainda está morno. Despejo um pouco na xícara.
Acrescento as duas gotas. Depois vou até a sala do meu chefe e entrego a xícara para ele, que diz obrigado e dá um gole. Eu pergunto tá bom? Tá ótimo, ele fala. Digo que bom, fiz com carinho.
Close reading
O conto tem uma estética minimal: narra na primeira pessoa, usa poucas descrições, muito básicas, mal nomeia seus personagens. Está estruturado em duas cenas: a ordenha e a conversa com o chefe. O registro é irônico mas suave. Melhor diria mordaz.
O texto encerra uma pegadinha moral embutida que é muito engenhosa. Uma mulher, funcionária de uma agência de propaganda, é explorada pelo chefe. Ao mesmo tempo, é explorada pelo filho – está em fase de amamentação, precisa guardar o leite para dar a ele depois do expediente. O chefe a obriga a ficar mais tempo no trabalho do que ela gostaria. Não contente com isso, a obriga a fazer trabalhos humilhantes, como transformá-la na moça do cafezinho.
Quando ela vai pega o café para o chefe, vê o leite que tirou para dar ao filho guardado num pote na geladeira. Não tem dúvida: coloca duas gotas do próprio leite no café do chefe. Que gosta. Ela fica feliz, pois fez com carinho.
A ironia muito sutil vem na última linha, que amarra o texto todo. Ao dar seu leite para o chefe, a narradora endossa a sensação de estar sendo explorada – como uma cadela é explorada por seus muitos filhos. Quando lhe dá o leite, no entanto, também faz do chefe um filho. É uma maneira de a narradora, discretamente, lhe passar a perna. Uma vingança simbólica.
PROPOSTA
É isso o que você vai fazer: vai descrever uma relação em que um ser humano é explorado por outro ser humano. A história do mundo, como sabemos.
Mas você vai criar uma vingança. Mas uma vingança sutil. Não pense em nada óbvio. E principalmente: não pense em nada violento.
Procure pensar nos meandros da exploração. Nem sempre esta exploração é direta. Nem sempre esta exploração é percebida pelo explorado, ou mesmo pelo explorador. Às vezes a exploração é simplesmente o status quo.
Faça com que o explorado demonstre afeto pelo explorador, e vice-versa. (Há muitos tipos de afetos.)
Seus personagens podem ser:
marido/mulher (ou marido/marido ou mulher/mulher)
amigos(as)
chefe e funcionário
dona de casa e empregada doméstica
senhor e escravo
professor e aluno
terráqueo e ET
guru e aprendiz
cliente e prestador de serviços
milícia e traficante
Use poucos elementos; seja minimalista e direto. Use cenas e diálogos. Preocupe-se com o enredo; não se prenda a detalhes, descrições e reflexões inúteis. E jamais use substantivos abstratos.
Narre na primeira pessoa.
Por volta de 4 mil toques (tamanho do texto da Giovanna).
