Azul bebê 

(Leticia Eboli)

Os dois ovos estalados eram a minha bunda, que se derretia gelada na superfície da mesa de exame. Isso pro si só seria uma provisória da certidão de óbito. Na mesa é onde nos acostumamos a colocar a natureza morta, no caso eu. De dentro daquele tubo, sob a tortura dos sons ensurdecedores do aparelho de ressonância magnética, podia mentir dizendo que se passava o filme da minha vida ou que percorria pensamentos corriqueiros de claustrofobia me imaginando numa cova. A verdade é que ali, mesmo sem espaço, minha cabeça formulava para duas divagações.

A primeira girava em torno da humilhação da minha bunda, que na velhice ficava frequentemente exposta na fresta dos aventais de hospitais e clínicas. Há alguns anos, tinha optado por cruzar a linha dos setenta magra, o que significava que de roupa e com um bom corte de cabelo eu até enganava. Não era o caso. Pelo menos para a minha bunda, nua e crua. 

A segunda vinha da constatação de que o fim da vida é imã de mágoas, ressentimentos e palavras em diminutivo, em especial como um eufemismo para nos dar ordens. 

“Senhora, por favor, coloque essa partezinha aberta do avental para trás”. 

“Pode arder um pouco a veiazinha por conta do contraste” 

O que eles pensam? Que sem colágeno meu cérebro havia virado slime de criança? 

“Agora fica bem paradinha”

Essa infantilização andava de mãos dadas com a percepção de que o corpo velho é um objeto, que pode ser levado do balde pro sol, como um pano de chão. 

“Qualquer emergência aperta o botãozinho” 

E assim o fiz. 

Quando pude enxergar a luz do teto, me sentei. 

“O que houve? A senhora está se sentindo bem? 

“Sim, apenas preciso me levantar.” 

“Importante que a senhora espere um minutinho porque caso se levante rápido pode estar ocasionando em tontura” 

Desobedeci, soltando a faixa que atravessava o tecido do avental com suas florzinhas azul cínico. 

“Não vou acabar de fazer o exame hoje” – falei, já sentada. 

“A senhora tem certeza? Vamos ter que enviar um relatório ao plano de saúde e é provável que a senhora não tenha nova autorização em breve.” 

Concordei com a cabeça apontando para a agulha por onde entrava o contraste. 

“Só um minutinho, que vou buscar o material para retirar”

“Sinto muito, bunda, que tenha passado por esse constragimento”. Desejei que ela recuperasse algum dia o formato minimamente arredondado. Combinei com o resto do meu corpo um inusitado pedido de desculpas, que ao mesmo tempo seria uma prova de fogo para os diminutivos que me agrediam dia após dia. 

Deixei o avental deslizar até o chão, caminhando nua pelos corredores do laboratório. 

“A senhora deixou cair o seu avental”. 

“Senhora! Senhora! Senhora!”

Ignorei as exclamações que agora pegavam no meu braço. 

“Pelanca não dói, pode puxar, minha filha” – Foi a única frase que falei para a enfermeira e segui andando. 

Se eu pagava plano de saúde era para ter lanchinho após esses exames em jejum. No balcão da cafeteria do laboratório pedi um croissant com geleia de damascos e um capuccino duplo. A atendente se virou às pressas para preparar. 

Peguei uma das cadeiras, e fiz a Madona, virando a parte do encosto pra perto da mesa. Me sentei de perna aberta roçando a minha boceta na base do encosto.  

Só escutava no ambiente o barulho das louças e máquina de café. “Nadinha, nem uma vozinha ou mesmo uma vózinha pra puxar assunto de doença” – falei com voz de enfermeira. 

“Obrigada”

Engoli tudo, exceto uma migalha colada na parede bem a minha frente: 

“Vacinas da melhor idade. Pergunte na recepção.” – Anunciava o banner azul celeste com a imagem de um casal de velhos. A mulher recebia a injeção, enquanto o homem segurava a mão dela fazendo um carinho na cabeça. Era muita desfaçatez. 

Meus mamilos chegaram a se enrijecer de raiva, se levantando como podiam para ler de perto “melhor idade”. Retirei aquela palhaçada da parede, arrancar coisas é a única vantagem de dedos de artrose. Em seguida, fiz a velha obediente me encaminhei à recepção. 

A segurança foi me seguindo, a uma distância segura graças a minha nudez flácida e a minha cara de rica.  

Mostrei o cartaz para a recepcionista. 

“Oi, Gláucia, como posso ajudar?” – falei lendo as palavras no broche preso no bolso terninho azul corporativo. 

“Pode me ajudar assim: devolvendo isso para os seus chefes” – rasguei grosseiramente o banner jogando os papéis picados sobre o balcão de Gláucia. 

“Senhora, senhora, a senhora precisa se retirar”. 

Subi calmamente para o cubículo onde estavam meus pertences, guardei a minha roupa na bolsa tipo carteiro, que coloquei atravessada cobrindo a minha bunda, ainda muito magoada. Calcei meus sapatos, pus meus brincos de ouro branco e topázios, ajeitei meus cabelos prata recém cortados num Chanel impecável, retoquei blush e batom. Saí. 

Poucas vezes me senti tão segura caminhando pelas ruas do Leblon, por onde andei altiva, olhando fixo para o horizonte, como havia aprendido nos meus tempos áureos de modelo. Uma beleza ninguém se aproximar pedindo dinheiro. 

Aproveitei para ir no caixa eletrônico do banco. A porta giratória travou e o segurança começou a falar comigo. “A senhora está infringindo as regras do estabelecimento. Vou pedir gentilmente para se retirar”. 

“Sou cliente de vocês bem antes de você nascer. Tenho dinheiro suficiente para que perca o emprego.”

“Senhora, por favor, entre e vá, por gentileza, até o balcão de atendimento da gerência”. 

“Ok”. 

Caminhei no sentido oposto, em direção ao caixa eletrônico. Peguei meu cartão, apertei o valor máximo por saque. 1500 reais. Notei uma presença atrás de mim enquanto mexia na máquina. 

“Dona Glória?”

“Dona Glória, a senhora está me escutando?”

Mesmo com o zumzumzum na agência reconheci o perfume de perfume de petúnias da gerente substituta, que tinha me destratado semana passada. 

“Claro, querida, pode vir aqui me dar uma mãozinha?” – falei de forma bem clara enquanto escrevia no monitor palavras em diminutivo usando a caneta Bic azul pendurada ao lado do caixa. 

“bracinho, aventalzinho, veinha…”

“Olha, a senhora está percebendo que está sem…” – disse já bem próxima a mim. 

“Nossa, não tinha reparado, mil desculpas. Só me faltava isso. Incontinência urinária”. 

Falei enquanto mijava em cima do scarpin de bico fino azul marinho. Lamentei a ausência de um pinto para desenhar com satisfação e ureia o movimento da logo em formato de i. 

“Já estou de saída. Obrigadinha”. Desviei da poça e apertei o passo, conferindo do lado de fora as notas, banco é danado pra enganar a gente. 

As pessoas seguiam desviando o olhar de mim. Reparo em especial que as mulheres no filet mignon da vida, na faixa dos 30 aos 50, me evitavam. Sabiam que pentelho branco, prega barriga-xoxota, ressecamento generalizado, peito muchiba estavam logo na esquina, bem perto do momento do acerto de contas da vida. 

Assim era eu na caixa do supermercado, com um kinder ovo na mão, que resolivi comprar rapidinho pra minha neta caçula. “Um chocolate, um brinquedo e duas surpresas”, me diverti sozinha com os olhares atônitos vindos das gôndolas. 

“Dona Glória, está tudo bem com a senhora? O povo não ta preparado pra isso não” 

“É, Cida, tô cagando pro povo. Não aguento mais as pessoas tratando velho como bebê. Resolvi ser velha como velha tem que ser. Livre”. 

Cida é uma caixa gente boa demais, agilizada que só. Tínhamos a mesma idade, compartilhamos fotos e elogios aos netos, reclamações dos filhos e o ódio ao caixa preferencial, sempre o mais lento do mercado. 

“Toma, Cida, fica com o troco” 

“Obrigada, Dona Glória. Deus lhe pague”. 

Mandei um zap pra Neuza, babá da minha neta, combinei de deixar o mimo na portaria. 

“Vovó, quis fazer uma surpresa!. Vovó?? Cadê a sua roupa?” 

“Oi, minha netinha querida! Olha o que a vovó trouxe pra vc levar de lanche pra escola!” – entreguei o kinder ovo. “Não conta pra sua mãe, hein?” 

“Pode deixar, vovó”. Falou ela, abrindo a mochila e me emprestando o seu casaco azul escola, que por consideração a ela pus sobre os meus ombros. 

Atrás da pilastra, observava a Neuza no telefone. Dei um beijo na minha neta e saí colocando o celular no modo avião. 

O céu azul brigadeiro merecia ser voado em vida. E eu ainda tinha uma bunda inteira pra desamassar.

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