Acordei meio bêbada de anestesia e perguntei pro povo da sala: passei por média? Disseram que sim, como num coro de anjo. Siiiiimmmm. Bem, pelo menos foi o que eu ouvi. Daí que fui pegar o resultado no aplicativo do laboratório sentada em cadeirinha de algodão, no alívio dos alunos nota dez. Fiquei em recuperação em cada linha do laudo, boletim todo riscado de caneta vermelha, se brincar até no conselho de classe me reprovaram. Foi gastrite, esofagite, mucosa probleminha, inflamação de tudo que é jeito. Não sei nem como ainda consigo engolir um copo d’água. Tô só o pó. Volto no gastro sexta, mas o Google falou que é estresse. Fiquei tão estressada com esse exame que se meu estômago se soltar do esôfago e os dois escorregarem intestino adentro e saírem por onde eles quiserem sair, capaz de eu achar normal. Não me espanto com mais nada nesse mundo de avental com a abertura voltada para a parte da frente.
Tem que evitar o estresse. Boa, mas amanhã, certo? Porque agora, agorinha, estou no minuto 45 da sessão de, bora chamar ela de Fulana, pois há 45 minutos na sessão de Fulana ouvindo ela me falar que no hall do prédio dela instalaram um relógio “daqueles que têm um numerozinho que mostra a hora”. Tá aqui agarrada num lencinho, anunciando choro porque não gosta desse tipo de relógio, porque não foi consultada pela síndica. “Uma afronta.” Tu me entende? Tudo isso enquanto o Whatsapp do meu condomínio repercute em um milhão de notificações a fala de, vamos chamar de Beltrana, a fala de Beltrana que já não aguenta o sino da igreja da Jaguaribe que lhe é muito incômodo. “Todo dia ao meio dia e às 18h, sabe? Me é muito incômodo”. A igreja lá desde 1897, a mulher chegou em março. Ela sugere um abaixo-assinado pra tocarem só aos domingos. E eu? Sugiro o que?
Sexta eu vou no gastro. Esse sabe bem o que sugerir. “Tire o café”, me dirá o gastro. É o que eles aprendem nos dois anos de residência. Evite café, cigarro, açúcar, álcool, proteína, sal e pimenta. Ainda bem que são só dois anos. Evite um gastro.
Se fosse essa quermesse dentro do teu estômago – ou pode ser até que seja, eu mesma não tava sentindo nada – pois teu corpinho azedo aí, calado, cheio dos segredo, num instante eu ia ver essa risada virar coro por vacina. Vaciiiiiiiiina. Tem vacina nem pra estresse nem pra gastrite não. Tem é tirar café, cigarro, açúcar, álcool, proteína, sal e pimenta. Tem é enfiar câmera goela abaixo, acender luz e dá-lhe notícia ruim. Bora ouvir o que essa mucosa esbranquiçada e espessa te conta. A vida é refluxo e úlcera, minha gente. É estômago soltando do intestino cuspido esôfago acima.
Sabe, é minha primeira endoscopia, então pode ser que eu tenha nascido uma surtada em pele de cordeiro. Pergunta aí pro povo que me conhece. Vão dizer: “ah, Roberta? Roberta é um anjo. A mais tranquila da paróquia. Quase demente de tão tranquila”. Eu também achava. Mas pode ser que a coisa tenha se estragado de uns tempos pra cá, que eu tenha nascido toda cor-de-rosinha por dentro e tenha esbranquiçado nos últimos anos, sei lá. Embora eu não tenha tido assim, um motivo específico pra me preocupar não. Não que eu me lembre.
Teve pandemia? Teve, mas vai apodrecer por isso agora? Porque ficou com medo até do pacote de pão da padaria. Pão com gosto de álcool, porque tinha que limpar o pacote, lembra? A mão cheia de alergia ao álcool. Evite álcool. Ou porque a padaria fechou? A padaria, e a loja, e o salão, e a lanchonete e academia, e a outra, e a outra. Isso só na quadra de casa. Teve a eleição? Teve, mas vai arrebentar por isso agora? Porque lembrou da apuração do primeiro turno, o povo todo ao redor da TV, as caras de pavor, as mãos apertadas no celular, os adesivos descolando nos abraços. Evite açúcar. Ou do dia do segundo turno, o tijolo que jogaram na gente quase em frente à padaria, o medo, o medo, o medo, o medo. Que besteira é essa?
E depois já faz um tempão, vai? E nem morrer eu morri. O consultório não fechou, olha lá. Fechou, mas abriu de novo. Tão até subindo um prédio aqui do lado. No terreno do salão e da loja, e da outra loja, e da outra. O caminhão de cimento girando como se fosse um planeta em volta do sol. De domingo a domingo feito o sino da igreja, só que o dia todinho. Sem parada, sem parada, sem parada, sem parada. O barulho. Até bom pra eu perder metade do que a Fulana do relógio tá dizendo. As sessões começando à 7h da manhã pra caber todo mundo. Evite café. Ou a reforma do sétimo andar, e do nono, na hora do almoço. Evite sal e pimenta. Eu moro no oitavo. As motos na Angélica. A casa e o consultório na Angélica. E os ônibus, e os caminhões. O barulho. O povo de de tarde. Das 14h às 20h, pra caber todo mundo. Sem parada, sem parada, sem parada.
O Google disse pra pensar positivo. Engulo?

