Os benefícios do abacate

  Os vizinhos, amigos e parentes sabiam da sua dieta à base de abacates. Nenhum deles, no entanto, poderia supor que, muito mais que a polpa, eram os caroços o verdadeiro interesse de Valdo.  O servidor público aposentado guardava os seus e recolhia outros nas lanchonetes e padarias onde a vitamina grossa, feita com a fruta e leite, aparecia no cardápio. As sementes duras serviam como projéteis baratos, eficientes e seguros para atirar com estilingue. Valdo tinha consciência de que andar pelas ruas com uma sacola de caroços seria muito menos suspeito que carregar pedras.

O velho guardava da infância a sua convivência pacífica com os dois grandes abacateiros do quintal e, da idade adulta, o episódio constrangedor de ter sido intimidado por levar numa sacola as frutas recolhidas num parque. O fato aconteceu num domingo de manhã no Parque da Independência.  Neste dia, um frequentador acusou Valdo de roubo a um vigia, que ordenou que ele devolvesse as frutas. Os dois discutiram e o velho atirou todos os abacates no vigia, no acusador e nos curiosos que acompanhavam a cena. Desde então, o homem pacífico, que cultivava uma vida saudável desapegada de bens materiais, passou a carregar junto com os abacates uma espécie de rancor contra seguranças de parque e certos tipos de usuários. Na sua casa da infância em Piraju, no interior de São Paulo, aprendeu a acompanhar a florada, subir na árvore, catar a fruta do chão e comê-la com açúcar.  No parque da capital, aprendeu a existência dos intolerantes.

  Valdo não se casou, não teve filhos e acreditava que poderia viver mais de cem anos se todos os dias comesse pelo menos meio abacate. Aos amigos e ex-colegas de trabalho divulgava que a fruta era fonte de proteínas, combatia os radicais livres, tinha ação anti-inflamatória, ajudava o sistema cardiovascular, reduzia o estresse e colaborava no emagrecimento. Ele não enjoava do sabor e contava como encontrá-la de graça nas ruas , parques e praças da cidade.

O aposentado a comia de todas as maneiras e usava também feito uma pasta nos seus cabelos. O abacate, dizia, evitava a queda e ele não se importava com a cor esverdeada que os fios brancos na altura dos ombros  iam tomando. Verde que também aparecia nos pelos da barba ao redor da boca. Os abacates ajudavam também na saúde dos olhos e ele se orgulhava de prescindir dos óculos para atirar os caroços. Um orgulho não compartilhado porque preferia guardar segredo do prazer secreto recém-adquirido em praticar tiros com estilingue.

A ideia original, depois da abordagem do segurança, era acertar a cabeça das pessoas intolerantes, mas Valdo tinha consciência da dificuldade em reconhecê-las e atingi-las. Por isso, precisou caminhar muito sobre as pontes da cidade mirando contra as carrocerias de caminhões como uma espécie de treino para a mira. A questão da escolha das vítimas deixaria por conta da intuição. Nas pontes, Valdo nem era percebido. Sabia que os caroços não amassavam as grandes caixas de metal e os motoristas deviam considerar que o toque na lataria era só mais um ruído no trânsito barulhento da cidade.

Para intensificar os treinos, Valdo estabeleceu que o alvo deveria ser uma das letras do nome das empresas de transporte. Escolhia, por exemplo, o X da Fedex, O H da DHL, o C dos Correios , o  P da UPS etc.  A cada acerto se sentia mais seguro para um dia mirar as cabeças que pretendia atingir.  

Foi depois de muito treinamento que voltou para as áreas de lazer da cidade em busca de alvos humanos. Como tinha previsto, não era nada fácil identificar os intolerantes e Valdo sentia que, muitas vezes, poderia cometer uma injustiça mesmo sabendo que seu objetivo não era ferir ou matar. Valdo queria mesmo era perturbar. Acertar a cabeça de um suspeito e se divertir com o comportamento atordoado da vítima. Se não temesse ser descoberto, além de atirar, gravaria as cenas. Era engraçado observar um caminhante ou corredor levar a mão à cabeça, esfregar o local da pancada e parar o exercício em busca de onde veio o torpedo. A cara era sempre abobalhada e raivosa. Um misto do que ele considerava ser o comportamento diário daquelas pessoas que cultivavam o ódio. 

O mais difícil deixou de ser a mira, mas a escolha da vítima.  Por padrão, estabeleceu que deveriam ser pessoas parecidas com o homem que o acusou.  Tipos comuns com pouco cabelo, barriga grande, camisetas e tênis caros. Poderiam ser homens e mulheres. Para os alvos femininos, só desconsiderava o critério do pouco cabelo. Ele não entrava nos parques. Valdo se posicionava e subia nas árvores que ficavam nas calçadas externas. Para não levantar suspeitas, fazia o trabalho em dias, horários e parques diferentes. Acertava uma ou duas pessoas e então voltava para casa com a sensação de um dever semicumprido. Faltava alguma coisa que ele precisava descobrir. A vingança provocava um vazio.

  A casa de Valdo era um quarto, cozinha e banheiro nos fundos de uma loja de ferragens no Ipiranga. Pagava o aluguel com a aposentadoria, garantia cinquenta por cento da alimentação com os abacates, preparava alguns pratos quentes para os dias frios e passava o resto do tempo visitando parentes e amigos ou perambulando pelas ruas.

Quando foi hostilizado pelo suposto roubo das frutas no parque, achou que provocar pessoas seria uma forma bem humorada de dar algum sentido à sua vida e assim foi por algum tempo, mas a ideia foi perdendo a graça. E talvez tenha sido o desinteresse e descuido repentino pelo plano que permitiu Valdo ter sido um dia filmado por alguém que, da mesma forma daquele domingo da acusação, vigiava seus movimentos. O corpo já não tinha a agilidade para subir nas árvores e o próprio abacate não estava mais fazendo bom efeito sobre a visão.

Suas imagens foram parar nas redes, ele foi reconhecido e vai cumprir três meses na prisão. Ao ser levado de sua casa, só lamentou deixar de andar pela cidade. O restante da pena, vai cumprir com trabalho voluntário. Quando voltar à liberdade pretende dar aulas ao ar livre sobre os benefícios do abacate.

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