O que você mais gosta nela?
O que eu mais gosto nela não são os dentes tortos ou o perfume forte de fragrância da França de Xangai vendida na Vinte e Cinco de Março. Nem os peitos pequenos de mamilos pontudos marrons escuros ou a pele que um dia já foi marrom clara e desbotou com cremes branqueadores. O que eu mais gosto nela é o nome: Sueli.
Como ouvir Sueli e não se lembrar de uma mulher negra, cintura de pilão, dois pilares de perna, a pele uma seda de pano, o toque queimando devagar como uma seda sem pólvora enquanto o pé provoca e roça a sua perna sob a mesa em meio a um restaurante lotado? Mas essa Sueli é chinesa, tem a bunda chata e a pele um tanto áspera de tanto creme hidratante. Essa Sueli é chinesa e só me provoca com dinheiro e mensagens ofensivas no meu trabalho. Essa Sueli é chinesa e não come comigo em lugar nenhum que não sobre uma cama de um quarto de hotel onde só estamos nós dois.
Eu gosto do nome é pela criatividade do João Batista que cruzou seu caminho. Ela na China se chamava Su Lai Li. E ainda se chama, claro, no RNE. Mas é costume do chinês migrado receber um nome ocidental. A maioria, quando chega, ou escolhe um nome qualquer em inglês ou pede a ajuda de alguém que já migrou há mais tempo. E quem escolheu o nome dela caprichou, porque deu um jeito de escolher um nome brasileiro que mantivesse a sonoridade do nome original, ainda que não tenha nada a ver com a pessoa original nem tenha criado uma nova pessoa com o novo nome.
Meu pai escolheu meu nome porque o viu num filme americano e achou que seria chique. Quando criança, eu só queria me chamar João, Pedro ou Lucas. Mas quando ela fala meu nome, agradeço a meu pai pelo batismo. Ela não sabe falar i-ã, mas fala Yang, um sobrenome comum na China. No motel, só nós dois, depois que comemos ovos com chá e shoyu e nos deitamos, ela evita olhar pros meus dois ovos, fecha os dois olhos e me chama de Yang He Ren (杨褐人, Pessoa Marrom Yang). Na cama ela também me chama de muitas outras coisas. Eu não entendo, mas gosto.
O que você mais gosta nele?
Eu gosta dele. Assim né, eu gosta pouco, mas gosta. O que eu mais gosta é ele fala chinês. Na verdade, ele fala pouco, chinês dele não bom. Meu português é melhor chinês dele, clalo. Mas ele entende o que eu fala. Quando ele não sabe fala coisa em chinês, ele fala português devagar, devagar muito, aí eu entende. Eu gosta chinês dele é ruim. Quando vai cama com ele, eu chama ele burro, eu chama ele preto pessoa burro. Eu fala no língua do meu cidade né. Ele pergunta eu o que é eu fala. Eu responde: eu chama você homem forte, homem gostosa. Ele fica feliz. Eu também fica feliz.
O que ela mais gosta em você?
Eu já pensei que o que ela mais gostava em mim era o pau. Na primeira vez que tirei a cueca, ela deu muitos gritinhos, falou coisas que não entendi, tapou o rosto e ficou olhando pela fresta dos dedos. Na primeira vez que entrei nela, ela gemeu muito e fez cara de dor. Todas as outras vezes também. Eu pergunto:
“Ni hao ma?” (你好吗?, você está bem?).
Ela grita, brava:
“Bu yao ting!” (不要停!, não para!).
Eu gosto que ela sempre goza antes de mim. O que é muito estranho, porque ela é muito apertada. O que é muito estranho, porque ela não tem nenhuma cicatriz embaixo do umbigo e o filho dela é o meu aluno mais cabeçudo. Na foto de perfil do WeChat ela aparece com o menino e um bebê, também muito cabeçudo. Mas a cabeça dela é pequena, os moleques devem ter puxado o pai, que está na China com o bebê. O pescoço dela é muito fino e ela coloca minhas mãos em volta e me pede pra apertar. Eu digo que não gosto disso, ela me chama de menininha. Eu fico com cara de tacho e ela dá um meio sorriso.
Quando goza, ela não sorri. Quando me encontra na porta do quarto do motel, ela não sorri. Quando minto que ela é muito bonita, muito cheirosa, muito gostosa, ela não sorri. Quando eu a chamo de mei nü (美女, moça linda), ela não sorri. Quando na cama pergunto “ni hao ma?” (你好吗?, você está bem?), ela faz uma carranca de fúria, me chama de imbecil, diz que usei o tom errado ao dizer ma (马, cavalo). Eu sinto vontade de chamá-la de vaca, mas ela faz outra carranca de fúria, me manda colocar de novo e a vontade passa.
Perto das dez da noite, fim do expediente da babá, ela tira a camisinha de mim, a enche de água na pia, olha o negócio contra a luz e atira no lixo. Ela põe a roupa da Dior ou da Dolce&Gabbana com algum defeito no logotipo e pega a bolsa da Chanel com logotipo perfeito mas com alça falsa. Ela tira da bolsa o dinheiro pra pagar a conta. Ela tira da bolsa algum doce recheado de feijão e algum carregador ou fone de ouvido ou alguma outra coisa defeituosa da loja dela. Ela tira o boletim do filho e o esfrega na minha cara.
“Nota ruim, nota ruim muito. Por que eu paga você?”, ela diz, guarda o boletim na bolsa e vai pra porta.
Ela vê meus olhos ficarem puxados pelo choro e eu cubro a cara. Pela fresta dos dedos, eu vejo os dentes tortos dela aparecerem, a pele desbotada do rosto se esticar em rugas apesar dos cremes e das máscaras faciais. Pela fresta dos dedos eu a vejo abrir um sorriso inteiro.
O que ele mais gosta em você?
Ele mais gosta eu bonita. Eu cheira bom, pele meu igual aquela fruta amarelo. E eu dá presente. Coisa que eu não vende nem no loja, guarda só pra ele. Dá comida boa, restaurante chinês só de chinês, Liberdade não acha. E dá roupa também, tênis, relógio. Chinesa cuida muito, assim que chinesa gosta né. Eu come pouquinho também, pra fica bonita, não fica gorda. Mulher brasileira tem bunda grande e, se homem quer fazer coisa, ela tudo deixa. Chinesa não. Chinesa não é tudo pode. Por isso ele gosta eu.
O que você não gosta nela?
Não são os dentes tortos, os cremes todos, o cheiro falso ou a falta de sorriso. Tampouco são suas reclamações sobre a minha aparência, as fotos que ela tira do meu pau sem eu deixar ou o ensopado nojento de alface cheio de óleo que ela me faz comer (quem cozinha alface, meu deus?). O que eu não gosto nela é a cabeça pequena.
E todas as matérias de antropologia que cursei podem se lascar, caguei pro problemática do etnocentrismo. Aliás, ela é etnocentrista o tempo todo; se eu não for um pouco, já era eu. E sim, chineses são o grupo migrante com a comunidade mais fechada e os mais resistentes a integração cultural no país. Mas porra, eu dou aula nessa escola há anos, já conheci pai e mãe que deixam seus filhos namorarem brasileiras e alguns que até levam as crianças pro carnaval. E o China, dono do bar no Largo da Santa Cecília, que patrocina o time de futebol e a escola de samba do bairro? Esses pais, meu chefe, o China, tá cheio de chinês gente fina. Mas ela não perde uma oportunidade de engrossar pro meu lado.
Manda mensagens me escrotizando, pra mim e pro meu chefe. Ele diz que eu faço o que posso – e é verdade, não é culpa nossa que o moleque é meio devagar. Mas é sacanagem querer que menino que chegou no Brasil não tem nem três anos não tire nota baixa em gramática. Eu explico, boto música, boto ele pra assistir Tromba Trem, pra ler Turma da Mônica. E funciona, devagar, mas funciona. Tanto é, que ele gosta de mim.
“Não precisa gosta, precisa prova boa”, ela me diz com a boca oleosa de alface cozido. “Zhuang lao shi (庄老师, professor Zhuang) diz você bom professor, inteligente. Mas não ensina minha filho certinho. Brasileiro não gosta de trabalhar, não tem jeito”.
Eu tento explicar que ele está tentando, que tudo tem um tempo, que ele fica triste sempre que o pai diz que ainda não conseguiu o visto pra vir da China.
“Ni bi zui!” (你闭嘴!, cala a boca!), ela diz, esfrega um pouco de creme nas pernas, tira a calcinha, deita na cama e me espera.
O que você não gosta nele?
Eu não gosta cabelo. E barba também. Ele é novo, muito mais novo eu, mas parece mesmo idade. Porque barba deixa cara velho. Ele pega muito sol, não bom, eu fala pra ele que na China muito sol é quem trabalha campo, não bom. Mas ele não escuta eu. E cabelo dele muito feio, pra cima né. Parece sujo, fedido. Cabelo dele não é fedido, mas parece. Eu fala pra ele tira tudo, mas ele não escuta eu. Mas eu não pode mandar muito, porque ele não é marido meu. Eu respeita né.
Mas ele não respeita minha filho, não ajuda de verdade, não ensina lição certinho. Isso eu não gosta, isso eu fica muito bravo. Eu paga hotel, paga comida, dá presente, dá beijinho, mas ele não trabalha. Brasileiro não gosta trabalho. Isso eu fica muito bravo.
O que ela não gosta em você?
Ela não gosta que eu sou brasileiro. Ela não gosta que ajudei o filho dela a passar de ano. Ela não gosta que eu a mandei pegar o alface cozido, os cremes, os dentes tortos, o chá com shoyu, os eletrônicos da loja dela, o dinheiro do motel e o boletim e enfiar tudo naquela bunda chata.E, se ela não soubesse só ideogramas sem fonética e tivesse alguma ideia de rima, não ia gostar do que eu disse, bem rimadinho, com ênfase nas sílabas tônicas:
“Some daqui, Sueli”.
O que ele não gosta em você?
Ele não gosta eu tem marido. Ele quer eu separa marido. Mas eu não pode fazer isso! Ele não gosta, fica bravo com eu, vai embora. Mas eu não pode fazer isso… Na China família é muito importante, mais importante. Mas brasileiro não entende família, não entende trabalho, só entende cama né.
