Mundo às avessas

Martin Amis se foi outro dia, dilapidando a grande geração inglesa de que fazem parte Christopher Hitchens (que também já morreu), Julian Barnes, Ian McEwan, e Salman Rushdie. Filho de Kingsley Amis, um dos grandes romancistas ingleses da primeira metade do século 20, Amis foi um pós-moderno mais progressista que o pai, de língua mais afiada, domínio absoluto da linguagem e com um projeto literário mais ambicioso: balançar as estruturas do conservadorismo britânico mediante a sátira social e um humor corrosivo. Este livro de contos prova: são todas histórias em que inversões se impõem. Há um mundo em que os poetas são astros pop enquanto roteiristas de cinema passam fome; porteiros são mais sofisticados do que aristocratas; inteligências artificiais desvendam o segredo do universo; leões de chácara têm crises existenciais; gays são a maioria e hétero a minoria perseguida… e por aí vai.

PROPOSTA

É muito simples o que você vai fazer: vai pegar uma norma social, uma convenção que parece natural, e transformá-la no desvio, na exceção.

Por exemplo, imagine um mundo em que todos os frequentadores da Sala São Paulo sejam macumbeiros de extrema direita. Em que o presidente é indígena. Ou as empresas sejam dirigidas por crianças de 11 anos. Ou que os jogadores de futebol sejam todos devotos da literatura russa. Ou seja, você vai escrever uma ficção de imaginação.

Depois que escolher qual vai ser a norma a inverter, pense em uma história simples que se passe em um mundo que vive dentro dessa norma.

Por exemplo, o frequentador da Sala São Paulo não pode ver um espetáculo porque no mesmo dia tem que fazer um trabalho de esquerda com as armas de seu grupo de perseguidores de comunistas. Ou o presidente indígena vai ao Congresso ensinar a cantar o hino em idioma tukano. Ou o dono da empresa resolve despedir todo mundo que não conseguir cantar uma música só usando peidos. Ou um jogador de futebol que chegue ao novo time mas seja fã dos sonetos luxuriosos do Aretino, deixando os dostoievskianos atordoados.

Mostre, não conte. Use o discurso indireto livre. Em até uns 9 mil toques.

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