por Américo Paim
A idade do tempo entre o tri e o tetra, como disseram meus colegas de trabalho na comemoração do meu aniversário. Era uma terça-feira e a festa foi curta. Batente no dia seguinte. Foi ali, entre cervejas e shots, que Hercílio, colega que dividia apartamento comigo, me contou sobre a tal menina. Ele sempre com piadas e histórias engraçadas, capaz de conversa de dia inteiro com gente que nunca viu na vida. Passaria fácil como meu pai, mas seu rosto pouco diferia de uma camisa bege bem passada. A idade só lhe traía por uns bem poucos fios brancos no bigode vaidoso. Subia e descia escadas e fazia longas caminhadas na área industrial com facilidade. Suas roupas apareceriam em revistas de moda, só que sem exageros. Isso tudo deve ter impressionado a moça no sábado anterior. Ela era mais nova que eu!
– Gersinho, fio, precisa ver.
– Bebeu demais de novo, véi?
– Tô lhe dizendo. Gata. E gostou do coroa.
– Hum, tenho que duvidar.
– Rapaz, ela caiu na pista comigo e lá eu me garanto, tu sabe.
– É, dançar é sua praia.
– Depois ficamos na mesa, cervejinha, tira-gosto…
– Álcool para crianças é crime, viu?
– Muito engraçadinho. Vai babar quando conhecer.
– Espere sentado.
– Não vai demorar – precisa me ajudar no fim de semana.
– Tô fora… Barca furada.
– Quéquecusta?
– Tudo. A gente quase não tem folga e eu vou gastar assim?
– Pera, eu explico. A moça topou sair comigo, mas vai levar uma companhia.
– Quem? O pai? A mãe?
– Porra, véi… Tu fica lá de boa. Eu dou um tempo e levo a gata pro apê.
– Oxe, você vai ser é preso…
– Nada a ver. Combinado?
– Paga a conta toda?
– Fechou.
No sábado, no bar, quatro cervejas depois, nada da beldade. Fui embora dali e ele ficou, resignado. Noite ainda menina, fui a outro bar, duas quadras depois. Estava igual à Praça Castro Alves em dia de encontro de trios. Já ia recolher meu abadá e vi a mulher, sozinha, ilha na muvuca geral.
Sentada de uma forma que fazia a tosca cadeira parecer um trono, ela não fez qualquer esforço para compreender as besteiras que falei. Seus dentes apareceram gradativos, em sintonia com o gesto que fez com a mão para que me sentasse e que levou a fina pulseira a se mover do pulso esquerdo para o antebraço, deslizando gentil sobre sua pele, quase camuflada à toalha lisa e branca. Seus olhos escuros e vibrantes não acompanharam meus movimentos. Era um silêncio que engolia o barulho reinante. Só me olhou mesmo quando fiquei mudo. E pareceu ter visto até o que eu desconhecia. Seus cabelos, como água aleatória de cachoeira, terminavam em espirais no limite do decote do vestido preto. O rosto quase todo limpo. Achei aquilo corajoso. E a voz acompanhava o perfil. Por muito pouco não a chamei de senhora logo na chegada, o que teria sido um desastre. Ela estava mais para um Hercílio ou para uma tia, mas eu estava fisgado antes mesmo da primeira gota de álcool. Começou a falar e entendi que calado eu já estava errado. Me descreveu com propriedade: jovem, interessante, trabalhando há pouco tempo, pele morena descuidada, olhar carente, atlético, sem muito gosto para roupas, cabelos quase caindo no ombro e precisando de um bom trato, sorriso razoável, algum mistério e perfume meio brega. Em poucos minutos de conversa, ela já era bonita. Após o segundo uísque, eu estava por uma deixa. Definiu irmos à casa dela e fomos em seu Golf do ano. Eu, que nem carro tinha, estava gostando daquilo. Sem saber se o destino era muito longe e já bem animado, pedi que parasse. Rolou o primeiro beijo. Nada bom. O gosto de cigarro ou meu arroubo quase adolescente mudaram a sua expressão. Achei que ficaria ali mesmo e voltaria ao apartamento de carona, mas ela não desistiu de mim.
Paramos defronte à casa dela junto a outros dois carros estacionados. Dois andares, luzes acesas só no térreo. Ficava afastada, entre os escuros e úmidos da Serra. Me conduziu por uma passagem lateral e descemos escada até uma porta de madeira escura iluminada por uma lâmpada simples. Era seu estúdio e a gente se atracou antes mesmo de a bolsa arremessada por ela alcançar a poltrona de veludo ao lado da lareira. Quando ela tirou o sutiã, brincou diante da minha cara de surpresa, dizendo que aquela era a lei que nunca foi revogada – a da gravidade. Nem aquilo me tirou do foco e preciso reconhecer que onde minha mão encostou foi só felicidade. A mulher tava mais viva que eu. Me cercou, invadiu e conquistou como quis. Minha pouca experiência cobrou pedágio. Não sei se eu conseguiria tal performance se fosse mais velho e imaginei o que teria sido aquela mulher quando jovem. Foram gemidos e gritos que testaram a nossa privacidade. Eu ouvia barulhos no andar superior. Me disse que eram os pais e que ninguém se metia na vida dela. Depois de uns quarenta minutos de agarrações, gozos e escândalos, ela foi para o banho sem olhar para trás.
A água jorrava forte, o vapor e os aromas enchiam a sala pela porta escancarada. Poderia jurar que ela cantava e eu desisti de conferir a estante logo em frente. Se ela puxasse papo sobre literatura, eu não passaria das orelhas. Pensei em entrar no box e começar de novo, mas seria adolescência. Seguiam vozes e risadas no andar superior. Ela saiu em um robe que ajustava a diferença de idade entre nós e melhor que propaganda de jeans, continuava bonita após a primeira lavagem. Tentei conversa, degustando um 8 anos que ela mesma abriu, porém, éramos melhores em grunhidos e apertos. Demorei a entender e ela resolveu, se oferecendo para me levar. Preferi pedir um táxi. Beijo no rosto e saí de lá dividido entre a ideia de outro encontro e o “já fui tarde”. Ao chegar no apê, a toalha vermelha não estava na janela, então entrei sem preocupação. Hercílio tomava café na cozinha.
– Rapaz, que decadência… Mas tá coerente, combina com bolo.
– Pode rir. Saiba que ela apareceu logo depois, mané. Se desculpou e tudo.
– Sério? E a acompanhante, que tal?
– Era pra ser a irmã dela. Não rolou.
– Pena. Se a novinha é deusa, a irmã deve ser boa também.
– Pior que não. Tu escapou de uma boa. Vi a foto. É véia e feia. Nem eu pegava.
– Eita. E aí, a noite foi boa?
– Nada. Ela só ia sair comigo se eu conhecesse os pais dela.
– Véi, doideira! Eles iam lhe ver como coleguinha.
– Sem graça, palhaço.
– Tá bom, mas você vazou, né?
– Negativo. Fui lá. Com dez minutos já ganhei os velhos.
– Isso eu tenho certeza.
– Foi engraçado. A gente de cerveja gelada, conversa mole e veio uma barulheira no andar de baixo.
– Como assim?
– Era uma casa com dois andares e mais um embaixo.
– Ainda tô boiando.
– Véi, a tal irmã dela fica nessa espécie de porão e tava mandando ver no rala e rola.
– Como é?
– Fudelança comendo no centro. Arremessos pélvicos e fricotinhos gozosos.
– Pera, pera. Onde é essa casa?
– Afastada da cidade, lá no começo da Serra. A gente riu demais.
– Falta de respeito isso.
– Oxe… Ela chamava o iluminado disso e daquilo, gritava.
– Lamentável… Ouvindo a intimidade dos outros.
– Meia cidade ia ouvir, se não fosse no fim do mundo.
– Que exagero!
– Tu tava lá? O peão não tava foi dando conta.
– Oxe, como sabe?
– Ela vive levando macho pro matadouro. Já me inteirei de tudo.
A essa altura eu, que tava com uma faca colocando manteiga no pão, cortei foi a conversa. Nem sei o que menos queria: descobrirem que era eu ali no porão ou me sentir ridículo, defendendo a coroa devoradora de homens como se fosse uma namorada. Hercílio se desinteressou pela novinha – achou muito trabalho para nada e eu admito que fiquei uns dias esperando por uma ligação me dizendo que tinha sido ótimo e me convidando para outro encontro. Nada disso aconteceu. Fui embora.
Meses depois, voltei para um trabalho rápido. Uma tarde movimentada, vi uma loja de calçados do outro lado da rua. Na faixa de pedestres cheia, cruzei com a mesma mulher. Cumprimentei, no reflexo. Ela balançou a cabeça. Acho que foi só para ajeitar o cabelo. Gostei de um sapato, mas não tinha mais meu número.
