
A contratação de Omar foi um erro. Desde antes de Omar ser escolhido. Um estagiário de texto para a equipe da arte é milagre demais, não? Designer mandando em jornalista, sendo que a ideia veio do chefe dos jornalistas – que era jornalista. “Esse é teu, Rô. Faz o que quiser com ele, bota pra cortar legenda, notinha, precisa nem consultar ninguém daqui”. Foi o contrato ser assinado e pra cada “vocês podiam me ajudar, por favor?” da arte, um “pede pro estagiário” do texto. Prestou não. Primeiro que, a um minuto de mandar pra gráfica, ninguém gostava do que o menino tinha feito, o trabalho dobrou. Depois que eram só seis horas de redação e umas duas conjugações verbais na ponta da língua, no máximo. Uma legenda por expediente.
Isso quando havia expediente. Porque além de lento, tinha vida triste o bichinho. Velou uma tia no fim de março, nem um mês de admissão, e um primo no fim de maio. Uma família dada a morrer em dia santo. Perdeu os plantões de fechamentos e os feriados de páscoa e de Corpus Christ. Se bem que… Ô, Omar.
Designer nenhum comprava o choro do jornalistinha, exceto a diretora de arte que era de peixes. Por isso que no segundo dia do fechamento de julho, quando a cadeira do estagiário girava vazia às 3h da tarde – e ele tinha que ter chegado ao meio-dia – só ela demonstrou surpresa.
– Tenta o Omar de novo, Loren (Lorena era a designer).
– Vem não, Rô. Ele falta fechamento sim, outro não.
– Falta, mas avisa. Tenta Loren, tô preocupada. Esse menino não tem ninguém aqui em São Paulo.
– Fora de área, Rô.
Rosana já tinha começado o dia duvidando da própria capacidade de sobreviver a esse mundo.
– Bi bi bi bi bi bi
– Bom dia, vírgula longa, Alexa. Tu podia, por favor desligar o despertador?
– Aqui está o que encontrei sobre bom dia Alexa tu podia por favor desligar o despertador. Bi bi bi bi bi bi
– Alexa, vírgula longa, bom dia pra ti. Me chama daqui a dez, por gentileza?
– Aqui está o que encontrei sobre Alexa bom dia pra ti me chama daqui a dez por gentileza. Bi bi bi bi bi bi
– Alexa, desliga esse despertador agora!
Silêncio culpado
– Desculpa o tom, querida.
– Aqui está o que encontrei sobre desculpa o tom querida.
Passava das 4h, quando a foto e o nome de Omar apareceram no telefone de Rosana.
– Cadê tu, Omar?
– Rô, eu não sei.
– Oi? Porque tu tá sussurrando?
– Tô com medo. Tô deitado numa cama. Tem um monte de faca pelo quarto.
– Como é, menino? – Ela responde também num sussurro – E tá sozinho?
– Não sei. O que é que eu faço?
– Levante daí.
– Mas eu tô só de calcinha.
– Veja se sua roupa tá no chão.
– Tá.
– Pois tire essa calcinha e se vista logo.
– A calcinha é minha, Rô.
– Certo. Vista o que tá faltando e saia daí.
– Abro o vídeo?
– Precisa não, bora, Omar.
– Pronto, vesti. E agora?
– Sai devagarinho pra ninguém te ver. Só que rápido.
– Tem ninguém não, Rô.
– Ufa. Vá-se embora.
– Rô, tô trancado.
– Minha nossa senhora, vá na cozinha. Vê se tem porta de serviço.
– Trancada também. Mas tem uma janela. Pulo?
– Pera aí. Que andar?
– É uma casa.
– Então pule.
– Pronto, tô num quintal. Tem uma rua. Eu ando?
-Ande, não, corra. Pegue o primeiro táxi que você encontrar.
– E se tiver alguém correndo atrás de mim?
– Tu corre também!
– Rô, tô sem carteira. Eu volto pra pegar?
– Não. Vem, quando tiver perto, liga que eu desço pra pagar.
– Tá 1% só a bateria. E se eu tiver muito longe?
– Tem nada não, vem.
– Eita, Rô, tô na Aspicuelta, do lado.
– Ufa, desço em 10.
Omar não chegou em 10, nem em 20, nem na segunda quando a revista já estava rodando na gráfica. A vaga congelou até que ele desse notícias. Não deu. O telefone não atendia a nenhuma chamada. O instagram calado feito um coco. Pra Rosana, podia ter acontecido alguma coisa séria. Pro povo da redação, não. Comeram pizza dois fechamentos seguidos apostando quem seria o próximo defunto.
– E aí Rô, tu vai na mãe ou no pai? Vale R$50
– Ô, galera.
Iam para a edição de setembro quando Lorena atendeu a ligação do RH.
– Rô, RH.
– Vê aí, Loren, tô na capa.
– Parece que é sério, Carol só quer falar contigo. – Lorena levantou a voz ao anunciar, para a diretora e para os demais, a gravidade da situação.
– Pode passar.
Fez-se uma rodinha de designers na mesa de Rosana, até um povo do texto se dispôs a largar os arquivos.
– Encontrou? Minha nossa!
E foi murchando as maçãs do rosto enquanto só ela ouvia o que saiu do outro lado. As sobrancelhas apontando pro centro e pra cima. Segurava o telefone com uma mão e com a outra a testa de 6 listras, uma para cada mês de estágio. A repórter de beleza viu acabar os efeitos dos produtos que tinha indicado pra Rosana ali mesmo.
– Bichinho. E o que é que tem que fazer agora?
Silêncio. Uns 20 olhos à espera.
– Ô, Carol. Não, tudo bem, pode encaminhar.
Desligou.
Lorena se chegou com um abraço de consolo. O estagiário de texto, do texto, numa overdose de identificação – era ele também afeito às noites desmemoriadas de São Paulo – derrubou a primeira lágrima. A redação seguiu. O diretor já foi formulando um parágrafo comovido que cairia até bem na carta editor. Já tinha PDF pronto e tudo. “A gente manda um V1”, pensou. A revisora lembrou que tem horror a velório, “mas um menino tão novo, sem parente na cidade, eu vou”. Cada um no seu mundinho de culpa por não ter acreditado no jornalista promissor.
– Que foi, minha gente?
– Vá pra casa, Rô. A gente toca aqui. Um minuto de silêncio por Omar.
– Morreu não, galera. Ia perder o semestre na faculdade porque não completou o estágio. Segunda tá aí.
– Ô, Rosana.
