A mesa dava numa linha diagonal para as pedras do muro do seminário, um pouco acima da esquina da Rua Capital Federal. Depois que a pandemia fez desaparecer os eventos que Jorge organizava, o espaço reservado ao computador passou a servir muito mais para uma bandeja e uma garrafa térmica que propriamente ao trabalho . O homem de corpo largo e barriga apertada nas camisetas polo passava os dias tomando café com os olhos na rua. Muito tempo para a bebida e pouco para as pesquisas de emprego. A certeza era de que a vista de fora o fazia se sentir melhor e bem mais saudável que diante da tela. Estava na hora de mudar de vida.
Numa das tardes sem trabalho , deu um gole no café frio e reparou no homem de cabelo cortado à máquina que carregava um livro dourado. Ele fazia caminhadas no pátio lateral do seminário. O livro brilhava sob o sol e Jorge até pensou que poderia ser uma visão, um aviso para se converter, mas a iluminação veio mesmo foi com o ciclista que entregava comida no portão do muro de pedras cinzas. Assim que o viu, enxergou a possibilidade de virar um entregador de aplicativo.
Começou o trabalho em dois dias e foi só satisfação quando , depois de duas semanas , notou que tinha menos barriga e mais força nas pernas. Mal sabia que numa das suas entregas, ao passar pelas bandeirinhas que decoravam a barraca de Vivaldo, na esquina da Brigadeiro com a Alameda Santos , ia descobrir, além do vigor físico, sua verdadeira vocação investigativa.
As bandeirinhas davam volta na barraca, eram em papel branco muito fino e traziam uns textos recortados e incompletos. Tinha acabado de entregar um PF de costela no prédio ao lado do restaurante indiano e esperava por um novo chamado quando as viu. Vivaldo percebeu o interesse de Jorge e se aproximou para contar antes que ele fizesse qualquer pergunta. “Achei num saco meio aberto lá pelos lados do Sumaré. Eram uns quadrados grandes. O papel não tem cor, mas parece seda, num parece?
“Parece sim. Leu o que está escrito?”
“Li antes de cortar o V invertido das bandeirinhas, mas cansei. Coisa de Deus, de igreja. É o que entendi”.
“Deixa eu ver- Jorge apertou o olhos para as letras miúdas. – É isso. Tá certo. Coisa de igreja. Achou no Sumaré?”
“Achei”.
“Você anda tudo isso?”
“Isso e mais”.
“Beleza. Tá com saúde” – Jorge respondeu enquanto apertava de novo os olhos tentando encontrar algum sentindo nas frases picadas. – Foi você que cortou sozinho?”
“Eu sim. Será que Deus castiga?”
“Que nada! Ficou bonito. Que lugar do Sumaré?”- Jorge foi direto na dúvida que estava incomodando.
“- Perto da Rua Capital Federal.”
Uma chamada para entregar comida indiana no Bixiga cortou a conversa. Jorge aceitou o pedido, se despediu de Vivaldo e ajeitou o programa de entregas para voltar para casa logo em seguida. Saber que os textos foram encontrados próximos de sua casa mudaram os seu planos.
Eram ainda cinco horas quando ele abriu a porta do apartamento. A tarde de outono começava a escurecer, mas da janela, Jorge ainda pode ver outro homem circulando na laje do seminário. Não era o mesmo dos cabelos cortados à máquina. Se os visse na rua, não ia reconhecer. Nem este de hoje, nem o do outro dia, mas o livro que brilhava no alaranjado da tarde, sim. E Jorge voltou a pensar nas bandeirinhas de Vivaldo, o morador de rua. Os textos cortados pareciam orações. Intuiu que o livro precisava ser lido enquanto se caminhava e em voz alta. Também que as voltas representavam uma espécie de ritual que, certamente continha frases e mantras a serem repetidos. Mantras não. Jaculatórios, que esse é o nome dos mantras católicos ou quem sabe dos cristãos. Jorge ateu pouco sabia. Aprendeu o nome com uma tia fervorosa que parecia gostar da palavra derramada: jaculatório. Os homens do livro dourado, que ejaculavam rezas, não eram os mesmos todos os dias.
Jorge foi para a cozinha fazer um novo café para a garrafa vazia sobre a sua mesa do antigo trabalho. Enquanto o vapor subia, pensou em voltar até a barraca de Vivaldo para pedir uma das bandeirinhas. Queria trazer para casa e ler com calma. Tinha ideias de tocar no portão do seminário simulando uma entrega e fez isso na manhã seguinte depois de uma noite em que deixou a janela aberta para observar o prédio dos seminaristas de madrugada. O café tirava o seu sono e ele pode ver as luzes que permaneciam acesas até o amanhecer e que às vezes se apagavam numa janela para então se acender em outra. O seminário tão morto durante o dia, parecia mais vivo de madrugada.
Logo cedo, tomou mais um café para espantar a noite mal dormida e voltou à Brigadeiro com a Alameda Santos. Vivaldo ainda tinha páginas sem recortar e , por vinte reais, Jorge levou o maço de folhas finas para casa. Eram mesmo jaculatórios e ele os mostrou à primeira pessoa que lhe abriu a porta do seminário. Era um homem de cabelo cortado à máquina que poderia ser o mesmo do dia em que Jorge se deu conta das orações em círculo no pátio do seminário.
“Isto pertence a vocês?” – Jorge apresentou o papel antes de se apresentar.
“Quem é você?” – perguntou o noviço.
“Um morador do bairro que encontrou estes papeis na rua”
“Deixe-me ver” – o homem dos cabelos raspados leu os papeis como se fossem folhas contagiosas.
“Desconheço a origem” – o homenzinho que era mesmo baixo, como ele o via de longe, devolveu o maço de orações recortadas. Jorge quase tentou avançar nas perguntas, mas a postura de superioridade e o comportamento distante o fizeram mudar de ideia. Tomou de volta os papeis para, ainda em junho, devolvê-los a Vivaldo. Seriam mais úteis como bandeirinhas. Em casa, observou mais uma madrugada de luzes se acendendo e apagando no seminário. De manhã saiu para o trabalho e à tarde, antes das cinco estava de volta para acompanhar os jaculatórios da janela. Dessa vez, Jorge usou sua câmera com o zoom. Dentro do livro dourado, cujo tamanho e peso deviam fazer parte do sacrifício à fé, o homenzinho dos cabelos raspados meteu a mão. Jorge baixou a objetiva com o medo de que o noviço percebia sua investigação. Antes do movimento, no entanto, conseguiu perceber o buraco no livro : o lugar de onde o seminarista desencaixou um celular.
