Duas epígrafes para escolher, a gosto da freguesa
“O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de enxergar os corações”
Nelson Cavaquinho
“ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite
a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes”
Ferreira Gullar
Agora estou vivo, mas amanhã posso morrer. Não que eu tenha algo que valha a pena dizer. Ou melhor, não que eu tenha a dizer algo que valha a pena escutar. Mas já tive algo a dizer. Estou vivo, amanhã posso morrer, tive algo a dizer e estou quase em paz. Eu nunca estive em paz. Agora estou quase. Falta só escurecer alguns pontos. Por isso, me encolho feito feto sobre o chão, abraço os joelhos contra a barriga e fecho os olhos. Falta escurecer alguns pontos e não me refiro ao uso dado por alguns ativistas negros da palavra, pelos pretensos arautos da literatura preta: o mesmo sentido do termo esclarecer, mas com o uso de um termo de sentido oposto, a fim de gerar um sentido supostamente subvertizador, uma indenização simbólica e reparativa da herança material da escravidão na linguagem. Não, graças a deus não me refiro a esse uso, afirmo apenas que falta escurecer alguns pontos. Por isso, além de fechar os olhos eu deveria apagar a luz, mas não consigo me levantar. Percebo que deveria apagar a luz, tento me levantar, tudo gira, minha barriga leva ferro dos cem ferros de cem punhais de gás, caio de cara no chão, meu nariz sangra um pouco, sinto frio muito frio, o sangue do meu nariz me esquenta um pouco, volto a deitar feito feto. De olhos abertos, vejo a garrafa de Velho Barreiro erguida sobre uma das caixas que tapam o chão do meu quarto e contém as cópias do meu livro de contos, “Cor de burro quando fica”. A garrafa de pinga, cachaça, branquinha, erguida sobre uma das caixas de papelão pardo que contém as cópias do meu livro de capa bege. Ao lado da garrafa, a cartela vazia do tarja preta. Eu ando com tanta vontade de viver que até li a bula primeiro. De olhos abertos, vejo as provas materiais de quando eu ainda não estava quase em paz. Fecho os olhos e vejo minha avó ao pé da mangueira do quintal me mandando descer, vejo a mim mesmo escrevendo minhas primeiras histórias no papel de pão, vejo o livro de Rubem Fonseca que meu pai me mandou no meu aniversário de 15 anos com um bilhete que dizia apenas, “tá na hora de você ler livro de homem”. Essas visões são a quase paz. De olhos fechados, porém, a paz se me esvai quando vejo o rosto de Theodoro Piva. Vejo seu sorriso largo de quando me conheceu num slam, leu alguns poemas meus e disse que tinha acabado de descobrir a nova joia da literatura brasileira. Ouço sua voz me comparando a João Antônio e Luís Vilela, me apresentando ao Luiz Schwarcz como seu pupilo e alguém capaz de fazer a linguagem do Geovani Martins parecer “coisa de velho coroca”, me orientando sobre os perigos de vender meus contos para adaptação de streaming, e dizendo que eu tinha de decidir se queria plagiar García Márquez ou Rubem Fonseca. E vejo seus olhos de quando o vi pela última vez. Na madrugada no kitnet da Praça Roosevelt onde ele morava durante seus processos criativos, de frente para uma parede branca com a inscrição de um verso em tinta preta, “Um arco-íris de ar em águas profundas”. A madrugada da última vez em que vi Theodoro Piva foi antes dele fazer minha caveira para todo o mercado editorial, antes de rescindirem todos os meus contratos, antes de eu passar de promessa promissora da literatura para fracasso redundante, antes de precisar voltar a dar aulas particulares e fazer bicos de fretista e pintor de paredes. Foi antes de eu publicar meu livro do meu próprio bolso, ouvir milhares de nãos e acabar com as caixas cheias de cópias naufragadas no chão do meu quarto. A madrugada da última vez em que vi Theodoro Piva foi quando ele me proibiu de dormir na rede que atravessava a sala porque eu não era “índio pra dormir em rede”. Ele me fez tomar um último copo de uísque e, generoso como sempre, se ofereceu a dividir comigo o único colchão da kitnet. Naquela madrugada, logo depois de tirar minha guia do pescoço e capotar no colchão, tive um pesadelo com minha avó me flagrando sarrar no tronco da mangueira do quintal. No pesadelo, minha avó disse, “Manduca, para de sem-vergonhice com a árvore, tadinha, papai do céu castiga. Sai daí ou corto seu negócio fora”. Com vergonha do flagra, o tronco da mangueira disparou para o alto, tocou as nuvens, seus galhos me pegaram pelo pescoço, me ergueram e me soltaram, meu corpo menino caiu e quicou no chão como uma manga quase podre de tão madura. Acordei assustado, uma pressão na bexiga, vontade de mijar e a lembrança do provérbio da minha avó: “sonho com árvore é mau presságio”. Olhei para baixo, vi minhas calças nos joelhos e Theodoro Piva com a boca no meu pau. Naquela madrugada eu vi a literatura morrer para mim. Ou, pelo menos, eu vi a literatura me matar. De olhos fechados, deitado no chão do meu quarto feito feto nesta madrugada, tento escurecer esses pontos e completar a quase paz. Mas eis que esses pontos me enfiam uma luz branca por trás das pálpebras, meu corpo não para de doer, não percebo a palma palpável e moribunda da paz a me velar os olhos, e sim o murro mordaz da guerra completa a me moer o âmago e o estômago. Não penso no terreiro da mãe Márcia e seu pano de cabeça branco, não penso em Seu Tranca-Ruas e sua cartola preta me protegendo e me abrindo os caminhos e fechando a boca da morte, não penso no amor. Penso apenas no grande escritor que eu poderia ter sido e que esse país filho da puta poderia ter tido orgulho de mim. Procuro divagar e sonhar, procuro completar a quase paz, e tudo que encontro é a mim mesmo, completamente lúcido e vazio ainda que repleto de branquinha e comprimidos de tarja preta. Não escureço nenhum rancor e me lembro de todos os nomes. Não esqueço meu nome. Eu me chamo Manoel Maranhão. Sou brasileiro. Por parte de mãe, venho de uma linhagem de lavadeiras, costureiras e empregadas domésticas vinda do Ceará. Por parte de pai não sei de onde venho, mas sei que ele veio de Salvador e fez a vida como advogado em São Paulo. Da família materna, sei ainda que alguns irmãos de minha avó viveram e morreram sangrando seringueiras no Acre. Essas são as poucas coisas que sempre soube sobre mim, carioca de nascença apenas, cabeça chata de cearense, na escola o paraíba, que é como chamam qualquer pessoa do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Bahia, de Alagoas, de Pernambuco, do Maranhão, do Piauí, de Sergipe e, talvez, também da Paraíba. E eu também sempre soube que era muito inteligente. Por isso mesmo, não me interessa contar meu primeiro contato com um livro ou como a leitura iluminou a pobreza da minha infância, porque já não tenho como vender livro nenhum. O que me interessa é contar que, quando podia tentar vender algum livro, eu gostava de usar a linguagem para incomodar, para provocar a crítica, desde que não chamasse o crítico de burro, porque aí a crítica não me vende. E quanto à linguagem em si, que da minha tanto diziam cheia de uma oralidade rasgada, com gosto de rua, só me resta concluir que nenhum crítico jamais lambeu uma calçada, muito menos a sarjeta, muito menos a rua inteira. E é claro que eu não usava a linguagem da rua, porque o crítico não quer provar a linguagem da rua, ou, se diz que quer, como fez com Ferréz, como fez com Roberta Estrela D’Alva, enjoa logo no segundo prato. Quem me dera que a crítica brasileira estivesse em busca de Proust ou à espera de Beckett. O que eles querem é descobrir alguém tentando ser o próximo Guimarães Rosa. E isso é que é foda. E o que eles querem é descobrir para estraçalhar o sujeito até não poder mais. E isso é que é foda. Aliás, eles querem mesmo é um pardinho pobre para polemizar com um pardinho ex-pobre enquanto estouram a pipoca e nós trocamos chumbo. É foda, mas eu toparia. Ah, quanta polêmica eu poderia ter feito com Itamar Vieira e a retidão de seus tortoaraders, com os devotos da Escrevivência que desumanizam a obra de Conceição Evaristo, com os tietes brancos e pretos de Stefano Volpi que acusam um crítico preto de racista. Eu seria o benjamin da crítica branca, eu seria seu verdadeiro chaveirinho, seu pardinho de estimação, seu costas-quentes. Eu seria, se não tivesse lançado aos ares os dentes de Theodoro Piva na madrugada em que acordei e o encontrei com a boca no meu pau. Digo, eu seria se não tivesse descido a porrada naquele filho da puta. Agora, deitado não mais feito feto mas procurando o céu além do teto do meu quarto, com as costas frias no chão, cercado dos livros que escrevi, paguei e jamais vou vender, percebo a oscilação do meu próprio estilo desde que comecei dizendo, “agora estou vivo, mas amanhã posso morrer”. Alguém poderia pensar que essa inconsistência de formato vem da ação da branquinha com o tarja preta. Ou ainda, alguém poderia pensar que essa inconsistência, de repente falar tão chulo, vem de um escritor que não sou eu e que nunca tomou branquinha com tarja preta. Alguém poderia pensar que eu mesmo não existo. Esses questionamentos todos me lembram que a sensação de quase paz já era, que a sensação de guerra completa já é, que eu existo porque meu corpo dói, que eu não deveria existir porque me preocupo mais com questões estéticas do que com a merda da morte saindo pela minha bunda e pela minha boca. Até na hora do suicídio eu penso em provar ser capaz de dominar um estilo com mais gosto de universal e cabeçudo, que os críticos podem pegar minha oralidade rasgada e enfiar e girar e rasgar o lugar onde o sol não bate. Até na hora do suicídio eu tento ser duas vezes melhor. Quem foi o pilantra que inventou isso daí? Não sei. Só sei que vou morrer e depois de morrer não vou descobrir. Vomito, cago, sinto finalmente escurecer os pontos que faltavam ser escurecidos. E então, do fundo de meu quarto de república repleto de cópias de um livro rejeitado, do fundo de meu corpo clandestino, sudestino, meio nordestino e totalmente rejeitado, ouço (não vejo) ouço uma voz. “Vale a pena viver se for pra escrever um livro que vai ser lido por um século ou dois?”, a voz diz. Não pode ser o Seu Tranca-Ruas ou minha avó, a voz deles não soa lisa assim e eles nunca fariam uma putaria dessas comigo. Abro os olhos, mas já não falta nada a escurecer. Sobram os cem ferros dos cem punhais de gás na minha barriga, a cabeça a ponto de explodir, o termo escurecer no seu sentido mais pertinente. E sobram os vômitos e as diarreias saindo de mim. A voz repete a pergunta. “É claro que vale, caralho”, eu digo por entre o vômito. “Então é só viver. E escrever esse livro que vai levar a gente pra a eternidade de um século ou dois”, a voz diz. “A gente é muita gente”, eu digo por entre o vômito. “Eu e você”, a voz diz. Pergunto quem está falando, a voz responde, “me chame pelo meu nome”. Xingo a voz muitas vezes por entre o vômito, porém ela nada responde, porém estou apenas entre o vômito e a merda do chão, não sai mais nada pela minha boca e pela minha bunda. Meus olhos já abertos se abrem de novo e vejo o chão do quarto cheio de caixas do meu livro e do meu vômito e da minha merda, vejo a garrafa de branquinha e a cartela do tarja preta vazias. E vejo o sol nascendo pela janela. Fecho os olhos e vejo um livro de capa minimalista com um sol nascente em preto e vermelho, cujo título é “Na berma do breu”. Abro os olhos novamente, tento me levantar, caio de volta ao chão, mas caio olhando a janela, caio com a certeza de que a madrugada acabou, de que estou vivo e de que o sol está nascendo. De olhos abertos, de olho no sol, decido que o autor do meu primeiro romance vai se chamar Valdemar Matutino.
E então se conclui a tormenta de merda e vômito e começa a bonança de luz.
