O Caderno das Cerdas

(Leticia Eboli)

Separe água, vinagre, azeite, sal e açúcar.

Para cada litro de um dos ingredientes líquidos acima, 

Uma colher (sopa) de sal e 3 de açúcar.  

Misture tudo em um recipiente grande. 

Reserve. 

Adicione macarronadas de chuva, cocô de pombo na cabeça, o respiro vivo após caldos de afogamento no mar. 

Mexa o suficiente até que ganhe consistência, com atenção para não deixar a massa uniforme. 

Equilibre a gosto com formaturas, aniversários, velórios, natais, carnavais. 

Distribua em potes. Depois os quebre. Veja o que sobra. 

Aqui sobraram 15 escovas de dente usadas. 

Inventário

Todas as escovas se encontram guardadas nesse pote de vidro grande e foram religiosamente desinfetadas em ciclos de uso. Se me acostumei a viver com uma memória péssima, sabia que após o diagnóstico do Alzheimer precoce, os dias seriam potes com instantes sem rótulos lado a lado numa prateleira silenciosa. Com a crescente falta de comunicação entre os fatos, me restava correr para documentar o que gostaria de deixar pro mundo e aceitar um futuro cada vez mais sensorial. Por isso, comecei a produzir cadernos temáticos, como o “Caderno das Cerdas”.

Antes de tudo é preciso dizer que não posso colocar na conta da doença uma mania antiga. Melhor, um ritual. Mania é palavra barata, da ordem de roer unha. Ritual não. 

Tudo começou em um dia corriqueiro na minha vida, já na era pós Sérgio. 

Na sexta, depois de quase doze horas sentada escrevendo, havia enchido a banheira com água pelando e deitado apenas com a cabeça para fora. Fiquei brincando de abrir e fechar os olhos lentamente, desconfiando se estava acordada ou dormindo. Foi quando avistei em cima da bancada da pia o pote de cerâmica terrosa com quatro escovas de dente. Na cena, as escovas  azul e a lilás estavam uma de costas para a outra. A lilás, por sua vez, beijava a laranja. E a verde no outro canto, era alheia a tudo. 

Na casa de apenas uma boca residente. A minha. As outras três escovas eram de visitantes e inaugiraram o meu acervo particular. 

  1. Escova Azul Sérgio. As do Sérgio tinham as cerdas esgarçadas, como foi o fim do nosso casamento que ficou se alongando por mais de dois anos em uma relação abusiva. 

“Nossa, como o Sérgio é sensível, inteligente, como vocês se separaram?” 

Hoje, conheço bem a capacidade destrutiva de um homem que sob os olhos das redes sociais é intelectual, de esquerda e feminista. Nas falas cheias de referência e no sexo bom viviam um tipo talvez menos óbvio de manipulação, que aquele cabo com borracha desgastada era testemunha. “Glória, você é simpática, mas não empática.” Como vivi tantos anos ao lado de um homem que me falava isso antes de dormir e eu aceitava? E em atitudes aparentemente invisíveis como a água suja do pote das escovas de dente ele se fazia de Deus transformando em poça a minha de autoestima. 

  1. Escova Laranja Javier. Com cerdas quase virgens, como o conto de fadas clichê de verão. Noites de caipirinha e maiô molhado no Arpoador, domingos de violão e cerveja gelada na varanda, quando a gente dormia sem planejar, com a boca achando que teria mais um gole da bebida deixada na cabeceira. Achava graça que quando escovava os dentes, ele se apoiava com os cotovelos sobre a bancada e balançava apenas um antebraço. No gesto de mínimo esforço, de quem e tem contas a pagar, não liga. Um dia simplesmente nos deixamos ir, cúmplices de que não ter futuro era o nosso maior trunfo. Ao Javier serei eternamente grata por me lembrar como é viver com leveza. Fiquei sabendo, que depois da temporada brasileira ele voltou pro Uruguai. 
  1. Escova Verde Jonas. Seminovas, não pelo tempo do relacionamento, que durou bem mais do que meu taxímetro toleraria para um homem casado. Um romance sem pernoite, exceto quando a esposa ia com o filho passar uma temporada na casa da família dela, em Minas. Se muito, ele recorria apenas ao bochecho rápido de um enxaguante bucal. E ia embora tão impessoal quanto o sabor menta resfrescante, ajeitando os bolsos da calça e o cinto às pressas por conta da esposa. Eu me sentia humilhada, jurando que seria a última vez, ele sempre voltava “só um drink, gatona, depois do trabalho”. 

Fabulações – Relato 1

Fiquei longos minutos observando esse pequeno buquet de cerdas e plástico. Me diverti pensando no trio Sérgio-Javier-Jonas convivendo no espaço e tempo do presente. Aprendi com a minha mãe a guardar escova de dente velha para pentear sobrancelha. Hoje, eu deveria ser o lobisomen para justificar o acúmulo. Esse sempre foi meu pretexto racional, mas fiquei revirando no meu inconsciente para entender o que me fez virar colecionadora desses objetos-cadáveres, que de certa forma resumiam os últimos anos da minha vida. 

Com as mãos de velhinha pelo tempo embaixo da água quente me levantei, pisei com apenas um dos meus pés para fora da água e alcancei o pote, catando as três escovas-cadaver. Já de volta à banheira, liguei o modo de hidromassagem, coloquei uma espuma de banho. Segurei as escovas pela cabeça de cerdas e chupei os cabos. 

Caralho. Putz. Glóóória. Tesão. Que mulher.  

Conforme ia regulando a força e velocidade dos movimentos circulares da minha boca, as cerdas iam sussurrando as palavras que cada boca-cúmplice costumava falar. 

Depois, afoguei as escovas, as segurando agora pelo cabo. Com as cerdas reunidas me masturbei tirando o melhor proveito do mix desgaste-verão-caipirinha-raiva-saudade fui na busca do gozo triplo atualizando a leitura do passado com uma mãozinha dos objetos bucais. 

(aposto que a técnica é bem mais eficiente do que ler o futuro pelas borras de café)

Fiquei esperando que na hora H aparecesse um rosto predominante como numa da roda da formatura de qualquer programa de auditório. Que nada. O gozo carregava um sorriso Colgate Branqueador, que definitivamente não era de nenhum dos três. 

Ainda molhada, fui a cozinha, enchi uma panela com água e liguei o fogo. Quando a água começou a ferver, desliguei o fogo, coloquei um pouco de limão, vinagre de maçã e gengibre ralado. Joguei as escovas dentro e deixei a panela tampada até o dia seguinte. Quando pela manhã, retirei as escovas e bebi três medidas do copinho do enxaguante bucal e tomei os shots agradecendo o prazer alcançado. 

Já secas, colei um pequeno adesivo impermeável catalogando como borboletas no museu cada uma delas anotando um número, pela ordem cronológica de início de relacionamento, e fazendo no papel que está de marcador aqui uma relação entre os números com o nome e a cor da escova. 

Agora, começo o caderno das Cerdas com os relatos dessas 15 escovas e de 10 masturbações, a partir de análises combinatórias mais inventadas do que reais, extraindo o que ainda resta de gozo da minha memória. 

Não são manias. São rituais. 

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