Escreveu, não leu, o pau comeu – minha mãe dizia sempre que eu firmava qualquer acordo de boca. E também dizia muito: “eu vi com esses olhos que a terra há de comer” e “comigo é ver para crer”. Sei que ela diria isso agora pro tabelião, de olho na assinatura do meu marido, pra ao mesmo tempo fazer uma piada seca e avisar que largar casamento de papel passado é mais difícil que largar amásia. E sei que os olhos dela ficariam molhados por me ver de vestido branco e um buquezinho na mão, mesmo fora da igreja. Pensei nela, quis chorar e quis dar com o buquê nas pessoas pra fila andar logo, porque eu ainda tinha de voltar pro trabalho. O vestido pinicava meus culotes, as tranças de kanekalon pinicavam meu couro cabeludo, meu marido apertava minha mão pra me tranquilizar. Só piorava, só me fazia olhar mais em volta e reclamar da demora. Aí eu vi, duas filas à esquerda, a postura curvada dele. Aí eu quis acreditar que estava vendo coisas. Aí eu quis comer meus próprios olhos.
Era ele. Sua cabeça tinha a parte de trás e as laterais de um black power, usava o terno de um idoso elegante e não trazia uma mochila puída nos ombros, mas era ele. Ainda tinha nas costas o calombo de um velho esculhambado e uma cara triste na cara. Ainda mais triste que antes, na verdade. Vi seu rosto e tentei lembrar do seu sorriso. Lembrei, olhei pro rosto dele mais uma vez, olhei pra cara distraída do meu marido, olhei pra minha mão e vi que tinha quebrado o talo de uma das flores do buquê.
Meu marido olhou pra mim, falou alguma coisa, eu olhei pro meu celular. Era minha chefe, falando também alguma coisa. Com certeza sobre o prazo da próxima coleção e a reunião logo depois do almoço, mas não li a mensagem. Olhei para os três casais na minha frente: duas mulheres de uns trinta anos, uma de blazer e saia pretos e outra de vestido branco; dois homens de uns quarenta anos, os dois de terno branco; e um homem e uma mulher, de uns vinte e muitos anos, ele de camiseta de um grupo de trap preta e ela de short e cropped brancos. Olhei pro tabelião, sua cara de pastel e sua mão de lesma. Olhei pra Ritinha encostada numa parede no final da fila, o cabelo com um brilho e um volume das que tem tempo de fazer umectação de óleo de coco. Ela estava com uma cara ainda boa de quem não sabia que não ia rolar o almoço no japonês de agradecimento por ser nossa testemunha.
Olhei pros carimbos, pro letreiro eletrônico vermelho com as senhas, pros copos de papel no bebedouro, pra sujeira no sapato do meu marido. Olhei pra todas as direções possíveis, mas meu pescoço voltava a girar pra esquerda, duas filas depois da minha. Pra não ter de dar na noite de núpcias com torcicolo, dei o pescoço a torcer. Encarei a nuca dele mesmo, dei aquela filmada. Ainda tinha a cara triste e a bunda redondinha e, claro, ainda era mais novo que eu. Mas parecia ter quase sessenta anos, e não quase quarenta.
Tentei fingir que precisava tentar lembrar há quanto tempo não nos víamos, tentei não ver os fios de conta que escapavam do colarinho de seu terno. E pensei que deveria tentar me ver a mim mesma olhando pra ele, chocada com o quanto ele tinha mudado, pra perceber o quanto eu continuava idiota e enfim desviar o olhar pro meu marido. E desviei o olhar das costas dele, só um pouquinho para o lado, onde estava uma garota loira de menos de vinte anos, de bunda e barriga chapadas. Olhei para minha mão e vi que tinha quebrado mais dois talos das flores do buquê.
“Calma, amor”, meu marido disse. “Assim não vai sobrar nada na hora da foto”.
“Foto?”, eu disse. “Não vai dar tempo, eu tenho que voltar pra reunião. Desculpa, baby, mas muito menos vai dar pra almoçar”.
“Vixe. Beleza, mas você conta pra Ritinha, tá?”, meu marido disse e riu.
A Ritinha estava com cara de fome de peixe cru, fome de salmão laranja e peixe branco, dei um tchauzinho pra ela com o buquê e ela respondeu com um sorriso amarelo. O casal de mulheres de blazer preto e vestido branco se beijou na ponta da fila. As duas foram embora carregando um papel. Eu peguei na mão do meu marido, pronta pra acabar logo com aquilo tudo, mas a fila não andou. O tabelião levantou do guichê e avisou que ia ao banheiro. Era um homem enorme, com pizzas enormes no começo das mangas da camisa social. Quando se levantou, notei sua barriga que parecia uma melancia. Meu marido soltou seus dedos dos meus, viu que estavam vermelhos, disse que também ia ao banheiro. Passei a mão por cima do vestido, apertei a pochetinha, parecia maior do que nunca. Senti vontade de usar o buquê pra martelar a banha da minha barriga até sumir. Chamei a Ritinha com a mão.
“Amiga, falta pouquinho, tenta não se descabelar”, Ritinha disse.
“Eu tô de trança, Rita”, eu disse. “E essa lesma que não volta, vontade de fazer escargot de tabelião”.
“Nem fala, eu tô com uma fome…”.
A lesma não voltava, nem meu marido. Enfiei o buquê na mão de Ritinha e a deixei de boca aberta guardando meu lugar na fila. Encolhi a barriga, enchi o peito, andei duas filas pra esquerda e toquei nas costas dele. Fiz tudo rápido pra minha mão não tremer.
“Manoel?”, eu disse.
Ele se virou para mim e sua cara parecia ainda mais triste que há dez anos atrás, ainda mais triste que há um segundo atrás. Eu acho que dei um sorriso, um meio sorriso, como quem diz: oi, tudo bem?, sei que faz muito tempo mas eu não podia agir como se não te conhecesse. Ele não sorriu. E tudo bem, não precisava sorrir. Não precisava fingir que não estava triste como sempre ou que não estava mais triste do que nunca. O que ele precisava é não agir como se não me conhecesse.
“Quem? Eu?”, Manoel disse. Disse com uma cara de chapa branca na cara desbotada de quem não devia ver o sol há dez anos, desde que desistiu de escrever. Deve ter envelhecido por isso, deve ter ficado mais triste por isso e, merda, me deixava triste por isso quando o que eu devia era ficar emputecida.
“Sou eu, a Sa…”, eu disse e olhei nos seus olhos, que não conseguiam sustentar os meus. Enquanto iam dos meus olhos ao chão, no tempo que leva pra quebrar um talo de flor de buquê ou um coração, os olhos dele apontaram bem de leve pra garota loira ao seu lado.
“Moça, acho que você se enganou”, a garota loira disse e tocou no meu braço.
Eu olhei pros olhos verdes dela, pra boca fina, pra barriga chapada e voltei pros olhos verdes. Ela encolheu o braço. Corri pra minha fila, arranquei o buquê da mão da Ritinha, apertei, duas flores se quebraram e caíram no chão.
“Nossa, que cara horrível. Quem era?”, Ritinha disse enquanto contava os dedos que não arranquei.
“O ex de uma amiga minha”, eu disse e percebi o líquido do talo das flores melando minha mão. “O idiota fingiu que não me conhece”.
“Vai ver ele tem Alzheimer precoce. Essa tua amiga gostava de um sugar daddy, né”, Ritinha disse.
“Nada, ele é mais novo que eu”, respondi.
“Mulher, o buquê não te fez nada”, Ritinha disse. “Mas estragou rápido, hein. Por isso tá casando com uma novinha, pra compensar o tempo perdido”.
O buquê caiu.
Eu ia dizer que a menina não tinha roupa de casamento, mas percebi o cara de camiseta de trap preta e a mulher de cropped branco olhando pro buquê caído. Também percebi meu pescoço angulando pra esquerda, pra conferir a garota loira da barriga chapada. Fiz força no pescoço pro sentido oposto, vi meu marido e o tabelião voltando do banheiro.
“Ritinha, vai lá e descobre por que eles estão aqui”, eu sussurrei.
“Provavelmente, pelo mesmo que você, ué”, ela disse.
“Então vai confirmar, porra”, eu gritei sussurando. Segurei na mão dela e dei um sorriso de noiva nervosa. “Por favor, amiga. Te pago um rodízio de sushi”.
“Dois, né?”, Ritinha disse de cara fechada e saiu andando pra esquerda.
Meu marido chegou quando eu estava agachada recolhendo e tentando restaurar o buquê. Levantei, enxuguei o suor com as costas da mão e limpei a palma no paletó dele.
“Meu deus, virou um purê de flor”, meu marido disse.
Os dois homens de terno branco foram até a mesa do tabelião de mãos dadas. Meu marido segurou minha mão. A pele dele grudando na minha me deu agonia, joguei a maçaroca de buquê no peito dele e fui para o banheiro. Esfreguei sabão na gosma verde entre meus dedos, o cheiro meio-doce-meio-podre me deu vontade de vomitar. A lembrança do almoço que eu não ia ter tempo de comer me deu vontade de vomitar. O cheiro do brilho labial de fruta sintética da garota loira me deu vontade de vomitar. Ela encostou na pia do lado, passou o brilho na boca e me olhou pelo espelho.
“Seu cabelo é muito bonito”, a garota loira disse.
Porra, Manoel, ela não deve ter nem vinte anos.
“Não é meu, querida. Nem cabelo é”, eu disse.
Ela desviou o olhar e guardou o brilho labial de fruta falsa nos peitos, duas maçãs pequenas e duras. Visualizei o fecho do meu sutiã fazendo força pra não arrebentar e minha pochete marcando o vestido branco. Fechei os olhos, peguei a garota pelos cabelos finos e ralos e loiros, enfiei a fuça de bonequinha de porcelana dela na cuba da pia.
“Parabéns pelo casamento, felicidades”, ela disse.
Abri os olhos e pelo espelho vi sua bunda chapada sair pela porta. Eu ia dizer, obrigada, flor, mas ela saiu antes. Olhei o resto de gosma verde entre meus dedos e saiu uma gosma verde da minha boca. Corri para o vaso, mas não deu tempo. Vomitei no vestido, tentei olhar pra mancha, mas tudo ficou embaçado. Ajoelhada no chão, abraçada na privada, fiquei sozinha cuspindo e tentando voltar a respirar e tentando parar de cuspir vômito e catarro.
“Amiga, as bi já foram. Tá quase na sua vez” Ritinha disse, com os farrapos do buquê na mão. “Ai, meu deus. Viu só, saco vazio não para em pé. Sua mãe nunca te disse isso não?”.
Eu cuspi uma última vez, mas só saiu saliva. Apoiei um cotovelo na privada e o outro nas mãos de Ritinha, me levantei, saí da cabine e me olhei no espelho: pior do que as flores que esfarelei. Abri a torneira e comecei a tirar as manchas do vestido e a maquiagem borrada da cara. Enquanto eu esfregava embaixo dos olhos, Ritinha disse que Manoel estava na fila pra reconhecer firma de uma tranferência de direitos autorais. Lembrei do livro dele que passou em branco e passei uma base que a Ritinha me entregou. Respirei fundo, me olhei no espelho, encolhi a barriga e abri a porta.
“Ei, o que eu faço com isso aqui?”, Ritinha disse atrás de mim e sacudiu o buquê.
“Joga no lixo, eu disse”.
Cheguei na fila e o casal de trap e cropped estava indo embora. Olhei pra esquerda, Manoel e a garota loira estavam sendo atendidos. Dei a mão para o meu marido e andei até o guichê. Ele apresentou os documentos e falou alguma coisa, o tabelião falou alguma coisa e eu falei alguma coisa, provavelmente um sim. Pegamos o papel assinado, ele me deu um beijo, Ritinha tirou me mandou sorrir muitas vezes até tirar uma foto decente. Peguei o celular, avisei pra minha chefe que estava indo. Insisti para meu marido ir almoçar no japonês com Ritinha. Ele disse que não fazia sentido irem sem mim, eu respondi que tanto fazia. Quando o uber chegou, abracei Ritinha pra me despedir.
“Ah, o tal Valdemar me mandou te dar isso aqui”, ela disse e me entregou um papel de moleskine dobrado.
“Valdemar?”, eu disse.
“O ex da sua amiga”, Ritinha disse da calçada.
Dentro do carro, depois de mandar minha localização pra minha chefe, desdobrei o papel e vi a mesma letra garranchada mas bonita de dez anos atrás.
“Querida Sara: para quem está anoitecendo, ver você foi como ver uma estrela cadente. Não pude dizer naquele momento, mas não te esqueço nem cego, surdo ou sem nariz. Felicidades pelo casamento, Manoel”.
Ele escreveu, eu li e não tinha comido nada. Desliguei o celular, pedi pro motorista parar num Habibi’s, amassei o papel e joguei pela janela.
